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Público - 22 Nov 03
Comissão Quer Mais Horas de Matemática e Menos Calculadoras no 1º Ciclo
Por ISABEL LEIRIA
Mais de um ano depois de ter sido formalmente constituída, a Comissão para
a Promoção do Estudo da Matemática e das Ciências terminou o seu primeiro
relatório de diagnóstico e recomendações. As propostas foram anunciadas
ontem pelo ministro da Educação, David Justino, e passam em grande parte
pelo reforço do ensino da Matemática logo a partir do 1º ciclo (primeiros
quatro anos do ensino básico).
Neste nível de escolaridade, os professores devem consagrar pelo menos 90
minutos diários à Matemática (e outros tantos ao Português), começa por
sugerir este grupo de trabalho. A definição de um número de horas mínimo
torna-se ainda mais importante na medida em que, na actual organização
curricular do 1º ciclo, apenas se estabelece o total de tempo lectivo
semanal, a distribuir pelos docentes, entre as várias componentes do
currículo. "A elevada componente de gestão flexível do currículo tem como
resultado uma evidente dispersão dos desempenhos", lê-se nas
recomendações.
Em consonância, também no 2º ciclo (5º e 6º anos) deverá haver um "reforço
da componente horária" destas matérias, acompanhado de uma "redução do
número de disciplinas".
Ainda em relação aos primeiros anos da escolaridade, desaconselha-se a
"utilização indiscriminada" da máquina de calcular, dado que "limita a
aquisição dos automatismos de cálculo, imprescindíveis à realização em
tempo útil das tarefas cognitivas mais complexas", sustenta a comissão. A
limitação da utilização da calculadora nas aulas deve manter-se no 3º
ciclo e secundário, embora menos acentuada. Deve, sobretudo, ser
considerada como um instrumento "subsidiário" e não substituto de
competências básicas.
E se a máquina de calcular pode perder importância, já a tabuada e as
operações aritméticas devem ser revalorizadas. David Justino concorda:
"Não há domínio da Matemática se não houver memorização, treino, repetição
e rotina".
Outra das medidas sugeridas prende-se com o reforço do estudo da geometria
no 1º ciclo, como forma de tornar mais simples a aprendizagem dos
conceitos mais abstractos da Matemática. A geometria poderá ajudar, por
exemplo, nas demonstrações de algoritmos e axiomas.
Para além destas e outras medidas específicas propostas para melhorar o
ensino de uma das disciplinas que mais dificuldades causam aos alunos
portugueses, o volumoso relatório - são 250 páginas de diagnóstico,
avaliações comparadas, análises parcelares e contributos vários - faz
ainda uma série de recomendações de carácter mais global (ver caixa).
Trata-se de alterações que esta comissão - que funciona como órgão
consultivo do ministro e é presidida pelo próprio desde a saída pouco
pacífica de António Manuel Baptista, que a liderava -, considera poderem
ajudar a "eliminar os pontos de tensão que, devido a erros e indefinições,
persistem no sistema".
Muitas das sugestões enquadram-se na linha dos princípios defendidos por
este Governo e encontram-se mesmo integradas no documento orientador da
revisão curricular do ensino secundário ou na proposta de lei de bases da
educação, neste momento em discussão. Por isso mesmo, David Justino
afirmou ontem que subscreve a "esmagadora maioria" das recomendações.
O próximo passo da comissão será debruçar-se sobre o problema do ensino
das ciências, culminando na elaboração de um novo relatório e de propostas
destinadas especificamente a esta área. |