Máxima - 27 Nov 03

 

Os nós e os laços do amor
por
Clara Soares
ilustrações Júlio Vanzeler

Quando ela o ouve a falar sozinho noutra divisão da casa, já sabe que o melhor a fazer é evitar perguntas e mostrar-se disponível, presente. Ele, por seu turno, sabe quando é que ela dá sinais de querer ser calada com um beijo, nas alturas em que se zanga com o mundo e começa a queixar-se por tudo e por nada.

Dar o sim a uma união dispensa papéis. Talvez por isso sejam tantos os que fazem questão de assumi-la.
A opção de contrair matrimónio revalorizou-se. Simboliza a intenção
de viver o amor
de forma plena.

A atenção dada ao pulsar de cada um dos que se tornam cônjugues é a maior fonte de alimentação da união. Passado o vendaval da paixão, ela pode ser activada porque já se aprendeu, mas descobrem-se outras coisas acerca de si e do outro, como só é possível quando se respira no mesmo chão, cada dia após o anterior.

Quem casa quer casa, mas ela afigura-se apenas o cenário da verdadeira construção a empreender a dois e a partir do zero. A casa do amor tem por berço um espaço físico comum, mas leva anos a ser feita e nunca chega a ficar acabada. A fórmula para não se cansarem passa por se levarem tão a sério que aprendem a brincar um pouco mais com as imperfeições de cada um.

Os casais que permanecem juntos por vontade própria - e não por comodismo ou restrições legais que deixaram de existir nas últimas décadas - e que se assumem realizados e "vivos" no casamento, conseguiram lidar com divergências e conflitos a ponto de não lhes atribuir uma importância de vida ou de morte, que ponha em causa a sua união. Os casais que rejubilam com as bodas de prata e continuam a sentir-se gratos por permanecerem de mãos dadas descobriram, à sua maneira, a mais-valia preciosa do relacionamento que é viver noutra velocidade, a ritmos mais cálidos que escaldantes.

Só a pessoa que conhece e aceita o ar com que acordamos de manhã, que compreende as nossas manias e ataques de nervos (nem sempre, mas esforça-se...) é capaz de passar a barreira das ondas e deslizar, seguro, até ao fundo do mar e das águas correntes, sendo essas que confortam, para lá do que se passa à superfície.

Como surge a motivação para casar? Portugal distingue-se da média europeia, entre outras razões, pelo facto de as pessoas se casarem mais cedo. As heranças culturais terão uma influência decisiva neste campo, mas a ideia de formalizar uma união pressupõe de algum modo a convicção de que ela tem o potencial para dar certo. Este sentimento de fé não tem de alicerçar-se em provas de amor, mas sim na disposição pessoal para se identificar com outro e expormo-nos regularmente perante ele.
 

Mitos que destroem o amor

Partir para uma relação com ideias feitas pode tornar cegos
os casais mais bem intencionados. A terapeuta de casal Gabriela
Moita aponta algumas:

1. Síndrome da "bola de cristal" ("Se gostasses de mim, adivinharias o que fazer sem eu ter de to dizer")

2. Estar sempre de acordo ("Se gostasses de mim, farias o que te pedisse")

3. À prova de infidelidade ("um affair é o fim do casamento")

4. Estado de paixão constante ("Sexo sem atmosfera especial não faz sentido")

5. Primado da amizade ("O meu melhor amigo é o cônjuge")

Estas crenças podem transformar-se em fasquias demasiado elevadas que, na melhor das hipóteses, tendem a criar ansiedade conjugal e sentimentos de frustração.

Alexandre Bordalo, de 48 anos, lembra-se de quanto isso lhe aconteceu, há 28 anos atrás. Quando conheceu Margarida Machado, durante uma festa de Carnaval, desejava viver um relacionamento de forma mais estável e duradoura. Aparecia-lhe no escritório da Rua da Boavista, em Lisboa, e surpreendia-a com um bolo, outras vezes com uma flor. Até que passou a ir buscá-la para tomar café, após a jornada laboral. Cativada inicialmente pela amizade dele, Margarida acabou por dar o sim ao namoro, mas não esperava que a pedisse em casamento três meses depois. "Ela era, para mim, um elemento estabilizador", lembra o fotógrafo.

