Público - 12 Out 03

Manifesto Anti-sistema
Por GABRIEL MITHÁ RIBEIRO

As reflexões propostas por Guilherme Valente [GV] no artigo "O eterno retorno do(s) mesmo(s)" (9/10) vão ao encontro de muitas preocupações expressas na "Pedagogia da Avestruz" [PA] (Gradiva). O livro concretiza de forma estruturada, objectiva, um programa de ruptura com a actual "paz podre" da educação e julgo que seria oportuno discuti-lo na linha do que propõe GV. A PA alerta também para o desastre do nosso sistema de ensino visto pelo lado de segmentos de professores do ensino básico e secundário, que creio significativos, mas até agora sistematicamente silenciados, oprimidos até, por uma espécie de quisto doentio edificado em torno dos que dominam as pedagogias, as ciências da educação, os sindicatos ou o ministério. Ao que parece, pelas palavras de GV, a nova Lei de Bases não será mais do que uma variação em torno do mesmo.

É extremamente acertado considerar que o problema do ensino é cultural, político, ideológico disfarçado pela capa aberrante das pedagogias/ciências da educação. Por muito que possa soar incorrecto dizê-lo, o facto de as teorias totalitárias que nos dominam terem centrado tudo no sacrossanto aluno está no âmago do desastre do nosso sistema escolar. De um ensino erradamente centrado no professor do tempo do Estado Novo, passámos para um ensino paranóico centrado no aluno. Curámos um mal com outro ainda maior. O problema é que, no ensino, três décadas depois da democratização, ainda vivemos numa espécie de intervalo revolucionário. Num caso e noutro, o conhecimento - a razão de ser da escola - tem sido esquecido, marginalizado, maltratado, num país cuja meta tem de ser vencer um atraso endémico. Não é por acaso que os Gregos fundaram a escola em torno da philos+sophia (amor ao saber). Os nossos teóricos, julgando ter descoberto a pólvora, subverteram esse princípio de forma no mínimo irracional: ficaram com a philos e no lugar da sophia colocaram o aluno. Os resultados estão à vista, ou seja, o descurar do conhecimento de forma próxima da irresponsabilidade. As vítimas acabam por ser os próprios alunos e todo um projecto de sociedade.

A esse dogma associa-se outro que tem sido imposto pelas ciências da educação como modelo de formação de professores, mas que na prática os deforma, fazendo deles intelectualmente preguiçosos, incompetentes, frustrados, desmotivados. Portanto, tendo por base os actuais paradigmas, os professores são contaminados logo no início da carreira. Se acreditarmos, tal qual revelação divina, que o aluno é o centro de tudo e que o professor é um mero polícia de trânsito entre o conhecimento e o aluno, um animador ou regulador de auto-aprendizagens, então leve-se isso ao extremo e encerrem-se as escolas. Abram-se bibliotecas ou livrarias em grande escala. Aí os
"alunos" consultarão ou comprarão o que quiserem, ou seja, aquilo que supostamente corresponde ao "seu interesse" e, quando precisarem, pedirão ajuda. E como na escolaridade básica os mesmos teóricos têm desvalorizado a avaliação, pois os exames nem sequer são necessários, basta que se fundem "clubes de amigos" para dinamizarem "auto-aprendizagens" e tudo correrá cor-de-rosa conforme a utopia das ditas "pedagogias activas".

Vivemos pelo menos há duas décadas, como parece evidente, dominados por estas teorias absurdas. É preciso assumir que o professor só e digno de o ser, primeiro e acima de tudo, se for um bom transmissor de conhecimentos. Na escola nada o substitui nesse papel. As pedagogias reinantes têm feito acreditar que os docentes serão bons se trouxerem muitos e diversificados materiais para a sala de aula (uns textozitos, sempre pouco extensos e muitas vezes desconexos, umas imagens, uns sons, uns jogos, que promovam uns debates, etc.) e se evitarem expor matérias para não maçar os alunos com o saber. O resultado prático, cada dia mais evidente, é o de os docentes irem perdendo o dom da palavra por si só sedutor (só quem fala por sistema num ambiente tranquilo com o tempo pode conquistá-lo), irem ganhando aversão ao saber racional e logicamente estruturado (para quê, se os convencem de que os alunos não necessitam disso), a sala de aula ir deixando de ser um espaço de tranquilidade, de silêncio, de respeito por hierarquias (assim nem sequer a higiene necessária às interacções humanas se aprende), o mistério cativante intrínseco ao saber tender a esfumar-se (a "escola da felicidade do e para o aluno" tem sido edificada no meio do histerismo).

São gerações e gerações de professores e de alunos que se perdem. Pode gastar-se o dobro em educação, continuando a fazer dela um sorvedouro de orçamentos públicos, caso não se enfrente a questão pelo lado ideológico da "pedagogice", jamais sairemos deste buraco.

Professor do ensino secundário/Almada, autor do livro "A Pedagogia da Avestruz" (Gradiva)

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