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Público - 24 Nov 03
NÃO PAGAMOS !!!
Por M. FÁTIMA BONIFÁCIO
Há dias, estudantes de todo o país concentraram-se em frente a S. Bento
aos gritos de "não pagamos!". Acessoriamente, queriam também protestar
contra as "prescrições indiscriminadas". Na fila da frente, tonificado
pela juventude, Francisco Louçã dirigiu um olhar ansioso para a câmara de
televisão ainda antes de esta ir ter com ele. Quando isso aconteceu,
declarou com alacridade que estava ali para mostrar a sua solidariedade
com a massa estudantil. Também ele era ferozmente contra as propinas e
contra o governo. A educação devia ser de graça. Era uma questão de
justiça social e desenvolvimento económico. O governo não queria nem uma
nem outro: era um "atrasador". Como não queria justiça social, tomava
medidas que impediam multidões de jovens talentosos, mas pobres, de
acederem à universidade. Como não queria o desenvolvimento do país, fazia
de propósito para desqualificar a mão de obra nacional privando o grosso
desta de acesso ao ensino superior. Os estudantes tinham toda a razão em
dizer que não pagavam. A sua recusa não se fundava em nenhum motivo
egoísta, antes no virtuoso e cívico desejo de promover a prosperidade da
pátria e a igualdade entre os cidadãos. Raras vezes vi um
espectáculo de demagogia e irresponsabilidade tão repugnante.
Não nos demoremos a examinar as motivações da luta estudantil. O não às
propinas é um tema de eleição para direcções associativas incapazes de
mobilizar os estudantes em torno de reivindicações sérias e pertinentes,
mas que, exigindo mais estudo, esclarecimento e seriedade, não se
prestariam a criar a mesma agitação nem a suscitar a mesma adesão que o
mágico "não pagamos" provoca todos os anos. As direcções académicas
dependem mais da capacidade de mobilizar a massa estudantil do que da
justiça das causas que promovem; dependem mais da capacidade de
proporcionar uma grande festa do que da qualidade das análises que
produzem. E que maior festa do que concentrarem-se milhares de estudantes
a gritar contra o governo ?
As posições do Bloco de Esquerda e de toda a esquerda radical em matéria
de propinas já eram conhecidas, e parecem, à primeira vista, de uma
impecável coerência. O grau de desenvolvimento económico e social de um
país é condicionado pelo nível de educação dos cidadãos. Dantes foi o
ensino primário que se generalizou. Depois foi o secundário. Nesta linha
de Progresso, exige-se que, na actualidade, se rasgue mais aberto o
horizonte educativo para todos. Cada rebento que nasce é potencialmente e
teoricamente um candidato à universidade. Esta deverá portanto ser
gratuita, quer dizer, paga em exclusivo pelos impostos dos contribuintes,
do mesmo modo que já acontece com os cuidados de saúde. E se os impostos
não chegam, então que se aumentem. Um estado democrático e social tem a
obrigação indeclinável de garantir a gratuidade de todos os graus de
ensino. Por que motivo haveriam as famílias, que já pagam impostos, de
pagar de novo pela educação dos filhos ? Acaso essa educação não beneficia
o país no seu conjunto ? E então não deve ser o país no seu conjunto a
pagá-la integralmente ? A isto, que por si só já nos devia convencer da
bondade da tese, acresce o facto de que apenas o ensino superior universal
e gratuito assegura que não haverá discriminação económica entre os
possíveis candidatos.