Cansados de esperar por melhores condições económicas para o enlace, decidiram avançar para o casamento pelo civil, sem pompas e sem o acordo dos pais dele. "No dia em que fiz 25 anos, comuniquei-lhes que ia casar no dia seguinte", assegura Alexandre.

O casal viria a atravessar a prova de fogo logo nos primeiros anos, com a tropa a cumprir (era obrigatória, na altura) e a viverem na casa de familiares, nem sempre com uma coabitação pacífica. "As dificuldades uniram-nos muito", constata Margarida. "A seguir aos momentos críticos, em que dizíamos um ao outro que o melhor era a separação, percebemos sempre que nunca iríamos deixar de sentir o que sentimos um pelo outro."

O que muitas pessoas confidenciam apenas ao melhor amigo, Alexandre e Margarida guardavam para partilhar em privado, aplicando a mesma política aos desacordos e dúvidas. Como eles bem sabem, "partir é sempre mais fácil que ficar e dialogar sobre o que falta ou é preciso adaptar para benefício de ambos".

Com um filho já autónomo e recém-saído de casa, enfrentam um novo desafio e confessam sentir necessidade de revigorar a vida de novo a dois. Desta, como de outras vezes, a última coisa que lhes ocorre é desistir da história a meio (e que ninguém lhes garantiu à partida ser fácil) ou acomodar-se às funcionalidades domésticas e à ausência de novas fontes de estímulo. Neste capítulo, a fidelidade já foi submetida a teste.

"Uma vez, pedi-lhe para sair e só voltar quando crescesse", lembra ela. "Mas nos 15 dias em que não dormimos juntos, encontrávamo-nos na mesma e eu fazia tudo para conquistá-lo." Conseguida a ansiada reconciliação, estabeleceram uma lista de mandamentos que tentavam cumprir da forma mais criativa que encontrassem.

Uma das regras de ouro para prevenir tempestades começou por se falar das coisas antes de acontecerem e aferir o ponto de vista de ambos. Outra passa pelo reinventar da própria sexualidade - sem traições - através da partilha de fantasias, da criação e encenação de histórias, onde o limite fica ao critério da imaginação.

O amor que se cultiva no casal, ao longo do tempo, começa na capacidade de observar, de contemplar e de identificar repetições ou estilos de estar e comportar-se. De forma subtil, as rotinas de gestos e palavras ganham progressivamente espaço na identidade dos parceiros, tanto ou mais que a troca de alianças. Por mais diversificado que seja o rumo de cada um dos cônjuges, a percepção de continuidade é espelhada na pessoa que está sempre por perto,
testemunhando-lhe pequenos fracassos e glórias.

Uma das regras de ouro para prevenir tempestades começou por se falar das coisas antes de acontecerem
e aferir o ponto de vista
de ambos. Outra passa
pelo reinventar da própria sexualidade.

Há pessoas para quem este conceito de vida é tão significativo que as motiva a selar votos de "viagem" na presença de outros, sejam familiares ou amigos próximos, o Estado ou a Igreja (uma boa parte dos casais em união de facto acaba por render-se à formalização da união).

Porque é que tantas pessoas optam por "dar o nó" - que literalmente significa "prender ou atar" - numa época em que tanto se valoriza a liberdade individual?

O casamento continua a ser a instituição favorita dos portugueses, apesar de os divórcios se manterem em alta e da maior aceitação de outros modelos de família. Sabendo hoje que as relações assentes na paixão tendem a durar pouco - saciadas as hormonas e satisfeito o desejo, não existe uma base que justifique viver debaixo do mesmo tecto -, parece estranho que as Conservatórias não tenham mãos a medir. A valorização dos rituais está de regresso aos costumes lusitanos, e tanto as celebrações católicas como as associadas a outras formas de culto continuam a ser apreciadas e até aperfeiçoadas.

