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Quando ela o ouve a falar
sozinho noutra divisão da casa, já sabe que o melhor a fazer é evitar
perguntas e mostrar-se disponível, presente. Ele, por seu turno, sabe
quando é que ela dá sinais de querer ser calada com um beijo, nas
alturas em que se zanga com o mundo e começa a queixar-se por tudo e
por nada.
Dar o sim a uma união dispensa papéis.
Talvez por isso sejam tantos os que fazem questão de
assumi-la.
A opção de contrair matrimónio revalorizou-se. Simboliza a
intenção
de viver o amor
de forma plena. |
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A atenção dada ao pulsar de
cada um dos que se tornam cônjugues é a maior fonte de alimentação da
união. Passado o vendaval da paixão, ela pode ser activada porque já
se aprendeu, mas descobrem-se outras coisas acerca de si e do outro,
como só é possível quando se respira no mesmo chão, cada dia após o
anterior.
Quem casa quer casa, mas ela afigura-se apenas o cenário da verdadeira
construção a empreender a dois e a partir do zero. A casa do amor tem
por berço um espaço físico comum, mas leva anos a ser feita e nunca
chega a ficar acabada. A fórmula para não se cansarem passa por se
levarem tão a sério que aprendem a brincar um pouco mais com as
imperfeições de cada um.
Os casais que permanecem juntos por vontade própria - e não por
comodismo ou restrições legais que deixaram de existir nas últimas
décadas - e que se assumem realizados e "vivos" no casamento,
conseguiram lidar com divergências e conflitos a ponto de não lhes
atribuir uma importância de vida ou de morte, que ponha em causa a sua
união. Os casais que rejubilam com as bodas de prata e continuam a
sentir-se gratos por permanecerem de mãos dadas descobriram, à sua
maneira, a mais-valia preciosa do relacionamento que é viver noutra
velocidade, a ritmos mais cálidos que escaldantes.
Só a pessoa que conhece e aceita o ar com que acordamos de manhã, que
compreende as nossas manias e ataques de nervos (nem sempre, mas
esforça-se...) é capaz de passar a barreira das ondas e deslizar,
seguro, até ao fundo do mar e das águas correntes, sendo essas que
confortam, para lá do que se passa à superfície.
Como surge a motivação para casar? Portugal distingue-se da média
europeia, entre outras razões, pelo facto de as pessoas se casarem
mais cedo. As heranças culturais terão uma influência decisiva neste
campo, mas a ideia de formalizar uma união pressupõe de algum modo a
convicção de que ela tem o potencial para dar certo. Este sentimento
de fé não tem de alicerçar-se em provas de amor, mas sim na disposição
pessoal para se identificar com outro e expormo-nos regularmente
perante ele.
| Mitos
que destroem o amor
Partir para uma relação com ideias
feitas pode tornar cegos
os casais mais bem intencionados. A terapeuta de casal
Gabriela
Moita aponta algumas:
1. Síndrome da "bola
de cristal" ("Se gostasses de mim, adivinharias o que fazer
sem eu ter de to dizer")
2. Estar sempre de acordo ("Se
gostasses de mim, farias o que te pedisse")
3. À prova de infidelidade ("um affair
é o fim do casamento")
4. Estado de paixão constante ("Sexo
sem atmosfera especial não faz sentido")
5. Primado da amizade ("O meu melhor
amigo é o cônjuge")
Estas crenças podem transformar-se em
fasquias demasiado elevadas que, na melhor das hipóteses,
tendem a criar ansiedade conjugal e sentimentos de frustração. |
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Alexandre Bordalo, de 48
anos, lembra-se de quanto isso lhe aconteceu, há 28 anos atrás.
Quando conheceu Margarida Machado, durante uma festa de Carnaval,
desejava viver um relacionamento de forma mais estável e duradoura.
Aparecia-lhe no escritório da Rua da Boavista, em Lisboa, e
surpreendia-a com um bolo, outras vezes com uma flor. Até que passou a
ir buscá-la para tomar café, após a jornada laboral. Cativada
inicialmente pela amizade dele, Margarida acabou por dar o sim ao
namoro, mas não esperava que a pedisse em casamento três meses depois.
