Se antes era preciso estudar as causas dos maus
resultados em Matemática, agora é urgente estudar as
causas do milagre
O ano lectivo de 2007/2008 ficará para sempre na
história da educação em Portugal. Nunca saberemos
exactamente o que se passou. Mas a verdade é que
ocorreu um milagre nos resultados dos exames (do
básico e do secundário) e na avaliação das escolas e
dos estudantes. Centenas e centenas de escolas viram
as suas médias saltar, é esse o preciso termo, de
negativas e medíocres níveis para positivas e
gloriosos escalões. Mais de 400 escolas que hoje
exibem médias positivas em todos os exames nacionais
encontravam-se há um ano na lista negra das
negativas. Considerando as vinte disciplinas do
secundário com mais inscritos, mais de 82 por cento
das escolas têm agora médias positivas. A média
nacional dos exames de Matemática, negativa há um
ano, é agora de mais de 12 valores! Há um ano,
apenas 200 escolas conseguiam média positiva a
Matemática. Agora, são mais de mil! Mais de 90 por
cento das escolas têm agora média positiva a
Matemática. Há escolas com médias a Matemática de 18
valores! No conjunto das duas disciplinas,
Matemática e Português, 97 por cento obtiveram média
positiva! Nas oito disciplinas principais do
secundário, a média positiva foi atingida por 87 por
cento das escolas!
As médias da Matemática, crónico cancro do sistema,
eram o quadro da desonra de uma população
manifestamente incapaz de contar. Pois bem! São hoje
o certificado de honra e talento de um povo para o
qual as equações e as derivadas deixaram de ser
mistério. É possível que muitas escolas portuguesas,
para já não dizer a média de todas, se situem hoje
entre as mais competentes do mundo em Matemática!
Muita gente ficou feliz. Professores gratificados,
estudantes recompensados e pais descansados podem
comemorar o feito. Nas universidades, esperam-se
agora massas de alunos motivados e qualificados. Nos
empregos, sobretudo na banca, nos seguros, nas
empresas de engenharia e nos laboratórios
científicos, esfregam-se as mãos na expectativa de
receber, dentro de poucos anos, profissionais
extraordinariamente preparados para as contas, o
cálculo e o raciocínio abstracto. Nos jornais e nas
televisões, onde os jornalistas confundem milhares
com milhões e não sabem calcular uma percentagem ou
uma taxa de variação, teremos, brevemente, dados
exemplares e contas limpas. Começa uma nova era!
O problema é que ninguém acredita! Os interessados
não escondem um sorriso matreiro! Os outros, com
sobrolho enrugado, desconfiam. Como foi possível?
Tanto melhoramento em tão pouco tempo? De um ano
para o outro? Melhores professores? Melhores alunos?
Novos métodos? Programas renovados? Mais tempo de
aulas? Manuais mais bem elaborados? Nova organização
curricular? Professores mais empenhados e
disponíveis para passar mais horas a ensinar
Matemática? Mais explicações privadas? Todas estas
perguntas têm necessariamente resposta negativa.
Nada disso era possível num ano, nem para a maioria
dos alunos e das famílias. Quem desconfia tem razão.
E só encontra três explicações: os exames foram
incompreensivelmente fáceis; as regras de avaliação
foram extraordinariamente benevolentes; ou houve
ingerência administrativa para corrigir as notas. O
ministério e o Governo não escapam a estas hipóteses
e, se estivessem realmente interessados em conhecer
o que se passa na escola, teriam impedido este bodo,
não se teriam mostrado beatamente satisfeitos e
teriam já procurado saber as razões do milagre. A
não ser, evidentemente, que o tenham preparado e
encenado.
Se, até há dias, era indispensável estudar as causas
e as consequências dos maus resultados em Matemática
(assim como do Português, da Física e da Química),
agora passa a ser urgente estudar as causas e as
consequências deste milagre. Teria sido essa, aliás,
a atitude honesta de um ministério e de um Governo
preocupados com a educação dos cidadãos. Se ambos
são estranhos a esta hipertrofia de resultados, se
nenhum teve qualquer influência no processo de
avaliação e se ambos estão de boa-fé, então teríamos
uma decisão oficial que, de imediato, se propusesse
saber as razões e os fundamentos de tal facto.
Ninguém duvida de que educar mal é tão pernicioso
quanto não educar. Em certo sentido, é pior.
Preparar profissionais, técnicos, cientistas e
professores num clima de complacência e facilidade
pode ter resultados desastrosos. As expectativas
criadas não são satisfeitas. As capacidades
presumidas são falseadas. O desperdício social e
económico é enorme. E é criada uma situação fictícia
onde fazer de conta se transforma em virtude. Para
tranquilidade dos contemporâneos e para desgraça das
gerações futuras.
A publicação de todos os resultados nacionais,
seguida da elaboração dos rankings respectivos,
transformou-se num hábito, em breve será uma
tradição. Ainda hoje há erros de avaliação, de
apuramento e de classificação, além de que alguns
tentam distorcer os resultados para dramatizar o
panorama. Com o tempo, as coisas vão melhorando.
Mas, depois de resistências de toda a ordem, a
começar pelas de ministros, funcionários e
professores, o gesto anual faz parte do calendário
educativo. Tem tido consequências positivas. Há
escolas, autarquias, professores e pais realmente
preocupados com a percepção que todos temos deles.
Querem melhorar e querem que se saiba. Não desejam
ser conhecidos como as ovelhas ranhosas. Mas o
efeito mais perverso foi inesperado. Tudo leva a
crer que este milagre é um resultado colateral da
abertura de informação. Se os resultados
continuassem secretos, talvez os governantes não se
tivessem ocupado do assunto. O próximo mistério é
este: como conseguirão o Governo e o ministério
convencer a comunidade internacional (já que, pelos
vistos, a nacional não lhes interessa) da justeza e
da bondade destes resultados?
Ausente de Portugal durante duas semanas, não
acompanhei directamente os episódios mais
importantes na controvérsia entre o Governo, o
Parlamento, o Governo dos Açores e o Presidente da
República. Mas a leitura dos jornais atrasados é
esclarecedora. O Presidente da República tem razão.
A sua interpretação das normas constitucionais é
adequada e legítima. Se ele deixa fazer, o Governo
fará. Creio, aliás, que uma das razões que explicam
o gesto do Governo e do Partido Socialista é mesmo
essa: saber até onde podem ir. Se podem neste caso,
poderão também noutros. Não só neutralizam os
poderes do Presidente, como alteram o equilíbrio
constitucional. Mais ainda: se percebem que o
Presidente, para evitar conflitos, é complacente,
então desdobrar-se-ão em gestos do mesmo tipo.
Parece que o Governo e o PS não perceberam com quem
se meteram.