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Público - 22 Nov 03
Protecção de Menores Esbarra em Dificuldades Práticas
Por ALEXANDRA CAMPOS
O sistema de protecção de menores continua a funcionar com muitas
deficiências em Portugal, apesar da inegável evolução verificada na última
década. Nos últimos anos, multiplicaram-se as respostas para as crianças e
jovens em risco. Os centros de emergência e de acolhimento temporário
surgiram em catadupa; as Comissões de Protecção a Crianças e Jovens em
Perigo (CPCJP) foram-se espalhando por todo o país, cobrindo já dois
terços
do território nacional.
Delineado no papel, o sistema parece quase perfeito: quando uma criança é
abandonada ou maltratada, deve ser encaminhada para uma unidade de
emergência e, daí, para um centro de acolhimento temporário onde, no
máximo de seis meses, se define o seu projecto de vida - que pode passar
pelo regresso à família natural ou pelo encaminhamento para a adopção; se
isto não for possível, resta o último recurso - a ida para um lar.
Na prática, porém, o que tem acontecido é que há menores que permanecem
anos a fio em centros concebidos para acolhimentos de pequena duração. E
outra das grandes apostas delineada há anos atrás - a
desinstitucionalização progressiva das crianças internadas em lares -
acabou por dar resultados residuais. Pouco mais de uma centena conseguiu
voltar para casa.
Portugal continua, assim, a ostentar um desonroso título: é um dos países
europeus com as maiores taxas de institucionalização de crianças e
adolescentes. Eram quase dez mil espalhados por mais de 250 instituições
em 1999, ano em que se fez o primeiro levantamento a nível nacional.
A esta multidão alojada em lares somam-se ainda os menores recebidos pelas
famílias de acolhimento, actualmente quase sete mil (ver caixa). Mas
também esta solução alternativa acabaria por se revelar imperfeita. Um
relatório elaborado em 2002 pela Comissão Nacional de Protecção às
Crianças e Jovens em Risco (CNPCJR) diagnosticava já algumas das falhas:
quase dois terços das famílias tinham sido contactadas pela última vez há
mais de dois anos e apenas sete por cento receberam formação.
É contra este "impulso depositário" das crianças que se insurge Luís
Villas-Boas, director do Refúgio Aboim Ascensão e presidente da Comissão
de Acompanhamento da Execução da Lei da Adopção. À frente daquele que foi
o primeiro centro de emergência infantil em Portugal, o psicólogo clínico
lamenta que muitos dos centros de acolhimento temporário que hoje existem
em Portugal funcionem como novos "depósitos de crianças".
No Refúgio de Faro (com 105 crianças dos zero aos seis anos) o tempo médio
de permanência é de um ano. O segredo do seu sucesso? Simples: 80 técnicos
a tempo inteiro, 27 dos quais licenciados, e a trabalhar em horários que
muitas vezes se prolongam pela noite dentro e invadem fins-de-semana,
explica.
Mudar a lei não é solução
Apesar das falhas, o sistema de protecção de menores idealizado em 1999
estava lançado. Mas o caso da criança de 30 meses que há um mês morreu
vítima de maus tratos em Ermesinde, depois de a Comissão de Protecção de
Vila Nova de Gaia ter ordenado a sua entrega ao pai, desencadeou uma
polémica sobre as competências destas instituições não judiciárias. Com a
nova lei de protecção, o Ministério Público (MP) tinha deixado de ser
parceiro para passar a mero fiscalizador das comissões.
Agora, fala-se na hipótese de repôr a tutela do MP. No rescaldo do caso de
Ermesinde, o ministro da Segurança Social, Bagão Félix, defendeu a
necessidade de alterar a lei. As propostas de mudança estão a cargo da
nova presidente da CNPCJR, a procuradora Dulce Rocha, cuja prioridade é
"fazer com que os casos mais graves voltem à alçada dos tribunais".
Mas esta solução é encarada com muitas reservas por vários especialistas.
Eliana Gersão, jurista que integrou a comissão autora do projecto da nova
lei de protecção, sustenta que a "reforma em curso foi bloqueada" e não
foram criados os recursos necessário para se aplicar a lei. Como prova do
"desinvestimento político", destaca algumas medidas alternativas previstas
na lei que nunca chegaram a ser regulamentadas - como os programas de
formação parental e o apoio autónomo de vida para jovens com mais de 15
anos. Tudo isso não passou do papel e a jurista não crê que tal se deva à
falta de dinheiro. Até porque, nota, "a solução mais usada em Portugal
(internamento em lar) é a mais cara de todas". |