"Ela era, para mim, um elemento estabilizador", lembra o fotógrafo.
Cansados de esperar por melhores condições económicas para o enlace,
decidiram avançar para o casamento pelo civil, sem pompas e sem o
acordo dos pais dele. "No dia em que fiz 25 anos, comuniquei-lhes que
ia casar no dia seguinte", assegura Alexandre.
O casal viria a atravessar a prova de fogo logo nos primeiros anos,
com a tropa a cumprir (era obrigatória, na altura) e a viverem na casa
de familiares, nem sempre com uma coabitação pacífica. "As
dificuldades uniram-nos muito", constata Margarida. "A seguir aos
momentos críticos, em que dizíamos um ao outro que o melhor era a
separação, percebemos sempre que nunca iríamos deixar de sentir o que
sentimos um pelo outro."
O que muitas pessoas confidenciam apenas ao melhor amigo, Alexandre e
Margarida guardavam para partilhar em privado, aplicando a mesma
política aos desacordos e dúvidas. Como eles bem sabem, "partir é
sempre mais fácil que ficar e dialogar sobre o que falta ou é preciso
adaptar para benefício de ambos".
Com um filho já autónomo e recém-saído de casa, enfrentam um novo
desafio e confessam sentir necessidade de revigorar a vida de novo a
dois. Desta, como de outras vezes, a última coisa que lhes ocorre é
desistir da história a meio (e que ninguém lhes garantiu à partida ser
fácil) ou acomodar-se às funcionalidades domésticas e à ausência de
novas fontes de estímulo. Neste capítulo, a fidelidade já foi
submetida a teste.
"Uma vez, pedi-lhe para sair e só voltar quando crescesse", lembra
ela. "Mas nos 15 dias em que não dormimos juntos, encontrávamo-nos na
mesma e eu fazia tudo para conquistá-lo." Conseguida a ansiada
reconciliação, estabeleceram uma lista de mandamentos que tentavam
cumprir da forma mais criativa que encontrassem.
Uma das regras de ouro para prevenir tempestades começou por se falar
das coisas antes de acontecerem e aferir o ponto de vista de ambos.
Outra passa pelo reinventar da própria sexualidade - sem traições -
através da partilha de fantasias, da criação e encenação de histórias,
onde o limite fica ao critério da imaginação.
O amor que se cultiva no casal, ao longo do tempo,
começa na capacidade de observar, de contemplar e de identificar
repetições ou estilos de estar e comportar-se. De forma subtil, as
rotinas de gestos e palavras ganham progressivamente espaço na
identidade dos parceiros, tanto ou mais que a troca de alianças. Por
mais diversificado que seja o rumo de cada um dos cônjuges, a
percepção de continuidade é espelhada na pessoa que está sempre por
perto, testemunhando-lhe pequenos
fracassos e glórias.
Uma das regras de ouro para prevenir
tempestades começou por se falar das coisas antes de
acontecerem
e aferir o ponto de vista
de ambos. Outra passa
pelo reinventar da própria sexualidade. |
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Há pessoas para quem este
conceito de vida é tão significativo que as motiva a selar votos de
"viagem" na presença de outros, sejam familiares ou amigos próximos, o
Estado ou a Igreja (uma boa parte dos casais em união de facto acaba
por render-se à formalização da união).
Porque é que tantas pessoas optam por "dar o nó" - que literalmente
significa "prender ou atar" - numa época em que tanto se valoriza a
liberdade individual?
O casamento continua a ser a instituição favorita dos portugueses,
apesar de os divórcios se manterem em alta e da maior aceitação de
outros modelos de família. Sabendo hoje que as relações assentes na
paixão tendem a durar pouco - saciadas as hormonas e satisfeito o
desejo, não existe uma base que justifique viver debaixo do mesmo
tecto -, parece estranho que as Conservatórias não tenham mãos a
medir. A valorização dos rituais está de regresso aos costumes
lusitanos, e tanto as celebrações católicas como as associadas a
outras formas de culto continuam a ser apreciadas e até aperfeiçoadas.
Descontando as motivações sociais, económicas e ligadas à moda (quando
as estrelas de cinema e figuras públicas publicitam nos media as suas
bodas, veiculam um novo ideal ou modelo de felicidade), a vontade de
firmar um pacto que envolve rituais de iniciação específicos pode
significar que outros motivos ganhem peso na balança.
