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Profissão, filhos, casamento, casa... Quatro
universos próximos, porém distintos, fontes de verdadeira
10
passos para conciliar papéis
Sugestões da psicóloga Maria Teresa Ribeiro para melhor
conciliar o casamento, a família e a profissão:
1. Ter presente que o casal
e os filhos precisam de amor
e que o amor também precisa de tempo
2.
Respeitar o “eu”, o “tu”
e o “nós” na relação conjugal,
doseando, no compromisso conjugal, a autonomia
e a intimidade
3.
Não casamos só para o melhor, por vezes também existem
momentos piores, há que saber perdoar
4.
Não desistir à primeira crise... Se não conseguem resolver
os dois, não hesitem em pedir ajuda especializada
5.
Ser optimista, positivo e criativo face às dificuldades que
inevitavelmente surgem. Quando há vontade de resolver e
quando se partilham as preocupações, tudo tem uma solução
6.
É muito importante o valor que se dá ao compromisso na
relação – o investimento afectivo e a busca da satisfação em
conjunto, bem como o esforço para manter a estrutura e a
estabilidade na relação a dois
7.
Aprender a delegar responsabilidades, a partilhar tarefas com
marido e filhos, não tentando copiar modelos, como se só
desempenhasse apenas um dos papéis
8.
“A família está em crise, o casal está em crise, mas o casal
e a família são a resposta a essa crise” (E. Morin, 2001)
9.
É possível acreditar que hoje há bons casamentos e que
mulheres, homens e crianças beneficiam de relações estáveis
e duradouras em que há amor e compromisso
10.
“Pomos o pensamento de tudo quanto amamos em tudo quanto
fazemos” (J.R. Tolkien, 1966) |
realização, mas que, juntos, começavam
a trazer imensas dores de cabeça a Paula – publicitária, casada há
oito anos e mãe de duas crianças. A certa altura, esgotada por
tentar vivê-los todos com a mesma intensidade e com o
perfeccionismo que os seus talentos caprichosos exigiam,
desesperou e maldisse o dia em que alguém teve a ideia de colocar
as mulheres no mercado de trabalho em pé de igualdade com os
homens, aqueles (ou aquelas) que inauguraram uma nova era de
realização profissional para o sexo feminino, mas que se
esqueceram de que isso mudaria o conceito e toda a organização da
família, levando à reformulação dos papéis não só da mulher como
do homem.
Feministas e políticos tinham razão
no que reivindicavam: deixar a mulher de lado era desperdiçar
metade do talento produtivo de uma população. Tinham razão ainda
por o trabalho ser uma fonte de realização para inúmeras mu-lheres
– e Paula não é excepção — , mas o casamento e a maternidade
são-no igualmente. Ora o tempo parece escasso para tantas tarefas
que requerem dedicação e empenho. Para Paula, começava a ser
difícil fazer tudo como sempre sonhou. E a frustração estendia-se
a António, o marido, sobre quem recaía a dura tarefa de se adaptar
aos novos tempos e conceitos.
Paula e António não estão sós. Pelo menos nos grandes centros
urbanos, partilham estes momentos de angústia com milhares de
outros homens e mulheres que se encontram a redefinir a família,
quando a mulher também trabalha. É a factura a pagar quando se
vive uma fase de transição. Transição que decorre não só da
mudança dos tempos e das urgências, mas principalmente da
alteração do papel da mulher dentro da sociedade e da família.
De acordo com a psicóloga e terapeuta familiar Ana Paula Relvas,
no livro Novas Formas de Família (Quarteto Editora), “(...) não
será impunemente que nos encontramos no tal ‘meio do caminho’
(...) aquele que é caracterizado por ser um período caótico no
sentido de ‘sem ordem’, e não tanto de desordem, prenúncio de nova
ordem, novas estruturas, novas possibilidades – por isso, é
designado transformação, crise ou transição”.
Portugal é o país europeu com mais mães no mercado de trabalho.