Descontando as motivações sociais, económicas e ligadas à moda (quando as estrelas de cinema e figuras públicas publicitam nos media as suas bodas, veiculam um novo ideal ou modelo de felicidade), a vontade de firmar um pacto que envolve rituais de iniciação específicos pode significar que outros motivos ganhem peso na balança.

A visão da comunhão para sempre, herdada das correntes filosóficas e literárias do amor romântico, do tipo Romeu e Julieta (que acabava invariavelmente de forma trágica, porque era impossível), elevou a paixão à categoria de amor perfeito, essa "pequena morte" que se consumava pela união dos corpos e uma explosão dos sentidos. O modelo levou à falência a cultura assente no matrimónio, que pareceu entrar em declínio quando se diversificaram as maneiras de encarar os relacionamentos.

Na prática, é hoje socialmente admissível - e normal - ser feliz, não através de um único, mas de diversos relacionamentos, vividos sucessivamente, com a emergência de um "novo amor". Na era das famílias "dos teus, dos meus e dos nossos [filhos]", há contudo quem acredite ainda no amor de morada única - o coração da pessoa que se elege para compa-nheiro de estrada.

A visão transcendente do amor - um sentimento mais constante que se alimenta de pormenores sem importância, que nos tornam especiais e únicos - é comum a muitos casais que se formaram após o início do regime democrático em Portugal. A primeira geração a tomar contacto com novas liberdades nos costumes e comportamentos revela-se a mesma que não deixa mor-rer o conceito do casamento por convicção.

"As pessoas continuam a casar-se porque ainda não se descobriu, na sociedade,

Nunca como hoje se
depositaram tantas
expectativas de realização na instituição do casamento, a solução que se afigura
ideal para efeitos fiscais,
sociais, familiares,
cognitivos e emocionais.

um modelo melhor para viver em conjunto." A explicação é dada por Ana Monteiro Coelho, que aos 51 anos, e após 30 de casamento, lançou o livro Vamos Casar, editado pela MCTec. Ao divulgar as tradições do casamento no nosso país, a autora convida-nos a uma viagem pelos costumes regionais e tece considerações sobre as cerimónias civil e religiosa. A celebração de acordo com a Igreja Católica continua a ser dominante, mas coexiste com a implantação forte das religiões hindu e muçulmana, igualmente abordadas no livro, decorrente dos processos migratórios após a descolonização.

No último capítulo, o leitor fica por dentro do que Ana Monteiro Coelho entendeu chamar "Um amor vivido no quotidiano". Aí revela o seu percurso de vida conjugal e a aceitação "das mutações, próprias do crescimento saudável de quem se casa". As fases difíceis contribuíram, no seu entender, para o amadurecimento individual - "quando casámos, ele tinha 27 e eu 20" - e foram possíveis, em boa parte, devido ao empenhamento mútuo em cultivar os mesmos valores de formas sempre renovadas.

"O vínculo legal traz uma certa calma em aspectos práticos como os filhos

A evitar

O casal sofre quando qualquer um dos seus elementos...

... se comporta como criança ou como pai/mãe do cônjuge
... responde antes de ouvir
... evita o contacto visual durante uma conversa
... critica o parceiro em público
... descarrega o stress no outro
... o companheiro não conhece os seus limites
... encara o cônjuge como alguém que se possui
... mente e quebra promessas
... priva o outro de ter passatempos, amigos ou interesses próprios

ou a aquisição de casa, entre outras, mas não fertiliza a relação", adianta. "A união não vive do contrato porque é muito mais que isso." Casados pela Igreja e católicos praticantes, entendem o matrimónio como um sacramento que requer preparação dos noivos (pela via dos cursos realizados nas paróquias), para a glorificação do amor.

Fiel à ideia de amor único, Ana garante que as "escapadelas" nunca fizeram parte das ideias de ambos, por se tratar de "surtos súbitos, que não têm por base o amor". Sobre a eventual tendência para a banalização das cerimónias católicas (por pessoas não praticantes), deixa um apelo: "Não casem pela Igreja só por causa dos retratos bonitos e da passadeira vermelha, porque estão a fazer, mesmo sem terem consciência disso, um voto indissolúvel."