A visão da comunhão para sempre, herdada das correntes filosóficas e
literárias do amor romântico, do tipo Romeu e Julieta (que acabava
invariavelmente de forma trágica, porque era impossível), elevou a
paixão à categoria de amor perfeito, essa "pequena morte" que se
consumava pela união dos corpos e uma explosão dos sentidos. O modelo
levou à falência a cultura assente no matrimónio, que pareceu entrar
em declínio quando se diversificaram as maneiras de encarar os
relacionamentos.
Na prática, é hoje socialmente admissível - e normal - ser feliz, não
através de um único, mas de diversos relacionamentos, vividos
sucessivamente, com a emergência de um "novo amor". Na era das
famílias "dos teus, dos meus e dos nossos [filhos]", há contudo quem
acredite ainda no amor de morada única - o coração da pessoa que se
elege para compa-nheiro de estrada.
A visão transcendente do amor - um sentimento mais constante
que se alimenta de pormenores sem importância, que nos tornam
especiais e únicos - é comum a muitos casais que se formaram após o
início do regime democrático em Portugal. A primeira geração a tomar
contacto com novas liberdades nos costumes e comportamentos revela-se
a mesma que não deixa mor-rer o conceito do casamento por convicção.
"As pessoas continuam a casar-se porque ainda não se descobriu, na
sociedade,
Nunca como hoje se
depositaram tantas
expectativas de realização na instituição do casamento, a
solução que se afigura
ideal para efeitos fiscais,
sociais, familiares,
cognitivos e emocionais. |
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um modelo melhor para viver em
conjunto." A explicação é dada por Ana Monteiro Coelho, que aos 51
anos, e após 30 de casamento, lançou o livro Vamos Casar, editado pela
MCTec. Ao divulgar as tradições do casamento no nosso país, a autora
convida-nos a uma viagem pelos costumes regionais e tece considerações
sobre as cerimónias civil e religiosa. A celebração de acordo com a
Igreja Católica continua a ser dominante, mas coexiste com a
implantação forte das religiões hindu e muçulmana, igualmente
abordadas no livro, decorrente dos processos migratórios após a
descolonização.
No último capítulo, o leitor fica por dentro do que Ana Monteiro
Coelho entendeu chamar "Um amor vivido no quotidiano". Aí revela o seu
percurso de vida conjugal e a aceitação "das mutações, próprias do
crescimento saudável de quem se casa". As fases difíceis contribuíram,
no seu entender, para o amadurecimento individual - "quando casámos,
ele tinha 27 e eu 20" - e foram possíveis, em boa parte, devido ao
empenhamento mútuo em cultivar os mesmos valores de formas sempre
renovadas.
"O vínculo legal traz uma certa calma em aspectos práticos como
os filhos
| A
evitar
O casal sofre quando qualquer um dos
seus elementos...
• ... se
comporta como criança ou como pai/mãe do cônjuge
• ... responde antes de ouvir
• ... evita o contacto visual
durante uma conversa
• ... critica o parceiro em
público
• ... descarrega o stress no
outro
• ... o companheiro não conhece
os seus limites
• ... encara o cônjuge como
alguém que se possui
• ... mente e quebra promessas
• ... priva o outro de ter
passatempos, amigos ou interesses próprios |
|
ou a aquisição de casa, entre
outras, mas não fertiliza a relação", adianta. "A união não vive do
contrato porque é muito mais que isso." Casados pela Igreja e
católicos praticantes, entendem o matrimónio como um sacramento que
requer preparação dos noivos (pela via dos cursos realizados nas
paróquias), para a glorificação do amor.
Fiel à ideia de amor único, Ana garante que as "escapadelas" nunca
fizeram parte das ideias de ambos, por se tratar de "surtos súbitos,
que não têm por base o amor". Sobre a eventual tendência para a
banalização das cerimónias católicas (por pessoas não praticantes),
deixa um apelo: "Não casem pela Igreja só por causa dos retratos
bonitos e da passadeira vermelha, porque estão a fazer, mesmo sem
terem consciência disso, um voto indissolúvel."
