|
Público - 21 Nov 03
Reforma Social Potencialmente Explosiva em França
Por ANA NAVARRO PEDRO, Paris
O ministro francês para Assuntos Sociais, François Fillon, entrou esta
semana numa corrida contra-relógio para fazer adoptar o mais depressa
possível uma vasta reforma dos direitos sociais em França. Uma emenda
adoptada ontem na comissão parlamentar para os assuntos socais estabeleceu
a data de aplicação da nova lei - se ela for aprovada - para 1 de Janeiro
de 2004. Ora, o texto tem um potencial explosivo de contestação social.
A pressa faz com que seja um projecto-de-lei híbrido. A primeira parte,
consagrada à formação profissional durante toda a vida, foi já
pré-aprovada por um acordo concluído a 20 de Outubro entre os sindicatos e
a organização do patronato MEDEF (Movimento das Empresas de França). O
texto instaura a formação profissional contínua, e cria uma "conta" de
horas de formação para cada empregado, que é transferível de empresa para
empresa, ao longo da carreira do funcionário.
A segunda parte do projecto de Fillon define novas regras do "diálogo
social" e provoca um coro de protestos. O texto dá aos acordos de empresa
um direito derrogatório às convenções colectivas e aos acordos
interprofissionais. Mesmo se o acordo de empresa for claramente menos
vantajoso que a convenção colectiva, o seu conteúdo prevalece desde que
seja assinado pela direcção da empresa e pelos representantes legais dos
trabalhadores, ou pelos próprios empregados, nas pequenas firmas.
Em contrapartida, François Fillon instaura o princípio da regra
majoritária para a assinatura de um acordo social, uma medida que suscita
menos desaprovação do que a anterior. Para que um acordo seja validado,
será necessário que a maioria dos sindicatos decida não se opor a ele.
Actualmente, basta a assinatura de uma das cinco grandes centrais
sindicais para avalizar um acordo.
François Fillon diz-se "muito contente" com o seu texto, mas o MEDEF acha
a reforma demasiado timorata, enquanto os sindicatos vêem nela uma forma
de "dumping social". O MEDEF deplora "as falhas" que impedem os acordos de
empresa de se tornarem na norma do código do trabalho. Por seu lado, os
sindicatos denunciam "uma agressão contra o direito social". Jacques
Voisin, líder do sindicato de tradição católica CFTC, evoca uma "loucura
suave" e inquieta-se: "Não vejo como se vai fazer nas pequenas empresas e
nas empresas em dificuldade, onde não haverá discussões possíveis".
Adoptando uma tom mais duro, Bernard Thibault, secretário-geral do
sindicato de tendência comunista, CGT, avisa: "Já é tempo que o governo
tome consciência de que a sua parcialidade a favor das reivindicações do
MEDEF torna-se indecente e provocadora para os trabalhadores". Por seu
lado, o algo conservador sindicato dos quadros, CGC, anunciou que vai
fazer lóbi junto dos deputados para lhes dar bem a perceber "o que vai
acontecer neste país se a lei for aprovada".
Por fim, a reforma social de François Fillon implica, ainda, uma
transferência do pagamento do RMI (Rendimento Mínimo de Inserção) para as
regiões, o que provoca também sérias apreensões nas associações de apoio
aos menos favorecidos. Há 2,5 milhões de pessoas a viverem do RMI em
França. Uma descentralização desta ajuda vai obrigar as colectividades
regionais a aumentar os impostos locais para financiar o RMI, ou a
estabelecer critérios de pagamento que levem a riscar um certo número de
beneficiários das listas. O governo passará a financiar uma nova ajuda, o
RMA (Rendimento Mínimo de Actividade): o beneficiário deve fornecer um
trabalho, e o salário é pago pelo Estado. |