Nunca como hoje se depositaram tantas expectativas de realização na instituição do casamento, a solução que se afigura ideal para efeitos fiscais, sociais, familiares, cognitivos (interesses comuns) e emocionais (realização pessoal e prazer sexual). Com as vidas apressadas que levamos, cheias de estímulos e pautadas por códigos impostos pela publicidade e por via das investigações médicas, é demasiado frequente um casal questionar o seu padrão de funcionamento à luz do que se convenciona ser normal.

A vivência assumida do sexo, por estar ainda a ser descoberta, é porventura a área do casamento mais sujeita a pressões e fobias. Quem o afirma é a psicóloga Gabriela Moita, da Escola Superior do Porto. Conhecida do público pela sua participação no programa televisivo Estes Difíceis Amores, transmitido no canal NTV, que conta com o sexólogo Júlio Machado Vaz e a jornalista Leonor Ferreira, a especialista parte da sua experiência clínica para afirmar que a diferença de ritmos entre homem e mulher, no que se refere ao desejo, é uma das situações mais comuns.

"Salvo raras excepções, eles tendem a queixar-se da falta de sexo e elas, das dificuldades de relacionamento", comenta, acrescentando que as ideias correntes acerca do número de vezes que é desejável fazer amor (em parte, por culpa da comunidade científica, que construiu categorias de disfunção sexual), acabam por estar na base da percepção de um problema que nunca o seria se o casal não cedesse à tentação de estabelecer comparações entre o seu

"É desejável desconstruir os formatos de conduta sexual em voga socialmente, pois
a partir daí deixam de ter
problemas com o desempenho,
o ter de cumprir
determinado standard
só para se sentir normal."

modelo e o que é socialmente correcto (a tabuada ou cartilha implícita que define o quê e como se deve fazer).

"O que é normal para uns pode não significar isso para outros", remata. "É desejável e possível desconstruir os formatos de conduta sexual em voga socialmente, pois a partir daí deixam de ter problemas com o desempenho, o ter de cumprir determinado standard só para se sentir normal." Porém, ainda são poucos os que não sucumbem à influência externa e conseguem criar as suas próprias balizas e valores de felicidade. Um exemplo disto é a capacidade de definir o que é importante no relacionamento, sem que o sexo tenha de ser a condição estruturante ou desestruturante, porque tudo se concentra em torno dele.

Enquanto a sexualidade não for colocada num plano de igualdade em relação às outras valências de um contrato matrimonial, é possível continuar a assistir à guerra de sexos que se conhece, porque homens e mulheres lhe atribuem significados diferentes, consoante a educação que receberam e os modelos emergentes a que, porventura, não ficam indiferentes e a que desejam corresponder.

O psicólogo Nuno Nodin sugere que, nestas condições, "uma relação a dois pode ser um paraíso, mas também um inferno", especialmente quando se perde o furor dos primeiros tempos. Afinal, ainda temos na memória os casamentos realizados na sequência de romances vividos no programa televisivo Big Brother: "A pressão para legitimar a paixão era tal que os visados acabavam por seguir esse caminho, acelerando-o até." O facto de culturalmente não se falar abertamente sobre a sexualidade tende a ampliar equívocos e a favorecer terreno para chantagens quotidianas, como tão bem ilustram as novelas de produção nacional com lugar cativo nos tops de audiências.

Nas sessões de formação e educação sexual que promove a sua empresa, Sentidos e Sensações, Nuno Nodin explica como as alternativas de conduta conjugal podem ser válidas e satisfatórias, desde que sejam consensuais e assentem numa comunicação aberta.

"Com ela, sei que vai dar certo." Foi o que sentiu Manuel Carvalho, de 35 anos, quando conheceu Jaqueline, de 33. Ela tinha na bagagem um noivado desfeito e trocou o Brasil, a sua terra natal, pelo solo português. Ele, de sangue alentejano, só concebia a ideia de casar se fosse para levar "a sério". A primeira vez que iniciaram conversa, há cerca de dois anos, não deram pelo passar da noite. Daí a morarem juntos, foi um passo. E quatro meses em união de facto bastaram para tomar a decisão de casar pelo civil (e mais tarde, no Brasil, pela Igreja). Juntos, parti-lham tarefas e afectos numa base diária, que passou pela alteração de rotinas profissionais demasiado envolventes. O nascimento recente da Sofia é outro motivo de alegria, mas também um desafio ao seu equilíbrio conjugal.
 