Assim, é legítimo que as nossas famílias sintam ainda com mais
força o impacto desta realidade. Num passado não muito distante,
os papéis estavam mais ou menos assentes: os homens eram os chefes
da família, trabalhavam fora para o sustento dos seus e
encarregavam-se das finanças e papeladas, “que era para isso que
os homens estavam ta-lhados”. As mulheres, estas, com a sua forma
de ser, a sua sensibilidade e outras “suavidades”, eram a
engrenagem central da mecânica familiar, pertenciam ao domínio do
lar, a ver crescer os filhos, a orientá-los, a cuidar da casa e da
família. Poucos problemas havia em relação ao papel que cada um
devia cumprir nesta encenação tantas vezes ensaiada nas
brincadeiras de criança.
Depois, a mulher entrou em força
no mercado de trabalho. E isto é um facto. Um facto aceite e
assimilado pela sociedade (ainda que, em Portugal, pouco
instrumentalizado pelas entidades competentes em prestar apoios
estruturais face a esta nova realidade). Mas quando se trata de
interiorizar estas mudanças a nível individual e pessoal, estes
processos são mais lentos, acabando por trazer reflexos e
conflitos para o seio das famílias.
A angústia que
isso gera foi um dos motores que levou a psicóloga Maria Teresa
Ribeiro, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, a
desenvolver uma tese de doutoramento sobre os novos modelos
familiares (mais precisamente o Tradicional, o Independente e o
Ambivalente) e a forma como homens e mulheres os vivem.
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O tempo,
o casal e a família
Bem de primeira necessidade, mas escasso nos dias que correm,
digam o que disserem, o tempo é fundamental não só para a
família como para o casal. É difícil falar de família e de
modelos de conjugalidade sem levar em conta a necessidade de
lhes dedicar
o tempo que merecem. “Durante uma determinada fase, uma
família aguenta uma mãe e um pai muito absorvidos no trabalho.
Mas se isto for regra geral, padrão habitual, torna-se
insustentável”, observa Maria Teresa Ribeiro, da Faculdade de
Psicologia de Lisboa.
De acordo com esta psicóloga:
- O casal está sempre em formação. Está permanentemente a
“fazer” a relação e a reajustar. E aqueles que dedicam algum
do seu tempo à essência do seu casamento, que o vão
construindo, conversando e pondo o outro a par da sua evolução
ao longo da vida, são de certeza mais felizes. E quando os
filhos saem
de casa, não se sentem “desasados”, pois têm um espaço próprio
- Hoje, a tendência é que cada um cresça no seu sentido.
O mais provável é que vão crescendo separados, divergindo e
distanciando-se. É importante compensar esta tendência. E
mesmo com o corre-corre quotidiano, é possível criar situações
que privilegiam o espaço do casal. Não passa por ter dinheiro
para pagar babysitters e coisas do género. É uma questão de
preocupação e criatividade.
A privacidade que o casal cria no quarto – fazendo com que
este limite seja respeitado pelo resto da família – é um
exemplo das pequenas coisas que se pode fazer
- É importante o casal não se fechar sobre si próprio. Dar-se
com casais que estão na mesma situação ou com os quais se tem
afinidades é uma boa maneira de contrariar esta tendência.
Mesmo não podendo contar com uma rede familiar de apoio, é
possível criar uma rede de amigos que se entreajudam, que
cumpre o mesmo objectivo
- Não se deve ver a questão da falta de tempo como o fim do
mundo e deixar-se afogar por ela. Há solução para tudo, mas
tudo passa por se estabelecer prioridades, por se dizer “não”
na hora certa (seja para limitar o excesso de trabalho seja
para não se deixar
que se invada o espaço do casal e/ou da família), por se pôr a
cabeça a funcionar e inventar alternativas, por encaixar esta
preocupação na lista das coisas importantes que não devem ser
descuradas no casamento (e na família) |
Inspirada em
trabalhos internacionais, como o da psicóloga Mary Anne
Fitzpatrick que identificou modelos semelhantes na sociedade
norte-americana, Maria Teresa Ribeiro pretendia estudar casais
nacionais e verificar se estes modelos se aplicavam à nossa
realidade. Apesar de considerar “cada casal como único e
irrepetível”, tentava com isso encontrar respostas para diversas
questões que abalam a estrutura e o modo de funcionamento dos
casais e famílias portugueses.
Reflexo perfeito dos novos tempos, Carlos e Teresa trabalham, têm
dois filhos e muitas características típicas do que muitos
apelidariam de “casal moderno”. De acordo com o estudo de Maria
Teresa Ribeiro, este é um casal que se encaixa perfeitamente no
modelo de relação conjugal designado por Independente.
