Diário de Notícias - 23 Nov 05

Portugal usa e abusa dos antibióticos

Vera Moura

 

Bactérias ganham resistência provocada por uso indevido dos medicamentos

automedicação. Doentes são indisciplinados e não cumprem horários

 

Portugal ocupa o quarto lugar no ranking dos países da União Europeia que mais utilizam antibióticos, subindo para a segunda posição no caso específico do consumo das quinolonas (um grupo de antibióticos de largo espectro).

Os números constam de um estudo sobre o uso dos antibióticos em Portugal, ontem apresentado na Escola Nacional de Saúde Pública, em Lisboa. Este estudo foi realizado pela indústria farmacêutica Pfizer em parceria com o Ministério da Saúde, Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed), Direcção-Geral de Saúde, Ordem dos Médicos e Ordem dos Farmacêuticos.

A investigação - que contou com inquéritos a mais de 1600 pessoas - apurou que, na população portuguesa, o conhecimento ainda é baixo, não só em relação ao uso correcto dos antibióticos mas também quanto aos riscos resultantes da sua má utilização. O número de bactérias resistentes aos antibióticos tem vindo a crescer devido ao mau uso dado ao medicamento, o que significa que no futuro ficaremos sem armas para combater as infecções bacterianas.

Quase metade dos inquiridos (43%) ignora as situações em que o uso dos antibióticos é inadequado, e 22% são da opinião de que deve tomar antibióticos para combater a gripe (mito a combater - o antibiótico não serve para curar doenças causadas por vírus).

A automedicação e a indevida adesão à terapêutica (incumprimento de horários e duração dos tratamentos) são os comportamentos-tipo que mais preocupam médicos e farmacêuticos em Portugal.

Apesar de 97% dos inquiridos assumir que tomam antibióticos depois de ir ao médico, existe outros motivos 4% admite pressionar o médico para a prescrição, 14% toma "sobras", 4% assume tomar o mesmo antibiótico quando sente "os mesmos sintomas", 3% partilha com terceiros e 17% admite pedir na farmácia, alegando que mais tarde leva a receita.

No âmbito da consciência sobre o impacto ambiental e ecológico, um em cada três entrevistados confessou que deita no lixo as embalagens de antibióticos inacabadas, sendo que apenas 37% afirma entregar estas embalagens na farmácia.

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