Crise chega às misericórdias com os pais a não
conseguirem pagar as creches dos filhos Cláudia Lomba
Às pessoas que já se encontravam em dificuldades,
juntam-se as que não se viam a pedir ajuda. Cavaco
Silva fala em "pobreza envergonhada"
Há cada vez mais pais com dificuldades para pagar as
creches e jardins-de-infância dos filhos. O alerta
foi feito ontem pelo presidente da União das
Misericórdias Portuguesas (UMP), Manuel Lemos, na
inauguração da nova sede das instituições, em
Lisboa. Manuel Lemos garantiu ao PÚBLICO que o
número de pedidos de ajuda por parte dos pais "não é
alarmante", mas "é mais um sintoma que reflecte as
dificuldades" que os portugueses estão a passar. As
misericórdias que reportaram a existência destas
situações estão, sobretudo, em zonas suburbanas,
afirmou o presidente.
Recentemente, Manuel Lemos chamou a atenção para o
crescente número de famílias que estão a retirar os
idosos dos lares para poderem aproveitar as suas
reformas. Uma situação "preocupante" que leva as
misericórdias a colocarem questões relacionadas com
o tratamento dos idosos que saem das instituições.
"Será que as famílias que nos vieram pedir para
colocar lá os seus parentes, agora, de repente, têm
condições para assegurar o seu bem-estar? São
questões que nos preocupam", admitiu Manuel Lemos.
O presidente da UMP voltou a referir o número de
pedidos de ajuda, via e-mail, cada vez mais
recorrente, por parte não só dos que já dela
necessitavam, mas também por parte de pessoas que
"há uns meses não se viam em situações de tanta
dificuldade".
"Pobreza envergonhada"
O Presidente da República, Cavaco Silva, também
presente na cerimónia de inauguração, chamou a
atenção para o novo tipo de pedidos de apoio, por
parte de pessoas que "procuram esconder a cara no
momento em que procuram ajuda". Para o presidente,
esta "pobreza envergonhada" tem origem no
"desenvolvimento de novas formas de pobreza", que
surge sobretudo por parte de pessoas que "não
pensavam vir a precisar de ajuda", ou eram
"voluntárias em instituições de solidariedade social
e procuravam ajudar os outros, e hoje estão numa
situação para procurar apoio para elas próprias".
Cavaco Silva sublinhou a importância das
misericórdias neste contexto, já que "os que
trabalham nas instituições conhecem melhor do que
ninguém" estas realidades.
Cavaco Silva deixou uma palavra de reconhecimento
"pelo trabalho das misericórdias" e congratulou-se
com a colaboração entre estas instituições e os
poderes públicos, algo que tem de continuar. "É
preciso trabalhar em rede e fortalecer a ligação das
instituições de solidariedade social com os
ministérios apropriados."