Pouco satisfeito com o seu trabalho
no sector imobiliário, Carlos assumiu dentro de casa muitas das
tarefas tradicionalmente atribuídas às mulheres, uma vez que a
vida profissional de Teresa, como advogada, era muito mais
exigente, absorvendo muito do seu tempo.
“Nunca tive grandes objectivos de carreira e, portanto, tenho mais
disponibilidade para cuidar da casa e dos filhos. Quando estão
doentes, por exemplo, sou eu que fico em casa pois, a nível
profissional, é menos penalizante para mim”, explica Carlos. A
mulher vê-se como uma privilegiada. “Se não fosse o meu marido,
teria de ser uma verdadeira supermulher, descobrir os meus dons de
magia para fazer o tempo multiplicar-se e terminar o dia ainda
mais esgotada do que já termino.”
Carlos sempre mudou fraldas, deu banho às crianças e cuidou delas.
Dedica-se também mais do que a mu-lher aos cuidados da casa. “O
que mais me custou foi aprender a desempenhar estas tarefas, pois
não estava preparado. A minha educação não passou por aprender e
vivenciar estas experiências. Isto não significa que achasse que
estas deveriam ser tarefas a desempenhar apenas pelas mulheres.
Acho mesmo que elas nem gostam de as fazer, mas é um trabalho que
tem de ser feito... O sentido prático feminino e a questão
cultural levou a que fossem sempre elas a encarregar-se de as
fazer... até agora.”
Entre os casais do modelo Independente, a divisão de papéis
familiares e profissionais tende a ser diferente das tradicionais,
pode mesmo ser completamente inversa, como é o caso de Carlos e
Teresa. “Este é o único grupo, de entre os casais estudados, em
que se verificam casos em que o pai tem preponderância
relativamente à mãe no que diz respeito ao cuidado e educação dos
filhos”, explica a psicóloga.
Como a maioria dos homens e mulheres que se enquadram neste
modelo, Carlos e Teresa afirmam sentir a necessidade de espaço
próprio e de autonomia, defendendo esta posição de forma
persistente no seu dia-a-dia.
A individualidade é uma componente forte
e reflecte-se no discurso destes casais, enquanto a partilha é um
aspecto menos intenso nas relações conjugais deste modelo, uma vez
que o dar e o receber dentro do casal tende a ser contabilizado e
não feito de forma gratuita.
“As pessoas
não têm de abdicar de tudo pelo outro. As complementaridades geram
dependências horríveis”, comenta Carlos. Teresa concorda
plenamente.
Entre a grande maioria dos casais do modelo Inde-pendente, a
posição relativamente ao compromisso e ao grau de estabilidade e
continuidade que pretendem para a relação, que é desejada, pode,
com o tempo, ser protelada por outras alternativas. Isto significa
que a relação não é encarada como sendo “para sempre”, mas mais do
estilo “vamos ver se dá...”
De acordo com o estudo de Maria Teresa Ribeiro, “uma relação
conjugal bem sucedida [neste modelo] é aquela em que há harmonia,
gostar, respeito pela individualidade, tolerância, semelhança de
valores, humor. Para uns, exige esforço, tempo; para outros, não
deve exigir esforço”.
Sofia e Manuel não têm dúvidas.
Os valores tradicionais são importantes para as suas vidas. Sofia
trabalha e a profissão realiza-a, mas optou por condicionar o
trabalho segundo o que consideraram ser melhor para a família.
“Gosto muito da minha profissão, mas prefiro desempenhá-la de uma
forma flexível, durante poucas horas por dia. Foi uma opção que
seguramente limitará a minha evolução na carreira, mas não estar
diariamente com as minhas filhas ou chegar tarde a casa e
encontrá-las já em fase de saturação, a chorar e fazer birras de
cansaço, iria deixar-me triste e frustrada. Esta foi a solução que
me pareceu mais satisfatória para toda a família”, explica Sofia.
