Público - 25 Nov 05

Investigador sul-coreano reconhece que mentiu e usou ovócitos de colaboradoras

Clara Barata

 

Duas investigadoras doaram células sob nomes falsos, disse ontem Woo-Suk Hwang publicamente, reconhecendo o erro

Woo-Suk Hwang, o investigador coreano que pela primeira vez produziu células estaminais a partir de embriões criados de propósito para o efeito, demitiu-se ontem de todos os cargos oficiais. Assumiu a responsabilidade por ter agido contra as regras éticas da investigação, ao aceitar a doação de ovócitos para as experiências de jovens investigadoras da sua equipa.
A pressão sobre Hwang tornou-se enorme, depois de o investigador norte-americano Gerald Schatten, que se uniu ao sul-coreano para criar um centro de investigação sobre células estaminais em Seul, ter anunciado que cortava todos os laços com ele por ter a certeza de que tinha usado a doação de células de cientistas que trabalhavam sob a sua alçada. Isto não é aceitável, porque pessoas numa posição de autoridade, como Hwang, não devem aceitar doações de tecidos de colaboradores. A ideia é evitar abusos ou actos de coacção por parte de alguém com poder e este princípio é aceite internacionalmente.
Esta semana, um médico do hospital Miz Medi, em Seul, já tinha reconhecido que pagou, do seu próprio bolso, os ovócitos usados nas experiências que deram origem ao artigo publicado na revista Science, no início de 2004, dando conta da clonagem de embriões humanos para colher células estaminais. Sun Il Roh, que é também co-autor do artigo na Science, admitiu ter pago perto de 1500 dólares a cada uma das 20 mulheres cujos ovócitos foram usados na experiência. "Não é muito dinheiro, considerando que tiveram de receber injecções diariamente durante oito a dez dias."
Pagar pela doação de ovócitos não era ilegal na Coreia do Sul em 2003, quando foram feitas as experiências, mas passou a sê-lo em Janeiro de 2005. E Roh garantia que Hwang não sabia como tinham sido obtidos os ovócitos.
Só que as televisões e jornais sul-coreanos começaram a investigar o que se tinha passado, até porque Hwang se tinha transformado num herói nacional.
Foi assim que o investigador se viu obrigado a confessar que algumas investigadoras da sua equipa tinham doado os seus ovócitos para fazer as experiências. Continua a afirmar, no entanto, que isso aconteceu sem a sua autorização.
Reconheceu também que algumas mulheres receberam pagamento pelos ovócitos, embora também sem o seu conhecimento. "Precisávamos de muitas células, mas não havia ovócitos suficientes", explicou Hwang. Foram precisos 242 ovócitos para clonar os embriões que deram origem às primeiras culturas de células estaminais embrionárias criadas de propósito.

"Sinto-me
muito envergonhado"
Mas o cientista admitiu que mentiu, quando começaram a surgir questões sobre a proveniência das células usadas para criar embriões. "Sinto-me muito envergonhado por ter de confessar estas coisas vergonhosas e miseráveis", disse Hwang. "Peço sinceras desculpas por ter causado tantos problemas no meu país e no estrangeiro."
No entanto, garante que, quando duas das investigadoras que trabalham com ele se ofereceram para doar os seus ovócitos, recusou a oferta. Mas elas doaram-nos na mesma, sob nomes falsos, explicou Hwang. Diz que acabou por descobrir a marosca, mas que mentiu, em declarações públicas, a Gerald Schatten e nos artigos científicos, porque as investigadoras lho pediram. "Não pude ignorar o pedido veemente que me fizeram para proteger a sua privacidade."
Este escândalo não invalida o trabalho da equipa de Hwang. O cientista disse que ia continuar a trabalhar na área, embora se tenha demitido de director do centro de investigação de células estaminais, criado no mês passado para fornecer culturas destas células a investigadores em todo o mundo que quisessem estudá-las.
O Governo sul-coreano, no entanto, continua a apoiar Hwang. Um porta-voz do Ministério da Saúde disse que as doações de ovócitos das investigadoras não eram propriamente contra a lei, porque foram feitas de forma voluntária - embora contrariem os princípios éticos aceites internacionalmente.
"Aprendi uma lição dolorosa: devo conduzir a minha investigação de uma forma calma e cautelosa, cumprindo os princípios que são aceites a nível global", disse Hwang.

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