Criar um ambiente de "terra queimada" é
suicidário em política
José Manuel Fernandes
Quando a crise alimenta um
descontentamento inorgânico, minar todas as
referências políticas, incluindo o Presidente, pode
ter resultado no curto prazo mas é um erro
estratégico
Há 200 anos Portugal lutava pela sobrevivência. Ou,
se preferirmos, procurávamos sobreviver no meio da
maior miséria e sofrimento com a ajuda de um corpo
expedicionário inglês comandado pelo duque de
Wellington. Os últimos e decisivos combates seriam
travados em 1810, no Buçaco e frente às Linhas de
Torres Vedras e é pena que não os celebremos com o
mesmo destaque com que vamos comemorar a
proclamação, cem anos depois, da República. Quem
procurar uma boa introdução aos combates que então
se travavam pode ler um livro recentemente editado,
Wellington contra Massena (Gradiva) onde o papel do
disciplinado exército inglês, o sacrifício de
milhares de portugueses, a traição de alguns nobres
e, sobretudo, o desprezo absoluto pela vida humana,
a total desumanidade do marechal francês - o mais
talentoso depois de Napoleão -, nos permitem não só
perceber como um exército mais pequeno venceu um
mais poderoso, mas também como Portugal era pobre e
mais pobre ficou ao praticar a política de "terra
queimada" indispensável para travar o avanço dos
franceses.
Nessa altura esse supremo sacrifício justificava-se,
mesmo que nem sempre tivesse sido bem aceite:
tratava-se de preservar a nossa independência. Mas
as feridas que deixou foram terríveis. Ainda há
poucos anos era possível ouvir, nas regiões rurais,
quem recordasse a passagem dos homens de Massena, as
searas e as colheitas destruídas e as aldeias
abandonadas para que não encontrassem alimento, as
sangrentas represálias do chamado "Exército de
Portugal", o corpo militar que Napoleão colocara sob
o comando de Massena para dominar este irredutível
canto da Europa.
Mas se há 200 anos a política de "terra queimada"
foi essencial para o triunfo dos britânicos e dos
portugueses, em política e em tempos de crise
recorrer à política de "terra queimada" é
extremamente perigoso. Mesmo quando alguém se sente
cercado.
É pois conveniente olhar em perspectiva para alguns
acontecimentos políticos dos últimos dias e nunca
esquecer que, mesmo os que não acreditam em bruxas
admitem, à espanhola, "pero que las hai, las hai".
Ora aquilo a que assistimos foi a um crescendo da
contestação social, protagonizado sobretudo pelos
professores mas latente em muitos sectores da
sociedade, que ao mesmo tempo que engrossava dava
sinais de não ter ponto de fuga. Ou, para ser mais
exacto: o descontentamento, nalguns casos mesmo a
fúria, de muitos portugueses face a políticas do
actual Governo não era enquadrável por nenhum
partido da oposição com respeitabilidade para ser
alternativa.
O culminar desta fervência inorgânica foi o episódio
dos "ovos", um episódio que ameaçava tornar os
ministros prisioneiros nos seus gabinetes: onde quer
que emergissem podiam ser humilhados. Já não por
sindicalistas facilmente identificáveis, mas por uma
massa de gente que surgia de lado nenhum mobilizada
por SMS. Corria--se o risco de nem sequer poder,
vejam lá, continuar a entregar computadores
Magalhães...
Quando, no meio deste ambiente político, estalou a
crise do BPN, e quando esta se revelou nos seus
aspectos mais sombrios, tornou-se possível dirigir a
atenção para outro lado, e não restam dúvidas que a
oportunidade seria aproveitada para virar os canhões
para outra direcção. A ideal: o Presidente da
República, de repente o estadista que podia sair à
rua sem correr o risco de ser recebido com ovos ou
tomates.
A oportunidade foi dada por Dias Loureiro que, mesmo
podendo estar absolutamente inocente, e deve
presumir-se que está, se começou a comportar como um
fugitivo. Ainda por cima um fugitivo mal amanhado. O
combustível foi atirado para a fogueira por ondas de
boatos que depressa começaram a circular pelas
redacções. E o resultado está à vista.
Em pouco tempo o Presidente da República tornou-se
no alvo das atenções, sentiu-se obrigado a vir
defender a sua honra num comunicado e acabou
encurralado por Dias Loureiro que, apesar da clareza
das mensagens enviadas por Belém, se fez de
inocente, pediu uma audiência, violou depois o
compromisso sagrado do sigilo e, fosse o que fosse
que se tivesse passado na conversa em Belém, deixou
Cavaco Silva sem alternativa senão dizer que não
podia condenar quem nem sequer tinha ainda sido
formalmente acusado.
Desta forma, por via de boatos de origem indefinida
e da acção do dirigente do PSD que se prestou a
homenagear publicamente o "menino de ouro do PS" no
lançamento de um livro, o país arrisca-se a
regressar ao clima de uma guerra de "terra queimada"
onde nenhuma referência se salva: nem Governo, nem
oposição, nem Presidente. Em democracia não se deve
brincar com o fogo - mas numa democracia em tempos
de crise, optar pela táctica da "terra queimada"
pode ser suicidário.