Nunca como hoje se depositaram tantas expectativas de realização na
instituição do casamento, a solução que se afigura ideal para efeitos
fiscais, sociais, familiares, cognitivos (interesses comuns) e
emocionais (realização pessoal e prazer sexual). Com as vidas
apressadas que levamos, cheias de estímulos e pautadas por códigos
impostos pela publicidade e por via das investigações médicas, é
demasiado frequente um casal questionar o seu padrão de funcionamento
à luz do que se convenciona ser normal.
A vivência assumida do sexo, por estar ainda a ser descoberta,
é porventura a área do casamento mais sujeita a pressões e fobias.
Quem o afirma é a psicóloga Gabriela Moita, da Escola Superior do
Porto. Conhecida do público pela sua participação no programa
televisivo Estes Difíceis Amores, transmitido no canal NTV, que conta
com o sexólogo Júlio Machado Vaz e a jornalista Leonor Ferreira, a
especialista parte da sua experiência clínica para afirmar que a
diferença de ritmos entre homem e mulher, no que se refere ao desejo,
é uma das situações mais comuns.
"Salvo raras excepções, eles tendem a queixar-se da falta de sexo e
elas, das dificuldades de relacionamento", comenta, acrescentando que
as ideias correntes acerca do número de vezes que é desejável fazer
amor (em parte, por culpa da comunidade científica, que construiu
categorias de disfunção sexual), acabam por estar na base da percepção
de um problema que nunca o seria se o casal não cedesse à tentação de
estabelecer comparações entre o seu
"É desejável desconstruir os formatos de
conduta sexual em voga socialmente, pois
a partir daí deixam de ter
problemas com o desempenho,
o ter de cumprir
determinado standard
só para se sentir normal." |
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modelo e o que é socialmente
correcto (a tabuada ou cartilha implícita que define o quê e como se
deve fazer).
"O que é normal para uns pode não significar isso para outros",
remata. "É desejável e possível desconstruir os formatos de conduta
sexual em voga socialmente, pois a partir daí deixam de ter problemas
com o desempenho, o ter de cumprir determinado standard só para se
sentir normal." Porém, ainda são poucos os que não sucumbem à
influência externa e conseguem criar as suas próprias balizas e
valores de felicidade. Um exemplo disto é a capacidade de definir o
que é importante no relacionamento, sem que o sexo tenha de ser a
condição estruturante ou desestruturante, porque tudo se concentra em
torno dele.
Enquanto a sexualidade não for colocada num plano de igualdade em
relação às outras valências de um contrato matrimonial, é possível
continuar a assistir à guerra de sexos que se conhece, porque homens e
mulheres lhe atribuem significados diferentes, consoante a educação
que receberam e os modelos emergentes a que, porventura, não ficam
indiferentes e a que desejam corresponder.
O psicólogo Nuno Nodin sugere que, nestas condições, "uma
relação a dois pode ser um paraíso, mas também um inferno",
especialmente quando se perde o furor dos primeiros tempos. Afinal,
ainda temos na memória os casamentos realizados na sequência de
romances vividos no programa televisivo Big Brother: "A pressão para
legitimar a paixão era tal que os visados acabavam por seguir esse
caminho, acelerando-o até." O facto de culturalmente não se falar
abertamente sobre a sexualidade tende a ampliar equívocos e a
favorecer terreno para chantagens quotidianas, como tão bem ilustram
as novelas de produção nacional com lugar cativo nos tops de
audiências.
Nas sessões de formação e educação sexual que promove a sua empresa,
Sentidos e Sensações, Nuno Nodin explica como as alternativas de
conduta conjugal podem ser válidas e satisfatórias, desde que sejam
consensuais e assentem numa comunicação aberta.
"Com ela, sei que vai dar certo." Foi o que sentiu Manuel Carvalho, de
35 anos, quando conheceu Jaqueline, de 33. Ela tinha na bagagem um
noivado desfeito e trocou o Brasil, a sua terra natal, pelo solo
português. Ele, de sangue alentejano, só concebia a ideia de casar se
fosse para levar "a sério". A primeira vez que iniciaram conversa, há
cerca de dois anos, não deram pelo passar da noite. Daí a morarem
juntos, foi um passo. E quatro meses em união de facto bastaram para
tomar a decisão de casar pelo civil (e mais tarde, no Brasil, pela
Igreja). Juntos, parti-lham tarefas e afectos numa base diária, que
passou pela alteração de rotinas profissionais demasiado envolventes.