A tese é falsa, porque assenta em premissas puramente especulativas. É
aliás um excelente exemplo daquele "espírito filosófico" que Edmund Burke
tanto estranhava e condenava nos raciocínios abstractos dos ideólogos da
revolução francesa. Burke referia-se a um tipo de raciocínio que parte de
princípios abstractos para daí deduzir como deve ser a realidade e
conformar esta com aqueles. Senão vejamos. A ideia de que todos os
rebentos que nascem são candidatos potenciais à universidade é
simplesmente falsa. Apenas não sabemos, à partida, quais são e quais não -
mas sabemos de certeza que nem todos serão. Por muito que custe aos
devotos do igualitarismo, as pessoas não nascem todas com a mesma
inteligência, talentos e interesses. A grande maior parte delas não possui
a capacidade nem desenvolve ao longo da vida a curiosidade intelectual
indispensáveis a um estudante com aproveitamento. Aliás, agradecem não
serem obrigadas a estudar, o que realmente não faz sentido quando puxar
pela cabeça é um sacrifício e ler um livro do princípio ao fim uma
tortura. Não vale a pena nem deve ir para a universidade quem se propõe
"estudar" pelos apontamentos do parceiro colados à pressa numa noite em
branco aguentada a café; nunca deviam lá entrar os alunos que se arrastam
anos e anos para concluir, ou não, uma licenciatura paga com os impostos
de nós todos. Quer se queira quer não, a universidade é e deverá ser
sempre restrita a uma minoria com as competências necessárias para dela
aproveitar. A menos que seja de tal modo massificada que o ensino ali
ministrado perca toda a especificidade que faz dele um ensino "superior".
Infelizmente, graças à "democratização" do ensino, em muitos sítios é o
que já se passa.
Tanto quanto se possa legítima e plausivelmente imaginar, não haverá
jamais uma sociedade em que todos sejam médicos, engenheiros, economistas,
sociólogos, antropólogos e por aí fora. Uma tal sociedade não poderia pura
e
simplesmente funcionar. Um amigo meu muito socialista disse-me há dias que
gostaria muito de discutir Platão com o homem que lhe vendia os jornais.
Respondi-lhe que nesse caso o homem teria seguramente outro ofício.
Previsivelmente, não foi sensível ao argumento. Permanece o facto de que a
universidade, pela sua própria natureza e pela feliz diversidade dos seres
humanos, está ou devia estar destinada a ser uma instituição elitista. Por
que motivo há-de então o país inteiro financiar na totalidade o privilégio
de uma minoria ? Por que motivo há-de o país inteiro financiar a especial
qualificação de uns tantos que retiram daí vantagens profissionais
inacessíveis ao maior número ? O país já paga, e muito, pelo benefício que
retira da actividade dos seus licenciados: cada aluno universitário custa
ao Estado mais de mil contos por ano. O menos que se pode dizer é que não
parece irrazoável que aquele contribua com catorze contos por mês.
Resta o argumento da igualdade de oportunidades, uma exigência que
ninguém, na posse das suas faculdades mentais, ousará contestar. A
solução, como toda a gente está farta de saber, consiste em criar bolsas
de estudo para aqueles que efectiva e verdadeiramente não possam pagar a
propina, aliás pouco mais que simbólica, que é exigida. Aqui sim, as
gritarias dos estudantes teriam uma reivindicação justa a que se aplicar.
Mobilizariam as massas ? Não sei: os estudantes cujas famílias não podem
suportar catorze contos mensais são uma minoria; ouvi dizer que no Porto
apenas meia dúzia aproveitou a possibilidade que lhes foi dada de pagarem
em prestações. Os estudantes têm telemóveis, vão a concertos rock,
frequentam a noite. Nada, mas nada indica que a maioria viva na miséria.
Voltando aos estudantes, não podiam ter sido mais infelizes ao protestar
também contra as "prescrições indiscriminadas", na expressão usada pelo
exemplar presidente da associação académica de Coimbra. A qualificação de
"indiscriminadas" apenas se destina a escamotear subtilmente (!) que se
rejeitam as prescrições tout court. Ou seja, reivindica-se o direito de
chumbar indefinidamente, enquanto os pais, e sobretudo o Estado, tiverem
dinheiro para financiar o lazer e a preguiça. Se mais não houvesse, esta
pretensão indecorosa, por si só, retiraria toda a legitimidade à já
tradicional luta estudantil contra as propinas.
Professora universitária e historiadora |