Estimular a relação

Algumas vitaminas para os relacionamentos:

Comunique ao outro o que sente e deseja
Assuma a responsabilidade pelos seus desejos e necessidades pessoais
Mantenha a cabeça fria durante uma discussão
Expresse emoções negativas com respeito pelo outro
Ataque o problema, não a pessoa
Observe e escute em vez de avaliar
Evite o padrão "palmadinhas-festinhas"
Dispense opiniões de terceiros na procura de soluções conjugais
Confie no seu valor próprio e do parceiro

"Inicialmente, tudo girava à volta da bebé. Foi quando percebi como era fácil entrar em depressão por sentir que não estava a dar conta do recado, até por falta de horas de sono", recorda Jaqueline.

Antes de entrar em ruptura - como acontece a tantos jovens, após serem pais - decidiram contratar uma empregada a tempo inteiro. Agora que reencontraram novos ritmos para estar a dois, continuam a acreditar que o companheirismo e a confiança (que deve prevalecer sobre o ciúme, asseguram) são a raiz de qualquer relação adulta. E chegam a falar do turismo sénior que hão-de fazer quando forem velhinhos. Eles não negam que os prazeres conjugais requerem uma entrega total - sem lugar para situações extra-casamento, portanto - e alguma disciplina: "Não permitimos que as solicitações exteriores tomem conta da nossa vida." Porém, não se sentem limitados na sua identidade pelo vínculo matrimonial, ainda que admitam com naturalidade o facto de poderem suscitar ou ter desejo por terceiros, "que não deve ser reprimido, mas dispensa ser concretizado". A sua filosofia é simples. Nas palavras de Manuel, "se correspondermos a todos os olhares, não nos damos a oportunidade de olharmos para nós dois, para o nosso amor e tudo o que é fruto dele".

O sentido de família está bem presente nos que optam por casar para a vida. À semelhança de Jaqueline e Manuel, muitos outros cônjuges convictos apostam na comunhão de corações e de gerações. Como Samuel Freitas e Ana Paula Esteves, de 48 e 43 anos, respectivamente, com uma filha e uma ligação que se aproxima das bodas de prata. Ainda eram crianças quando celebraram votos diante do altar, apesar de alguma resistência familiar. O segredo para a longevidade parte do espírito lúdico, reside nos carinhos e na capacidade de inovar. Aos fins-de-semana, pegam nas bicicletas e saem de Lisboa, rumo a Sintra. O convívio com outros casais (que também são pais) é-lhes vital. Chegam a frequentar jantares e a fazer férias em grupo, "porque o amor precisa de compreensão e de abertura aos outros".

Será esta a fórmula para uma lua-de-mel sem fim? No filme inspirado na vida da escritora e filósofa Íris Murdoch, a protagonista faz uma palestra numa universidade sobre o amor e ousa afirmar que ele nasce no mais fundo do ser: "A busca e a promoção da felicidade é aquilo que se viu uma vez à luz clara e pura, antes de nascermos, sendo nós próprios puros, mais o poder da nossa imaginação."

Em última análise, o exercício do amor revela-se no que não pode ser dito, mas entendido numa comunhão silenciosa interior. Como aconselha o filósofo indiano Osho, que o jornal britânico The Sunday Times incluiu na lista dos 1000 Construtores do Século XX, "aprender a relacionar-se é mais importante que procurar uma relação, porque assenta numa exploração da consciência e nos seus infinitos mistérios". Talvez esta seja uma definição mais genuína e abrangente do casamento do novo século. Amar como sinónimo de conhecimento interior (um processo solitário) e de permissão para que alguém nos ame, especialmente sem ter de garantir condições.

WB00789_1.gif (161 bytes)