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Público - 14 Out 03
Os Assaltantes
Por EDUARDO PRADO COELHO
A notícia passou com relativa indiferença. Vi apenas o editorial de Nuno
Pacheco e um comentário muito certeiro de Helena Matos. Mas os actos são
absolutamente extraordinários! Um grupo de alunos do Instituto Superior
Técnico, funcionando no Taguspark em Oeiras, teve uma ideia excelente e
invulgar para as praxes académicas - essa instituição que é acarinhada ou
tolerada pelos próprios responsáveis de muitas escolas. De que se tratava?
Talvez influenciados pelo cinema ou pelas séries televisivas, estes alunos
pensaram - e em boa hora o fizeram - ir assaltar um banco. O lado de
iniciação que todas as praxes exigem, e que fazem a sua nunca assaz
celebrada dignidade antropológica, levou-os a obrigarem um grupo de
caloiros a integrarem-se à força no ataque à instituição bancária. Foram
assim a uma dependência da Caixa Geral de Depósitos (acho eu), entraram
por ali dentro, provocando o alarme nos clientes, que, de chapinha na mão,
se preparavam para ali passar uma parte simpática do dia, dirigiram-se ao
balcão e, certamente no "guichet" que diz "atendimento geral",
proclamaram: "Isto é um assalto!" Não sei muito bem o que se seguiu, mas
posso imaginar.
Numa notícia do PÚBLICO informava-se os leitores, que pudessem temer que o
sistema não fosse suficientemente compreensivo, que os referidos alunos
estavam a ter "acompanhamento psicológico". Helena Matos pergunta - e
muito legitimamente - se o mesmo está a ser feito com os funcionários do
banco e os clientes que participaram na cena. "Acompanhamento
psicológico"? - a ideia parece extraordinária. Creio que se devia
rapidamente convocar sociólogos (que encontrariam explicações na origem
social destas encantadoras criancinhas universitárias), antropólogos (que
explicariam a função integradora de instituições estudantis deste tipo, e
o modo como elas permitem que a memória das gerações se transmita) e
psicanalistas (que encontrariam no inconsciente as pulsões que explicam
esta irresistível vontade de assaltar um banco).
Assaltar um banco? Mas quem não o desejou um dia? Quem não imaginou a
constituição de uma reduzida equipa de profissionais, um especializado em
armas de fogo, outro com o carro à porta pronto a arrancar, outro capaz de
descer de surpresa dos mistérios do tecto, outro treinado na abertura de
cofres fortes, e lá vamos nós cheios de sacos com notas, lá vai cada um
para o Havai da sua vida, de preferência com uma mulher de cabelos pretos
e olhos esverdeados?
Verifica-se que, apesar de serem sempre excepções, as praxes académicas
levam a derrapagens profundamente inquietantes. Independentemente do
acompanhamento psicológico, e tendo em conta toda a aflição que os pais
devem sentir, talvez uma punição exemplar destes jovens tivesse alguma
vantagem. E talvez o fim das praxes académicas não fosse uma medida
destituída de sentido. Porque pelo caminho que as coisas levam ainda os
havemos de ver a incendiar florestas, afundar barcos de pesca e assaltar a
Assembleia da República. |