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O novo
pai
O triunfo da paternidade é dos aspectos mais positivos dos
novos tempos:
Os pais hoje dedicam-se à paternidade com muito mais empenho
do que nas gerações anteriores, passando mesmo a ter um
discurso similar ao da mulher no que diz respeito ao desejo de
ter mais tempo para os filhos e à culpabilização por não poder
estar mais com eles
“À
medida que se vão empenhando mais no cuidado das crianças e
nos trabalhos domésticos, também eles [os homens] começam a
sentir a dupla pressão da vida profissional e familiar. E,
sobretudo dão-se conta de que a paternidade exige tempo e
maturidade e compreendem a grande importância deste trabalho
para os filhos e para a sociedade em geral”, afirma a
norueguesa Janne Haaland Matláry, no livro Para um Novo
Feminismo (Principia, Publicações Universitárias e
Científicas)
“No
âmbito geral do meu trabalho verifiquei que os homens ainda
andam a anos-luz de desempenhar com a mesma equidade as
tarefas domésticas. Mas foi interessante ver que, em qualquer
dos grupos, já participam mais naquilo que lhes dá mais gozo –
a paternidade – e sentem que isso é importante para o seu
papel como homens, que faz parte da sua identidade”, comenta
Maria Teresa Ribeiro.
“Ser pai é a concretização de um amor que é muito físico,
(...) é fenomenal”, comenta um dos homens entrevistados pela
psicóloga para a sua tese. “Não concordo nada que o pai só
apareça quando o assunto é complicado”, diz outro |
Este casal
enquadra-se no modelo denominado Tradicional. “Neste grupo, pais e
mães afirmam-se responsáveis pela educação dos filhos, mas as mães
cuidam mais deles e têm preponderância relativamente aos pais na
sua educação e cuidados”, escreve Maria Teresa Ribeiro. A partilha
é um valor forte nestas relações. “O conceito adoptado é o de dar
gratuitamente (segundo preferências, dons, possibilidades,
necessidades) sem medir o que cada um dá ou faz em troca.”
Entre os casais identificados por este modelo, não é frequente que
algum dos seus membros refira a necessidade de autonomia ou de
mais tempo e espaço individual. “Colocam o casamento, o sentido do
‘nós’, acima da independência de cada um”, escreve a psicóloga.
Vêem a relação como um compromisso para sempre, um compromisso de
estabilidade, a maioria é casada e a vertente religiosa é forte,
tendo grande parte casado pela Igreja. E a maioria considera que o
tipo de relação que tem é diferente por esta razão, por causa do
valor do sacramento.
De acordo com a tese da psicóloga, entre os aspectos que fazem uma
relação conjugal deste modelo funcionar foram destacados o
gostar/amar, o facto de ser um processo que se constrói todos os
dias através do diálogo, a existência de um projecto comum de
acordo com valores e princípios, a abertura aos outros, a
sintonia, o humor e o perdoar. Alguns casais destacaram ainda a
importância do tempo de namoro, “para criar alicerces da relação”.
O terceiro e último modelo conjugal
analisado no estudo de Maria Teresa Ribeiro é o Ambivalente. Está
a meio do caminho entre os dois modelos anteriores, conservando,
no entanto, características mais próximas dos Tradicionais,
nomeadamente no que diz respeito aos papéis profissionais e aos
papéis familiares (parentais e domésticos). Em geral, a mulher
trabalha com a intensidade das Independentes, mas conserva uma
forte dedicação à família, como as Tradicionais, muitas vezes
fazendo verdadeiros malabarismos para conciliar tudo. O homem
compactua com esta forma de estar da mulher, mas, em geral,
preferia ter condições financeiras para que ela não trabalhasse
(mesmo sabendo que ela provavelmente não aceitaria esta
alternativa).
Ainda que
possam parecer estar a meio do caminho, alguns valores deste
modelo conjugal são fundamentais para dar sustento à relação que,
caso não existissem, fariam com que perdesse o sentido. “Um
casamento que funciona [neste modelo] é aquele em que marido e
mulher gostam um do outro, sentem-se bem, se respeitam e aceitam
que há diferenças conciliáveis, percebem que o esforço e o
sofrimento unem, têm projectos comuns, confiança e vontade de
resolver obstáculos.”
Na opinião de Maria Teresa Ribeiro, a falta destes valores ou a
ênfase excessiva dada ao individualismo podem ser a explicação
para o número crescente de divórcios que verificamos hoje em dia.
