OCDE prevê mais 50 mil desempregados em Portugal
no próximo ano Sérgio Aníbal
País pode chegar a 2010 com meio milhão de
desempregados. Trabalhadores do sector automóvel e
com contratos a prazo são os mais atingidos pela
crise
A queda dos principais parceiros comerciais de
Portugal vai forçar a economia nacional a um
crescimento negativo no próximo ano e desencadear a
subida da taxa de desemprego para o nível anual mais
alto de que há registo, prevê a Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
De acordo com as previsões ontem apresentadas pela
entidade sedeada em Paris, a economia portuguesa
vai, entre o presente ano e 2010, ficar sempre com
uma taxa de crescimento económico claramente abaixo
de um por cento, com destaque para a contracção de
0,2 por cento prevista para 2009.
A consequência mais grave para os portugueses será o
agravamento acentuado da situação no mercado de
trabalho, com a taxa de desemprego a pode passar de
7,6 por cento em 2008 para 8,5 por cento em 2009 e
8,8 por cento em 2010. Esta subida da taxa,
significaria - tendo apenas em conta o actual valor
da população activa - o aparecimento de cerca de 50
mil novos desempregados durante o próximo ano e de
cerca de 20 mil em 2010. O número total de
desempregados ficaria, no final desse ano, muito
próximo do meio milhão e a taxa seria, em termos
anuais, a mais alta desde 1983, o primeiro ano para
o qual foi possível obter dados junto do INE.
OCDE mais pessimista
A OCDE torna-se, com estas previsões, na primeira
entidade a antecipar um aumento acentuado deste
indicador em Portugal como consequência da actual
crise económica. Outras entidades, como a Comissão
Europeia, apesar de preverem um crescimento lento,
apontavam para subidas marginais do desemprego.
Stefano Scarpetta, o director da divisão de Emprego
da OCDE, explica, em declarações ao PÚBLICO, que
"até agora, Portugal, como outros países,
beneficiaram de uma descida do desemprego na
primeira metade deste ano, mas agora a situação está
a inverter-se". Este economista assinala que, a
nível internacional, os sectores mais afectados são
a construção e o automóvel. No caso português,
afirma, este último pode ser o mais preocupante.
Scarpeta lembra ainda que o aumento do desemprego se
faz normalmente à custa dos trabalhadores com baixas
qualificações, jovens e com contratos a prazo. Nos
últimos três anos, o crescimento do emprego em
Portugal fez-se essencialmente pelo aumento dos
contratos a prazo.
Num cenário deste tipo, torna-se mais difícil a
concretização do objectivo de criação de emprego
traçado, no início da legislatura, pelo Governo. De
salientar, contudo, que Portugal não está sozinho
nesta tendência negativa. Prevê-se igualmente o
aparecimento de oito milhões de novos desempregados
nos países industrializados do Globo entre 2008 e
2010.
A previsão ontem revelada pela OCDE para 2009 é a
primeira a colocar o crescimento português no
próximo ano abaixo de zero. Isso deve-se mais ao
facto de a OCDE levar em conta os últimos
desenvolvimentos negativos do que ao facto de ser
mais pessimista que o FMI ou a Comissão Europeia. A
OCDE revela uma particular preocupação relativamente
ao que se irá passar ao nível das exportações e do
investimento.
Mas, apesar do crescimento negativo, Portugal poderá
obter, segundo a OCDE, um resultado melhor do que a
zona euro, cuja projecção de crescimento é de -0,6
por cento para 2009. A confirmar-se, será a primeira
vez em oito anos que Portugal conseguirá uma
variação do PIB mais positiva (neste caso, menos
negativa) do que a média dos seus parceiros do euro.
Nigel Pain, o economista da OCDE encarregue da
análise sobre Portugal, explica que este resultado
"se deve, em parte, ao facto de a economia
portuguesa não ter, como aconteceu na maior parte da
Europa, crescido muito nos últimos dois ou três anos
anos e não ter registado, por exemplo, uma escalada
de preços no seu mercado imobiliário ou um aumento
muito forte do crédito concedido". Ou seja, Portugal
já cresceu pouco nos últimos anos, evitou alguns
excessos e a correcção, agora, será menos brusca.
Convergência curta
No entanto, o regresso de Portugal a uma
convergência com a média europeia deverá ser de
muito curta duração. De acordo com a OCDE, a
economia nacional não conseguirá, logo em 2010,
recuperar de uma forma tão forte como os seus
parceiros europeus. Enquanto a zona euro deve
crescer, nesse ano, a uma taxa de 1,2 por cento,
Portugal fica-se pelos 0,6 por cento.
A que se deve este regresso tão rápido a uma
divergência? Nigel Pain diz que Portugal terá de
continuar a passar por "um período longo de
ajustamento" e lembra que "o crescimento potencial
português está entre 1,1 e 1,2 por cento, enquanto
na zona euro se situa entre 1,75 e dois por cento".
Assim, no momento em que a crise se dissipar, as
debilidades estruturais portuguesas virão ao de
cima, colocando o país a crescer menos que os seus
parceiros europeus.
O economista da OCDE não é, ainda assim, um defensor
da adopção em Portugal de políticas de estímulo
económico. Tudo por causa do actual valor do défice
público. "O Governo português tem menos espaço de
manobra do que outros Executivos", afirma,
defendendo que o país "deve tirar partido da descida
de taxas do BCE e do efeito positivo dos estímulos
orçamentais de outros países europeus, mantendo uma
atenção especial ao que se passa no seu sector
financeiro".