Público - 28
Nov 06
Lurdes Rodrigues lamenta maus resultados dos
alunos
Bárbara Wong
Conferência internacional debate relação entre
educação e desenvolvimento
O retrato é deixado pela ministra da Educação, Maria
de Lurdes Rodrigues: em Portugal, o investimento em
Educação é "forte", a par do que os outros países da
União Europeia fazem, mas os resultados ficam muito
aquém.
"O país parece ter cristalizado num ciclo vicioso de
baixa formação", resumiu ontem a governante, num
encontro internacional sobre educação, inovação e
desenvolvimento, promovido pela Fundação Calouste
Gulbenkian, em Lisboa, que hoje termina.
E está ou não o desenvolvimento de um país
directamente relacionado com a aposta na educação e
inovação? Angel de la Fuente, do Universidade
Autónoma de Barcelona, Espanha, acredita que sim,
que o "capital humano" é importante para o
desenvolvimento.
Edward Lorenz, da Universidade de Nice, França, vai
mais longe e aponta que a formação ao longo da vida
permite por exemplo às empresas inovar e ter
colaboradores mais activos. Em países - como
Portugal ou Espanha - onde não existe uma aposta tão
grande em formação, quer nas escolas quer nas
empresas, a qualidade e produtividade no trabalho é
menor, avalia.
Para a ministra Lurdes Rodrigues o investimento que
tem sido feito tem de ter "resultados", de maneira a
que Portugal consiga posicionar-se entre os
melhores. "É insustentável a persistência de baixos
níveis de formação", sublinha. E aproveita para
defender que as políticas que o Governo tem adoptado
- a aposta no 1.º ciclo, a diversificação de ofertas
no secundário, os programas de formação ao longo da
vida -, são os meios para conseguir minorar o
"fosso" que separa Portugal dos países da OCDE.
Família e escolas
Face ao investimento feito, como conseguir então
melhores resultados? - pergunta a comissária da
conferência e ex-ministra para a Qualificação e
Emprego (do Governo de Guterres), Maria João
Rodrigues.
A família é um factor importante, responde o
ex-ministro da Educação do PS Júlio Pedrosa. Os maus
resultados escolares devem-se à heterogeneidade
sócio-económica e ao nível educativo das famílias,
que têm pouca formação académica, diz. Pedrosa
aponta ainda a "frequência e natureza das conversas"
entre pais e filhos - se fossem "mais culturais", os
alunos poderiam ter outros resultados.
"Os pais não podem alhear-se, têm de se
responsabilizar e não podem entregar os filhos à
escola", acrescenta João Picoito, administrador
delegado da Siemens. Quanto à escola, também tem um
papel fundamental no sucesso dos alunos: "Não há
ensino de qualidade sem professores motivados."
Para a ministra, os docentes não são um problema;
estes "estão ganhos, porque a sua causa é a causa
dos resultados escolares e da melhoria da escola
pública", diz aos jornalistas.
"A educação não se resume à condição
sócio-profissional dos docentes e na sala de aula os
professores estão a responder às necessidades de um
modo bastante competente", continua, desvalorizando
o descontentamento manifestado nos últimos tempos.
Também os alunos são uma peça importante, refere
João Picoito. "Têm de perceber que a escola é um
investimento que o Estado e os contribuintes fazem
neles." "Não há desenvolvimento sem inovação e é
claro que não há inovação sem educação", conclui.