Para a psicóloga, e também segundo a sua experiência como
terapeuta familiar, os casais que tendem a viver mais felizes e
cuja relação está mais vocacionada para durar são aqueles que
valorizam o casal, nomeadamente os do modelo Tradicional.
O facto de um casal se enquadrar
num dos três modelos é já de si tranquilizador. Sobretudo porque
isto demonstra que vêem de uma forma clara os valores que os unem.
Para os casais que se encontram ainda a pairar sob uma espécie de
neblina, perdidos dentro desta fase de transição em que vivemos,
todo o esforço para o conhecimento mútuo reforça a relação e
conduz ao encontro do seu modelo conjugal.
O caminho da felicidade é longo e não é só feito de auto--estradas.
“Não existe nem nunca existiram casais sem problemas, o que pode
diferir é a forma como cada um lida com os obstáculos.” Aos casais
do nosso tempo, cumpre descobrir os inúmeros caminhos que
conduzirão à fórmula ideal. Mas, como aponta Ana Paula Relvas
quando fala dos novos papéis assumidos pela mulher, “a transição
não tem de se processar no sentido linear da passagem de uma
identidade indexada aos papéis familiares, para uma outra ligada
aos objectivos pessoais de carreira extra-familiar. Não tem de se
optar por uma ou outra. (...) Neste processo a Mulher não será
forçada a abdicar da sua história, mas poderá sempre (re)construí-la,
no sentido de encontrar alternativas narrativas, tanto para esta
história como para si própria”.
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O casal e
a família, segundo Isabel Leal
1. O nosso mundo inventou uma curiosidade relacional que
ganhou foros de desejabilidade social e se transformou em
poucas décadas em verdade universal: o casamento por amor
2. Nunca antes o mundo vira tal
coisa. Nunca o afecto pactuara tão descaradamente com a Lei.
Nunca o institucional e o sensorial se tinham encontrado desta
forma
3. Aliás, a ideia da relação
contratada só faz sentido e tem importância quando o que está
em jogo transcende o sentimento próprio. Nesse sentido, o
casamento actual é uma mera redundância. Oficializa-se o que,
para existir, não carece nem de autorização nem de
oficialização dos poderes instituídos, já que se funda num
vínculo amoroso pré-existente
4. Deve-se acrescentar que aos
poderes instituídos já não interessa para nada os casais e os
pares amorosos. Já não são, em si mesmos, células base da
sociedade e lugares de produção e reprodução
5. Claro que, de vez em quando,
lá nascem umas crianças. Poucas. Menos do que as que seriam
necessárias para a renovação de gerações se fazer sem recurso
a importação de mão-de-obra estrangeira. Mas, provavelmente, a
globalização também é isso mesmo
6. Quando nasce ou se adopta
uma criança, nasce então uma família (também poética e
pirosamente designada como o fruto do amor)
7. As crianças, para crescerem
e se tornarem gente, precisam de cuidados, afectos,
interacções, pertenças, referências e mais umas coisitas que
parecem ser sempre muitas
8. Diga-se que as crianças
fazem a parte delas. Seduzem-nos, envolvem-nos, tiranizam-nos
até. Mas nós, que fazemos tudo por amor, só quando nos
chateamos ou verificamos que elas não cumprem as nossas
expectativas, é que damos por isso (como aliás em todos os
outros casos de amor)
9. Em torno das crianças, e da
família a que elas nos dão entrada, construímos e
reconstruímos os nossos mitos mais caros. Transformamo-nos em
mães e pais, em educadores e em reprodutores sociais.
Ultrapassamos nesses desempenhos a nossa condição e
circunstância próprias e vestimos a pele de uma personagem que
deve ser de uma certa forma a bem dessa criança
10. Com o tempo acabamos a
acreditar que sabemos o que é o melhor para os nossos filhos e
nessa projecção maciça e gloriosa nos vamos enredando,
ambivalentemente
11. Algures no caminho, o casal
inicial deixou de existir. Uns porque se separaram, outros
porque deixaram de se amar, outros ainda porque descobriram
que, mesmo juntos e amorosamente investidos, pertencem a uma
família, que é uma entidade própria e estabelece em
permanência novos ritmos e novos desafios |
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