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Público - 21 Nov 03
António Costa Critica "Involução" na Informação Televisiva
Por MÁRIO BARROS
"Num país com tão baixo nível de literacia, a tele-exclusão é fatal. E o
problema é agravado pela 'involução' que tem havido na informação
televisiva, que tem de ser espectáculo e entretenimento." A expressão é de
António Costa, presidente do grupo parlamentar do PS, que ontem esteve nos
Encontros do Porto'03, e revela muita da preocupação que parte da classe
política tem face ao panorama televisivo actual.
Segundo António Lobo Xavier, do CDS-PP, "para a opinião pública, o que não
vem na comunicação social, em particular na televisão, não existe e os
políticos partilham um pouco essa ideia". Daí que, na sua opinião, "as
audiências tenham criado um novo arquétipo de político e muitos candidatos
são escolhidos pelo seu 'good looking'".
António Costa lembrou, por outro lado, que a imagem dos políticos (ou da
política de um executivo) pode ser rapidamente penalizada "com aberturas
consecutivas nos telejornais a falar de crimes", numa alusão ao curto
ministério de Fernando Gomes à frente da Administração Interna. "Curioso é
que nesse ano os índices de criminalidade até eram muito baixos", disse,
no decorrer do debate "A televisão e os políticos: quem determina a agenda
social e política?", promovido pela Associação Comercial do Porto.
Mostrando-se desiludido pelo facto de os espaços de debate estarem
arredados das televisões generalistas, Lobo Xavier constata que "a
televisão acabou por formatar o discurso dos políticos, matou o debate.
Pessoas exaltadas,
indignadas, que puxam pelo seu brio, e convicções não passam nas
televisões", disse o deputado, criticando ainda o facto de a "linguagem
simplista" atravessar o espectro político, "da esquerda à direita; a
citação de um pensamento político é hoje em dia vista como uma coisa
inédita". O professor universitário Mário Mesquita discordou, lembrando
que "a sloganização do discurso já vem desde o século XIX, na altura dos
comícios, em que era preciso inflamar uma plateia".
"Concentração reduz liberdade dos jornalistas"
De realçar foi a aproximação de opiniões de Lobo Xavier e de António Costa
relativamente à concentração dos "media" em grandes grupos económicos.
"Essa concentração reduz a liberdade dos jornalistas. É curioso que no
tempo em que há mais democracia no mundo, os actores da transformação, no
campo da comunicação social, são quem tem menos liberdade", resumiu Lobo
Xavier.
Noutro sentido, o deputado socialista recordou a actuação da SIC na
recente queda dos ministros da Educação e dos Negócios Estrangeiros, bem
como a posterior divulgação de excertos das escutas telefónicas a dois
membros do PS, no âmbito do processo da Casa Pia, para afirmar que o
objectivo foi simples: "Não foi nenhuma questão estratégica contra este ou
aquele político, mas sim ganhar 'share', mais anunciantes e, com isso, dar
mais dinheiro ao dr. Balsemão", acusou António Costa
Se estes dois políticos mostraram a sua faceta crítica quanto ao actual
estado da televisão em Portugal - António Costa saudou a RTP por,
finalmente, "ter encontrado o seu espaço" -, já o professor universitário
Mário Mesquita preferiu falar em "interacção" na produção da agenda
mediática dos diversos agentes da notícia, sejam eles políticos ou
jornalistas. Isto porque a agenda é desdobrável em vários itens: "A agenda
que as instituições pretendem colocar em evidência junto do público, a
agenda dos 'media', que pode perturbar o Governo, e as agendas da opinião
pública e de cada um de nós."
No final do debate, a escritora Agustina Bessa-Luís defendeu a ideia de
que "a televisão não tem tanto poder sobre as pessoas como muitos pensam,
ela ilude, mas não engana". |