O nascimento recente da Sofia é outro motivo de alegria, mas também um
desafio ao seu equilíbrio conjugal.
|
Estimular a relação
Algumas vitaminas para os
relacionamentos:
•
Comunique ao outro o que sente e deseja
• Assuma a responsabilidade pelos
seus desejos e necessidades pessoais
• Mantenha a cabeça fria durante
uma discussão
• Expresse emoções negativas com
respeito pelo outro
• Ataque o problema, não a pessoa
• Observe e escute em vez de
avaliar
• Evite o padrão "palmadinhas-festinhas"
• Dispense opiniões de terceiros
na procura de soluções conjugais
• Confie no seu valor próprio e
do parceiro |
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"Inicialmente, tudo girava à
volta da bebé. Foi quando percebi como era fácil entrar em depressão
por sentir que não estava a dar conta do recado, até por falta de
horas de sono", recorda Jaqueline.
Antes de entrar em ruptura - como acontece a tantos jovens, após serem
pais - decidiram contratar uma empregada a tempo inteiro. Agora que
reencontraram novos ritmos para estar a dois, continuam a acreditar
que o companheirismo e a confiança (que deve prevalecer sobre o ciúme,
asseguram) são a raiz de qualquer relação adulta. E chegam a falar do
turismo sénior que hão-de fazer quando forem velhinhos. Eles não negam
que os prazeres conjugais requerem uma entrega total - sem lugar para
situações extra-casamento, portanto - e alguma disciplina: "Não
permitimos que as solicitações exteriores tomem conta da nossa vida."
Porém, não se sentem limitados na sua identidade pelo vínculo
matrimonial, ainda que admitam com naturalidade o facto de poderem
suscitar ou ter desejo por terceiros, "que não deve ser reprimido, mas
dispensa ser concretizado". A sua filosofia é simples. Nas palavras de
Manuel, "se correspondermos a todos os olhares, não nos damos a
oportunidade de olharmos para nós dois, para o nosso amor e tudo o que
é fruto dele".
O sentido de família está bem presente nos que optam por casar
para a vida. À semelhança de Jaqueline e Manuel, muitos outros
cônjuges convictos apostam na comunhão de corações e de gerações. Como
Samuel Freitas e Ana Paula Esteves, de 48 e 43 anos, respectivamente,
com uma filha e uma ligação que se aproxima das bodas de prata. Ainda
eram crianças quando celebraram votos diante do altar, apesar de
alguma resistência familiar. O segredo para a longevidade parte do
espírito lúdico, reside nos carinhos e na capacidade de inovar. Aos
fins-de-semana, pegam nas bicicletas e saem de Lisboa, rumo a Sintra.
O convívio com outros casais (que também são pais) é-lhes vital.
Chegam a frequentar jantares e a fazer férias em grupo, "porque o amor
precisa de compreensão e de abertura aos outros".
Será esta a fórmula para uma lua-de-mel sem fim? No filme inspirado na
vida da escritora e filósofa Íris Murdoch, a protagonista faz uma
palestra numa universidade sobre o amor e ousa afirmar que ele nasce
no mais fundo do ser: "A busca e a promoção da felicidade é aquilo que
se viu uma vez à luz clara e pura, antes de nascermos, sendo nós
próprios puros, mais o poder da nossa imaginação."
Em última análise, o exercício do amor revela-se no que não pode ser
dito, mas entendido numa comunhão silenciosa interior. Como aconselha
o filósofo indiano Osho, que o jornal britânico The Sunday Times
incluiu na lista dos 1000 Construtores do Século XX, "aprender a
relacionar-se é mais importante que procurar uma relação, porque
assenta numa exploração da consciência e nos seus infinitos
mistérios". Talvez esta seja uma definição mais genuína e abrangente
do casamento do novo século. Amar como sinónimo de conhecimento
interior (um processo solitário) e de permissão para que alguém nos
ame, especialmente sem ter de garantir condições. |