Ajudar as famílias para apoiar as crianças Patricia Jesus
Solidariedade. A casa Ronald
McDonald de Lisboa acolheu o primeiro casal com um
filho internado no início do mês. Localizada junto
ao Hospital Dona Estefânia, permite aos pais ali
instalados prestar uma assistência constante aos
filhos durante a sua permanência no hospital. O
conceito foi lançado nos EUA
Internamento é corte brusco na dinâmica familiar
"A nossa vida há três meses resume-se ao hospital",
conta Ricardo. O jovem militar, de 26 anos, e Vanda,
de 23, viveram os últimos dois meses no Dona
Estefânia. O filho, Bernardo, foi internado pouco
depois de fazer seis meses com síndrome nefrótica,
explica Ricardo, apressando-se a traduzir por miúdos
- "os rins deixaram de funcionar". "No primeiro ano
de vida são situações muito graves", explica
Margarida Abranches, pediatra.
Os últimos meses foram complicados e por isso não
queriam perder o Bernardo de vista. Assim, até há
duas semanas, "cada um deles ficava uma noite no
hospital e o outro ia a casa, em Aveiras de Cima,
tentar desenrascar, tratar da roupa", conta Ricardo.
"O cansaço físico e psicológico é tremendo e não há
cabeça para mais nada", acrescenta. "Felizmente, as
coisas começaram a correr bem para ele e também
melhoraram para nós", diz. Há 15 dias mudaram-se
para a casa Ronald McDonald, a cinco minutos do
hospital. "Funciona como uma base de apoio e, como
só um é que pode ficar com o bebé durante a noite, o
outro vem cá dormir, tratar da roupa". "No fundo,
aqui estamos mais perto de casa", diz.
Pela casa, inaugurada no início do mês, já passaram
famílias de Viseu, Santarém, Faro, Setúbal e Évora.
Em comum, têm o facto de ter uma criança internada
na Estefânia. Foi construída para isso, trazendo
para Portugal um projecto de solidariedade que
existe em todo o mundo.
Como o hospital serve toda a área sul do País, ilhas
e países de língua oficial portuguesa, há muitas
famílias deslocadas, explica Margarida Abranches. A
médica não tem dúvidas de que a presença dos pais é
fundamental para a recuperação das crianças: "O
internamento é um corte brusco e violento na
dinâmica familiar. Se os pais estiverem presentes,
as crianças aceitam muito melhor a intervenção dos
médicos e dos enfermeiros. Sentem-se protegidas",
conclui.
Por isso, o hospital tem uma política de portas
abertas, "os pais podem estar com o bebé 24 horas
por dia". "Mas para estar a 100% precisam de um
sítio onde descansar e o hospital não tinha
condições para isso", diz a pediatra. "Este projecto
veio acrescentar essa capacidade", conclui. São os
serviços sociais do hospital que seleccionam e
encaminham as famílias para a casa.