Público - 2 Out 03

12-21
Por PEDRO STRECHT

A adolescência representa uma idade sobre a qual recai uma posição ambivalente dos adultos em geral. Para os rapazes e raparigas desta idade já não há, muitas vezes, a tolerância, compreensão e carinho que se difunde sobre os mais novos. Passou a idade em que a infância é conotada com uma certa aura de inocência, mítico paraíso ao qual não se volta nunca, excepto "os homens capazes de amar", como escrevia João dos Santos, porque nesses permanece muito viva uma peculiar forma de reactivar a posição infantil de ver o mundo. Passou essa idade, alguns assim o entendem, e chegou outra onde aquele corpo, aquela mente, já ousa, já desafia, responde, tem um novo poder físico e emocional face ao adulto. E tudo isso incomoda, torna mais complexo o mundo das relações, transforma as relações de poder e de viver, e eventualmente deixa os mais velhos numa posição incómoda. Se para muitos adultos a infância é o belo, a adolescência é o horrível. Se de um lado está o que é dócil, fácil, simples, no outro reside o que é áspero, difícil, complicado. Certo? Não.

Primeiro porque o contacto relacional com adolescentes é muito variado, salutar e estimulante, e isso bem o posso afirmar a partir do trabalho diário com rapazes e raparigas desta faixa etária, posição que se mantém mesmo quando se conhecem situações tão complexas e terminais como a de alguns com evolução marginal e delinquente. E em segundo lugar porque nada é possível de ser tão redutor como esta visão, até porque hoje em dia assistimos a uma sociedade que cada vez mais se comporta como adolescente; de facto, muitos adultos abdicaram de uma natural e saudável diferença de gerações, de estatutos e papéis, e organizaram-se na perspectiva do mito de uma eterna juventude, adoptando atitudes e comportamentos que em nada diferem dos mais novos, como quem parece ter, afinal, uma "inveja básica" desses anos "teen".

Ora, o que se pode notar é que, de uma maneira geral, aumentam as preocupações sobre o saudável desenvolvimento dos adolescentes, num tempo em que esta fase se tornou o maior período de crescimento, ocupando um espaço que, pelo menos, se estende dos 12 aos 21 anos, uma vez que a puberdade é mais precoce e a autonomia emocional mais tardia. Quer dizer, estão criadas as condições para fisicamente se estar crescido mais cedo do que há alguns anos atrás, mas emocionalmente mais imaturo do que dantes.

Na proximidade da celebração de mais uma Dia Mundial da Saúde Mental, especialidade médica que a Organização Mundial de Saúde estima vir a ser a mais requerida entre 2010 e 2020, parece útil dar algum destaque ao que se passa nestas idades, quais os principais problemas que se levantam e que medidas importa não esquecer de desenvolver.

As tarefas fundamentais da adolescência são três e têm a ver com modificações de relações: com o corpo (sobretudo com a sua parte genital), com os pais (num novo balanço entre dependência e autonomia) e com o grupo de pares (rapazes e raparigas) com a definição de uma orientação sexual. O sucesso destas modificações centrais na relação consigo próprio e com os outros depende da forma como decorreu a infância, e do jogo de forças que se continua a estabelecer com o que os rodeia, isto é, a família, os amigos, a escola, a comunidade.

Mas com que nos preocupamos hoje em dia quando pensamos nestas idades? São invariáveis os temas que qualquer pai ou adulto nomearia: droga, álcool, sexualidade, sucesso escolar, segurança.

Responder a estes problemas implicaria estar consciente de muitas coisas, que dizem respeito a áreas como a saúde, a educação, a segurança social e a justiça. Começando pela saúde, teríamos de alargar o tempo de atendimento que classicamente acaba aos 18 anos para, pelo menos, os 21, tal como já se passa noutros países da União Europeia. Por outro lado, era bom que no campo da saúde mental se pensasse que estas idades implicam uma difícil adesão a projectos de intervenção, com manejo de conteúdos complicados, como os da sexualidade (entre vários possíveis), e movimentos de identificação e rejeição muito fortes na relação com o outro, que exigem duas premissas que não são fáceis de estabelecer: tempo, tempo real para poder estar, conhecer, intervir e boa capacidade de ler, compreender e devolver adequadamente o que se passa no mundo emocional. Por isso é que faz dó notar que cada vez mais se passa o contrário: por exemplo, adolescentes que ninguém ouve, em que ninguém repara (a não ser para tentar manipular ou controlar), mal tratados e hipermedicados para conter pensamentos ou sentimentos não organizados ou incompreendidos. Trágico.

Na educação, também é bom não esquecer que as dificuldades escolares, a par com os problemas de comportamento, são o principal motivo de queixa me saúde mental, e que isso afecta uma enorme percentagem de estudantes. O 8º ano é o mais conotado com dificuldades e retenções, e muitos (quase 2/3 do total dos alunos) continuam a repetir um ano até ao final da escolaridade obrigatória, já para não falar do enorme número dos que abandonam o sistema de ensino. Anda ausente a ideia de que o sucesso escolar só é possível com um bom equilíbrio emocional, que a organização dos programas dá vantagem a características do funcionamento intelectual e emocional feminino, e desprestigia áreas importantes como as actividades físicas e as expressões artísticas (plástica, musical e dramática). Mas também sem aumentar o leque das respostas do ensino técnico-profissional, não conseguiremos dar a muitos a experiência da escola como meio de realização individual e, só depois, profissional.

Na segurança social, bastaria questionar: que protecção eficaz se dá aos jovens em risco? Que respostas existem para os que não podem privar do convívio diário com uma família e necessitam de uma instituição para os amparar e ajudar a crescer? Quando os problemas tocam a adolescentes entre os 12 e os 16 anos, sobretudo rapazes, quem responde?

Falta a justiça. Que equilíbrio existe entre o seu papel protector e a sua intervenção punitiva? Ou que sentido faz continuar a punir tanto e tão pesadamente sem que antes se tenha tentado proteger?

O Dia Mundial da Saúde Mental será apenas mais uma oportunidade para se poder pensar sobre os mais novos e o que de melhor desejamos para eles. De conhecer as suas características, os riscos e as respostas. Na certeza porém de que uma possibilidade de mudança passa por todos nós, os pais, os adultos, de quem eles dependem. Porque, ao contrário do que se possa pensar, os adolescentes gostam no geral dos seus pais, desejam protegê-los, querem o melhor para eles. Sonham conhecer esse mundo gigante dos adultos, mesmo quando o contrariam, o desafiam ou o negam. E, por isso, seria um erro ignorar tudo isso e esquecê-los, não lhes dizendo: estamos aqui e faremos todos o melhor que soubermos. Para que sejam felizes.

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