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Público - 22 Nov 03
Os "Automóveis da Morte"
Por HELENA MATOS
"Nós dizemos o seguinte ao criminoso Bush e aos seus criados entre os
árabes e os estrangeiros, e em particular à Grã-Bretanha, à Itália, a
Austrália e ao Japão: os automóveis da morte não se ficarão por Bagdad,
Riad, Istambul, Djerba, Nassiriyah ou Jacarta, vocês hão-de vê-los com os
vossos próprios olhos no centro da capital da tirania" - anunciava um
comunicado da Al-Qaeda após o ataque a duas sinagogas na Turquia.
O problema do fundamentalismo islâmico chegou a algumas cidades da União
Europeia muito antes dos "automóveis da morte" e os seus danos não só não
são inferiores ao estrépito das bombas, como colocam ainda mais em
evidência a imensa debilidade dos Estados europeus perante os
fundamentalismos. A este título são exemplares os testemunhos dos
professores, médicos, directores de prisões, dirigentes sindicais,
representantes religiosos e associativos... que estão a ser ouvidos em
França por uma comissão presidida por Bernard Stasi e encarregue de
averiguar da aplicação do princípio da laicidade naquele país. Grande
parte das respostas seleccionadas pelo jornal "Libération" prendem-se com
a questão do uso do véu pelas mulheres e raparigas, assunto que em França
é uma das grandes questões da actualidade. Invariavelmente aparecem os
pais muçulmanos e as respectivas filhas dizendo que elas querem usar o
véu. Que é uma questão de livre escolha. Depois há umas vozes também muito
bem intencionadas sugerindo que as meninas usem uns véus mais curtos e com
corações cor-de-rosa ou com o Snoopy (juro que não estou a brincar!) em
vez de mantos negros. Como se tudo se reduzisse a uma questão de estilo.
De moda. Para completar o ramalhete, temos ainda umas autodenominadas
associações contra o racismo que entendem que a questão do véu é um
assunto lateral - apesar de as mulheres serem mais de metade da
humanidade, os seus assuntos, embora geralmente muito concretos e
objectivos, são sempre uma questão lateral - e que esta discussão vai
estigmatizar ainda mais os muçulmanos.
Não deixa de ser curioso como um país europeu, e a França não é de modo
algum excepção antes a regra, está mergulhado numa discussão atávica. Como
é que se chegou a isto? Pior, como são possíveis casos como os relatados
por Christine Picot, parteira no hospital André-Grégoire de Montreuil (Seine-Saint-Denis)?
"Na maternidade, assiste-se a um aumento do uso do véu, mesmo da burqa,
com luvas. Muitas mulheres não têm direito a falar. A explicação que nos
dão é que elas não falam francês. Mas isso é falso. Elas estas de pés e
mãos submetidas à vontade dos maridos." No mesmo testemunho publicado pelo
"Libération", Christine Picot denuncia o facto de os maridos permanecerem
ao lado das mulheres para terem a certeza de que elas não só não são
atendidas por homens, como também para decidirem eles acerca da forma como
o parto decorre, nomeadamente sobre o recurso a anestesias.
Outro testemunho revelador do inquietante proselitismo islâmico é o de
Pierre Raffin, director da prisão de la Santé. Para Pierre Raffin, o
proselitismo dos fundamentalistas islâmicos começou a fazer-se sentir nas
cadeias desde há três anos. Raffin fala de detidos obrigados a rezar.
Impedidos de usar calções. Denuncia igualmente que as pressões dos
fundamentalistas se estendem às famílias dos detidos: "Nós vimos chegar ao
parlatório mulheres completamente veladas, que recusam mostrar o rosto. E
já aconteceu serem agredidos agentes sob o pretexto de que tinham olhado
insistentemente para a mulher de determinado preso."
Ao mesmo tempo que decorrem estas audições, o Estado francês viu ser
rejeitada a sua oferta de apoio à construção da Grande Mesquita de
Estrasburgo. Abdarrahim Al-Haluy, secretário-geral da associação dos
muçulmanos de Estrasburgo, rejeitou o apoio pecuniário das autoridades
francesas porque estas punham como condição para atribuírem esse subsídio
três condições: orações em francês, respeito pelos direitos das mulheres e
combate à delinquência juvenil.
Pode ser que a resposta de Abdarrahim Al-Haluy - "Não estamos a pedir
caridade. Podemos fazê-lo sem a ajuda da cidade" -, tal como os
depoimentos obtidos pela Comissão Stasi levem o Estado francês e os outros
Estados da União Europeia a reflectir sobre a forma como se têm
relacionado com os muçulmanos que residem no espaço europeu. Nomeadamente
no profundo erro que foi aceitar que os interlocutores da comunidade
muçulmana fossem exclusivamente religiosos. Como é que Estados laicos,
como a França, acharam normal, natural e legal que, na hora de dialogarem
com os muçulmanos residentes no espaço europeu, apenas se deparassem com
líderes religiosos? Como é que se achou normal, natural e legal a tábua
rasa que vários desses líderes faziam de valores básicos do espaço europeu
como a igualdade entre os sexos?
Numa Europa que se libertava ela mesma da imensa influência da Igreja
católica, numa Europa em que se instalou um profundo vazio após a queda do
Muro de Berlim e ao consequente emergir dos EUA como grande potência
mundial, essa multidão de barbudos gritando anátemas e maldições tinha
algo de personagem bíblica. Aquela gente que amaldiçoava o Grande Satã
americano não tinha o sustentáculo dum sistema filosófico mas conseguia
fazer o que ninguém fizera: sequestravam funcionários de embaixadas;
riam-se dos negociadores; desprezavam o dinheiro... E nessa mesma Europa e
ao mesmo tempo que se conseguia que as leis e os costumes passassem a
integrar o respeito pelas minorias desenvolvia-se um acendrado fascínio,
não raramente entre membros dessas mesmas minorias, por esses homens que
não aceitam outra forma de viver além da sua.
O fundamentalismo islâmico beneficiou na Europa da orfandade de quem teve
medo de se ver sem Deus nem verdades absolutas a dizer-lhes qual o caminho
certo e sem pecado. O fundamentalismo islâmico beneficiou da incapacidade
dos governos europeus de afirmarem que a liberdade, a democracia e a
igualdade entre os sexos são valores que estão dispostos a defender. O
fundamentalismo islâmico beneficiou do anti-semitismo que une uma parte da
esquerda e da direita europeias. Anti-semitismo esse que transformou
Arafatnum libertador. Que faz com que se multipliquem com o ar mais
cândido do mundo expressões como "o protectorado" quando se fala de
Israel e que tenham como último dos seus "slogans" qualquer coisa como
"Iraque, Palestina a mesma luta". O fundamentalismo islâmico beneficiou do
antiamericanismo duma Europa que, parafraseando Garrett, já não pode ser o
que foi e muito menos pode ser o que é.
Duma Europa em que o terrorismo e, no caso, o terrorismo islâmico mata,
amordaça e amedronta. Mas em que mesmo assim há quem se sinta mais à
vontade a gritar palavras de ordem contra Bush e Blair do que a fazer um
minuto de silêncio pelos mortos nos atentados que têm varrido a Turquia. O
medo e o ódio fazem com que muitos abram alas aos "automóveis da morte". |