Os sindicatos e movimentos de professores, se
vencerem o ministério, estão condenados a cair com
ele
Já aprenderam a lição? Tendo trocado os gabinetes e
as salas de aula pelas ruas e conferências de
imprensa, há meses que governantes e professores se
esforçam por ensinar a toda a gente que o sistema
público de educação, tal como existe, só pode ser um
quebra-cabeças. Criado para ser a solução de todos
os problemas, tornou-se o problema de todas as
soluções. Talvez tenha chegado o momento de pensar
radicalmente noutra coisa.
A educação foi sempre aquilo a que os políticos
portugueses recorreram quando não sabiam o que
fazer, ou não queriam fazer coisas mais complicadas.
Desde há anos que a sabedoria internacional e
nacional assentou no pacote de mudanças
indispensáveis para dar aos portugueses novas
oportunidades de enriquecer. Mas a maior parte -
diminuir o peso do Estado, corrigir a rigidez e
falta de concorrência dos nossos mercados, tornar a
justiça eficiente - são reformas ingratas. Para
qualquer governo, só duas das recomendações prometem
boa disposição: construir estradas e povoar as
escolas. Em ambos os casos, trata-se de gastar mais
e criar empregos, o que agrada a todos.
Chegámos assim a ser um dos países europeus com mais
auto-estradas e que, em relação à sua riqueza, mais
despende com o sistema de ensino. Por volta de 2001,
porém, houve que reconhecer que, quanto mais
alcatroado e diplomado, menos o país prosperava.
Voltou-se a falar das tais "reformas estruturais".
Os mais hábeis, porém, logo descobriram como fugir à
seringa. Por um lado, havia novas tecnologias para
experimentar. Por outro lado, o sistema de ensino
não estava a funcionar bem. Mais despesa não
significara mais sucesso. Muita gente continuava de
fora, e os resultados em testes internacionais eram
humilhantes.
O actual Governo pôde assim voltar, com boa
consciência, às soluções de sempre. Ao lado dos
aviões e comboios, continuou a célebre "paixão da
educação". Desta vez, no entanto, a abordagem foi
menos agradável. O Governo aproveitou a
centralização e burocratização do sistema estatal de
ensino a fim de tentar, de cima para baixo, arrancar
às escolas, com a menor despesa possível, os números
necessários para poupar ao país as mais óbvias
vergonhas estatísticas. O regime de avaliação dos
professores ou o das faltas dos alunos foram peças
dessa campanha de produtividade.
O ministério, para manter o actual sistema de
ensino, precisa de provar que é reformável. Os
professores, incomodados nas suas velhas rotinas e
confortos, decidiram provar o contrário. A
decorrente zaragata tem sido curiosa. Poucas vezes
em Portugal se viu os dois lados de um debate
precisar de recorrer tanto à hipocrisia: empenhado
em remover as regalias e poderes da classe, o
ministério jura no entanto ser "sensível" aos
professores; os professores garantem que querem as
"reformas", quando - como classe profissional
envelhecida e sem a perspectiva de grandes
recompensas - não têm verdadeiramente motivos para
as desejar. Lá fora, o público, que não gosta dos
professores ("privilegiados") e aprendeu a
desconfiar das melhorias anunciadas pelo Governo,
mantém-se geralmente céptico. O ministério, apesar
das sondagens de opinião, e os sindicatos, apesar
das marchas de fim-de-semana, fazem a guerra
sozinhos.
A ministra da educação está para o actual sistema
público de ensino como Marcello Caetano para o
Estado Novo. Se falhar, perante os ultras do
sindicalismo e da movimentação, vamos ver quase de
certeza, nos próximos tempos, o 25 de Abril
educativo que alguns andam a reclamar há anos:
autonomia e governo próprio das escolas (já quase
toda a gente aprendeu a falar disso), novas formas
de financiamento (dirigido às famílias e não aos
estabelecimentos de ensino), integração de escolas
estatais e privadas num mesmo sistema público
concorrencial, avaliação de escolas e professores
baseada nos resultados dos exames, e por aí fora. É
o que falta experimentar, e há-de provavelmente ser
experimentado. Mais não seja, por simples falta de
alternativa, depois do colapso das actuais reformas.
Os sindicatos e movimentos de professores, se
vencerem o ministério, estão condenados a cair com
ele, como aconteceu aos sindicatos e aos movimentos
que em Inglaterra, em 1979, destruíram o governo de
James Callaghan. Sem a obstinada e turbulenta
resistência sindical às reformas do gabinete
trabalhista, num país então estagnado como está
agora Portugal, não teria sido possível a revolução
thatcheriana da década de 1980. As grandes mudanças
começam sempre assim, por linhas tortas. Historiador