Público - 25 Nov 03

Vítimas Familiares
Por NUNO PACHECO

Hoje, Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, vamos ouvir a repetição dos números de sempre: em Portugal, em cada mês, morrem pelo menos cinco mulheres vítimas de violência doméstica. É um dado que não é novo mas, ainda assim, assombra. Como assombra a impunidade da violência continuada que se abate todos os dias sobre milhares de vítimas, mulheres e crianças na sua quase totalidade, no pretenso aconchego de lares transformados em aterradoras salas de tortura. Na década de noventa, em Portugal, ainda era possível assistir a cenas como as que recorda nesta edição do PÚBLICO (ver páginas 2 a 5) a directora do Instituto de Medicina Legal do Porto, Teresa Magalhães: certo dia, uma mulher apresentou-se no instituto, para análise, queixando-se e ter sido agredida pelo marido; o instituto fez um relatório alertando para o perigo que ela corria; dias depois, a mulher voltou a entrar no instituto, mas na sala de autópsias, já morta: o marido tinha-a assassinado com uma faca, diante das filhas. Hoje, esta relação entre denúncia e desfecho fatal diminuiu. As queixas por violência doméstica (12.221 no ano passado) já fazem parte da rotina do nosso mal-estar social, que as polícias registam e a que dão andamento imediato ou que classificam como "desavença familiar", adiando o problema para desfechos desconhecidos. Mas os agressores também mudaram de estratégia. Anulada pela lei a velha presunção de que "entre marido e mulher ninguém mete a colher" ("norma" que afogava em silêncio todo o tipo de ignomínias) e quando já se regista um número razoável de condenações (250, num total de 463 arguidos por maus tratos contra o cônjuge ou crimes análogos), agora são muitos os que substituem a violência física directa pelo terror psicológico ou pela perseguição contínua das vítimas de modo a destruir nelas qualquer possibilidade de refazer a vida longe da sua alçada.

Dessas histórias também hoje damos conta e, por elas, há já mulheres que tiveram de mudar de terra ou mesmo de país, de modo a não pôr as suas vidas e as dos seus filhos em risco. Uma das mulheres cuja história relatamos nas páginas anteriores, era espancada com frequência pelo marido, a ponto de ter de ser operada ao nariz e aos pés, que ele lhe partiu. Era também  continuamente violada por ele. Um dia arranjou coragem, recorreu a uma associação e conseguiu emigrar para o Norte da Europa com as filhas. Fugida, como se tivesse cometido um crime. O verdadeiro criminoso, porém, ficou por cá. Ninguém o persegue e, amarga ironia, continua na lei a ser marido dela e quer as meninas de volta...

Os que cegamente se batem pela legitimidade das famílias, deviam atentar nos factos que revelam a brutalidade que em muitas delas se oculta, mesmo em estratos sociais elevados. E aceitar que a defesa dos direitos destas mulheres poderá ter de passar pela dissolução mais rápida de certas "famílias", para permitir a construção de outras, dignas desse nome.

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