Público - 28 Nov 03

Problemas, Problemas...
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

1. O Ministério da Educação meteu-se na maior das trapalhadas ao centralizar a colocação de professores. O sistema anterior era, todos o sabiam, péssimo: obrigava os professores sem colocação a correr o país à procura  e vagas e facilitava o sistema da "cunha" descentralizada, isto é, gerida no recato de cada escola. O novo sistema, por erros informáticos, falhas da burocracia, "cunhas" mais visíveis e sindicatos furiosos por perderem alguma da influência que tinham escola a escola, revelou-se um atoleiro onde os responsáveis políticos se afundam cada dia que passa. Suspeito que nenhum inquérito os salvará da trapalhada. E creio que só uma medida radical resolveria, a prazo, este problema: acabar com o centralismo monstruoso do Ministério da Educação, passar as responsabilidades do pessoal docente para as autarquias locais (tal como já sucede com o pessoal auxiliar), acabar com a unicidade da carreira dos professores, flexibilizar a gestão das escolas em função das diferentes realidades locais, responsabilizar e profissionalizar a gestão escolar. Isto para além de envolver mais as famílias na vida das escolas. É assim que se trabalha, por exemplo, nos países nórdicos, onde os resultados escolares são muito melhores. E onde não existe a mesma tradição napoleónica. Uma tal reforma diminuiria o poder do ministro e, sobretudo, da burocracia do Ministério, tal como diminuiria o poder de chantagem dos sindicatos. Para além de acabar com inúmeras estruturas intermédias e centenas de destacamentos de professores. É por tudo isso que ela não se fará: são demasiados os interesses políticos, corporativos e de influências em jogo.

2. Ontem soube-se que as organizações não-governamentais ligadas ao desenvolvimento se queixava de que ia deixar de poder trabalhar porque estava a ter dificuldades em receber subsídios do Governo. O título do "Diário de Notícias" era mesmo taxativo: "Estado asfixia as ONG". Porquê? Porque parece que o Estado deseja que lhe sejam passadas facturas ou, em alternativa, fornecida uma garantia bancária. E as ONG estavam habituadas a adiantamentos. O caso, porém, não deixa de ser curioso. É que se é verdade que o Estado deve apoiar as ONG que trabalham na ajuda ao desenvolvimento - até porque estas são mais eficientes a gastar o pouco dinheiro disponível -, não deixa de ser paradoxal a total dependência das ONG em relação aos governos. Afinal, trata-se ou não de organizações "não governamentais"?

3. Infelizmente, sobretudo nos países onde se está sempre a pedir tudo aos governos, estes também não se fazem rogados a meter-se onde, à partida, julgaríamos impossível intrometerem-se. Veja-se, por exemplo, o que acaba de suceder em França. Num tribunal é escolhido um jurado e entre os seus membros figura uma mulher de religião muçulmana. Quando o julgamento se inicia, esta declara que pretende usar o tradicional véu. Num país normal não se veria como o dito véu poderia toldar a lucidez da senhora em causa. Em França, no entanto, isso é visto como um atentado à laicidade do Estado. Solução: telefonar ao ministro da Justiça, Dominique Perben, na altura ausente em Espanha. O que não o perturbou: de imediato pediu ao Ministério Público que solicitasse a substituição da jurada (já imaginaram um ministro em Portugal a pedir o que quer que fosse ao Ministério Público?) e este não se fez rogado. E a mulher lá teve de sair do júri. Por ordem de um ministro. No século XXI. Na Europa.

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