Máxima - 27 Nov 03

Espírito de família
por Ana Paula Lemos Ilustrações de Júlio Vanzeler

"Dê-lhe vida", gritou a médica. Tomás, o homem da esperança, cortou o cordão umbilical de Inês, saboreou a magia do seu primeiro olhar e percebeu que, afinal, a filha reconhecia-lhe a voz. "Nunca fui tão feliz", confessou-nos.

A mãe de Inês, cansada mas amorosamente disponível, no instante daquele primeiro encontro lembrou-se de Maria, a sua primeira filha, nascida de um profundo desencontro com a vida. Como tinham sido diferentes aqueles dois momentos. Inês nasceu do gesto do pai. Maria brotou da solidão profunda da mãe, que se separara do marido antes do nascimento da filha. Ambas as crianças desejadas, amadas, queridas e anunciadas. É no gesto de Tomás que radica a diferença sentida pela mãe de Inês e de Maria em cada uma das maternidades. A Psicologia e a Sociologia conceptualizam este gesto como um momento decisivo da vida das crianças e das mães.

Nesta estória estão condensados todos os reais e verdadeiros problemas das famílias modernas. A sociedade portuguesa não foge à discussão sobre as grandes questões da família: o aumento dos divórcios, a falta de equipamentos sociais e as consequências da inserção da mulher no mundo do trabalho, entre outros.

O que se passa em Portugal, e que difere da prática social típica do resto do mundo civilizado, é que constituir família, para além de heróico, torna-se em muitos casos trágico. Heróico porque, como se sabe, o nosso edifício jurídico não prevê normas, nem políticas, nem filosofias que defendam a família como a mais importante forma de organização social. E trágico, porque crescem cada vez mais os testemunhos de mulheres que são despedidas por terem optado pela maternidade, ou histórias de mulheres a quem a vida moderna quase proíbe de gozar a sua legítima licença de parto, sob pena de serem penalizadas na progressão da sua carreira profissional.

Eis um testemunho. Cruel, mas real. Margarida Pinto, uma arquitecta de 28 anos, esteve em Timor como cooperante, a erguer uma obra de engenharia pública. De regresso a Portugal, encontrou emprego numa empresa de construção civil que nunca emitiu o menor sinal de rescisão do seu contrato a termo certo. Porém, dois meses depois de Margarida ter comunicado à entidade empregadora que estava grávida, o senhor engenheiro deixou de precisar dos serviços da arquitecta. Que estranho...

Através de dois estudos recentemente publicados, ficámos ainda a saber que as mulheres portuguesas são aquelas que dedicam menos tempo aos seus filhos e a quem a actividade profissional, cada vez mais intensa, não deixa tempo para o lazer.

Segundo o Eurostat, departamento de estatística europeu, "as mulheres portuguesas dispõem de 35 horas semanais para cuidar das crianças", ou seja, 10 horas menos do que a média comunitária, que é de 45 horas. Mas, mesmo assim, muito mais do que os homens portugueses, que reservam apenas 20 horas por semana para as crianças.

Por outro lado, Elsa Fontaínha, investigadora do Instituto Superior de Economia e Gestão, assegura-nos que a actividade profissional e as tarefas domésticas fazem com que as portuguesas "tenham pouca disponibilidade para o ócio e, mesmo assim, uma fraca produtividade". O que está em causa, explica-nos esta investigadora, são os sinais preocupantes que caracterizam a sociedade portuguesa, expressos no crescimento da taxa de divórcio, no aumento das famílias monoparentais e no envelhecimento da população.

Mais de 14 por cento da população empregada trabalha 45 horas semanais, enquanto a maioria, 54 por cento, gasta entre 36 a 40 horas na actividade profissional. O problema que se coloca relativamente a esta realidade, explica Elsa Fontaínha no seu estudo, é que a esta carga horária temos de acrescentar o período de tempo consumido entre as actividades domésticas e a prestação de cuidados à família, sendo as mulheres naturalmente as primeiras vítimas desta situação, já que é sobre elas que recai a carga horária mais penalizadora.

No inquérito realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) à Ocupação do Tempo em 1999 - o primeiro instrumento estatístico oficial a permitir uma abordagem analítica na perspectiva dos usos do tempo - verificamos que os homens investem preferencialmente na actividade profissional, enquanto as mulheres têm de se desdobrar entre a profissão e o trabalho não remunerado.

Apesar de todas as vicissitudes, o espírito de família,
aquele laço que nenhuma disciplina científica consegue descrever com um critério universal, mantém-se incólume aos seus inúmeros agentes agressores.

Anália Torres, socióloga, professora universitária e presidente da Sociedade de Sociologia Portuguesa, ficou perplexa quando lhe perguntámos se o espírito de família ainda existia nas sociedades modernas. "Quando fala em espírito de família, a que realidade social se refere?", perguntou-nos a investigadora. Dei-lhe um exemplo. Mesmo que não vivamos próximos da família - e a proximidade aqui pode ser física ou emocional - sabemos que, na noite de 24 de Dezembro, nos vamos encontrar à mesa com os nossos familiares para celebrarmos o Natal. No sentir da maior parte das famílias portuguesas, está implícito este encontro. O que nos leva então, nesse dia, a procurar os nossos familiares? O espírito de família.

Segundo Anália Torres, o espírito de família sempre existiu e continuará a existir. E acrescenta: "Tal como a família, o seu espírito também muda." Será que mudou mesmo?

Nouvel Esprit de Famille (Edições Odile Jacob), uma obra notável da francesa Martine Segalen, uma das maiores estudiosas da sociedade contemporânea, avisa-nos que é precisamente na cumplicidade entre gerações, nas manifestações de entre ajuda, no papel que os avós desempenham junto dos netos, que se mostra o espírito de família.

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