Diário de Notícias - 9 Out 03

A Terceira Idade
Jorge Coelho

A maioria da população mais idosa nas grandes cidades europeias está em completo abandono. Uma em duas pessoas com mais de 85 anos vive na mais completa solidão.

Esta é a conclusão de um relatório divulgado esta semana.

No Verão, o calor matou milhares de pessoas em França e várias centenas de corpos de idosos não foram resgatados pelas famílias. Esta situação causou um «calafrio» nas nossas consciências.

Um estudo da ONU aponta para uma diminuição da população europeia em 13%, entre 2000 e 2050 e a média etária vai aumentar dez anos, para os 48 anos.

Em Portugal, um estudo realizado pelo INE e onde é feita a projecção para a população residente no nosso país em 2050 aponta também para uma situação grave.

A diminuição de fecundidade e o envelhecimento vão contribuir para problemas graves a nível social e económico. Diz a projecção que a população residente vai baixar dos 10 257 milhares de pessoas em 2000 para 9302 milhares de pessoas em 2050. Mais, em 2000 a população jovem é de 16% e a idosa é de 16.4%. Em 2050 a taxa da população idosa vai duplicar passando para os 32%.

Este é o quadro que, seguramente, vamos encontrar dentro de quase 50 anos. É grave e complicado para os nossos filhos e netos. No entanto, não parece haver qualquer preocupação no discurso e na acção governamental sobre esta matéria.

É notório que, desde que este Executivo tomou posse, o tema de Terceira Idade deixou de fazer parte do discurso e da acção governamental _ isto sem qualquer motivo objectivo.

No que se refere aos idosos, a situação é ainda mais complexa, porque o caminho que tem sido seguido é de diminuir os apoios. Nos hospitais que também serviam de suporte aos idosos isolados e doentes, a perspectiva empresarial que foi dada à gestão hospitalar pode vir a colocar essas pessoas na rua e ao abandono.

E hoje, ao saber-se a diminuição que vai ter o Orçamento para 2004 na área da saúde, mais se reforça essa indignação perante a cegueira contabilística do poder instituído.

Também, as mudanças que estão a ser desencadeadas na Segurança Social vão criar imensas dificuldades aos portugueses que hoje trabalham, mas que não ganham o suficiente para subscrever sistemas privados que sirvam de complemento à reforma. Para já não falar do facto de muitas das reformas terem valores quase insignificantes.

Os reformados continuam à espera do grande aumento de pensões que Durão Barroso e Paulo Portas lhes prometeram na campanha eleitoral.

As iniciativas que foram desencadeadas pelo Governo anterior _ por exemplo, aumentos maiores para as pensões mais baixas e programas de ocupação de tempos livres _ não tiveram qualquer impulso e, em alguns casos sofreram cortes significativos.

Hoje, o Governo do PSD/PP, acha que ter uma política integrada para a Terceira Idade é ter o Conselho Nacional para a Política de Terceira Idade e a Comissão de Gestão do Programa de Apoio Integrado a Idosos.

É esta a única política para os idosos em Portugal. Lamentavelmente é muito pouco _ para não dizer, quase nada _ e de «vistas curtas», porque não está a antecipar respostas aos problemas graves com que nos vamos confrontar nos próximos anos.

Urge mudar de política para, também nesta área, estarmos à altura dum futuro com dignidade para todos.

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