Seria trágico se um processo que pretende assegurar
a qualidade acabasse afinal com ela
Apalavra "monstro" para designar o Ministério da
Educação é muito anterior ao mandato dos actuais
ocupantes da 5 de Outubro. Numa entrevista ao
Expresso, o eng.º Belmiro de Azevedo usou-a há anos
sem papas na língua: "O Ministério da Educação
sempre foi um monstro dentro de outro monstro que é
a administração pública. Esse ministério é o maior
empregador nacional e deve possuir o maior teor de
burocratas no sistema. Continua a gerir numa lógica
de continuidade aquilo que existe, em vez de gerir
numa lógica de base zero, por reformular o sistema
por completo. Não têm existido verdadeiras reformas
educativas." Inquirido sobre a solução, respondeu:
"Devia haver uma reforma que abrisse e
descentralizasse o sistema de ensino. O ministério
devia ser um regulador, validador de currículos, da
qualidade do exame, e deixar o sistema funcionar,
descentralizado."
Mas o problema é que pouco mudou nos últimos tempos:
o monstro continua monstruoso, com DRE, despachos,
circulares, grelhas, etc. A pseudo-avaliação
burocrática de professores que ele pretende impor a
todo o país provém de uma velha e enorme máquina,
que já devia ter sido esboroada. Parafraseando Kafka,
burocrata é alguém "que escreve um documento de dez
mil palavras e lhe chama sumário". E os "sumários"
não cessam de jorrar...
Os professores, que, na sua esmagadora maioria,
marcharam em protesto em dois fins-de-semana
sucessivos (num com e no outro sem sindicatos) pelas
ruas de Lisboa, vieram dizer uma coisa muito
simples: querem ensinar sem o monstruoso sufoco de
que são vítimas. De facto, ensinar é o que sabem e
gostam de fazer e é, aliás, o que é preciso que eles
façam. O ministério devia querer isso deles, mas a
palavra parece banida do seu vocabulário. Se ele
quisesse ensino, então precisaria mesmo deles, pois
não há, obviamente, ensino sem professores.
Entre os professores, os melhores são os mais
precisos. Para o seu apuramento é mister um processo
de destrinça e de recompensa. Quero crer que a
maioria dos docentes aceita um método de avaliação
sério e competente, mas esse método terá pouco a ver
com o caos que, burocraticamente, o monstro está a
instalar nas escolas. Por outro lado, parece-me
claro que os sindicatos não querem avaliação
nenhuma, quanto mais não seja porque muitos dos seus
dirigentes já não ensinam há muito tempo, e ficariam
decerto chumbados se a qualidade do ensino fosse o
factor decisivo na avaliação. O Governo tem todo o
direito de combater os sindicatos. Mas já não tem o
direito de confundir os sindicatos com os
professores e de agredir indiscriminadamente os
segundos descarregando a sua raiva aos primeiros.
Governo e sindicatos são dois monstros em luta pelo
poder e nem professores nem alunos deviam ser
vítimas dessa luta.
Muitos dos melhores professores, para preservar a
sua saúde mental, estão a abandonar a profissão, com
manifesto prejuízo da qualidade do ensino público. O
ministério, ao deixar que os melhores se afastem,
comete um erro que irá custar caro a todos nós.
Permite que o privado se distancie mais do público.
Que os alunos mais desfavorecidos fiquem ainda mais
desfavorecidos.
A Escola Infanta D. Maria, em Coimbra, que é a
melhor escola pública de acordo com os rankings dos
exames do 12.º ano, já decidiu suspender o processo
de avaliação para não se degradar. Se todas as
escolas seguissem esse exemplo, o actual impasse
poderia cessar com a vitória das escolas e do
ensino, e não dos sindicatos. O monstro da 5 de
Outubro, por muitos tentáculos que estendesse, não
conseguiria chegar a todo o lado e punir a esmo. De
realçar que, ao arrepio de falsas divisões que foram
cultivadas, os pais confiam nos professores e estão
com eles. A Associação de Pais do D. Maria foi
bastante clara: "Não queremos que esta escola perca
a qualidade que tem". Seria trágico se um processo
que pretende assegurar a qualidade acabasse afinal
com ela. Professor universitário