| Semanário - 21 Nov 03 BÉBÉS, FISCO
E IMIGRANTES
Segundo o Observatório da Imigração,
do Alto-Comissariado para a Imigração e as Minorias Étnicas, Portugal
precisa de 188.000 pessoas a mais até ao ano de 2021 para evitar o seu
envelhecimento.
De acordo com o mesmo estudo, se se
considerar como valor médio de emigração o número estimado em 2002, que
foi de 27.000, precisaremos de 215.000 imigrantes para manter a relação
entre a população activa, entre os 15 e os 64 anos e a população mais
idosa.
Isto significa que o país está a
envelhecer, o que traz implicações e consequências do maior alcance
social, económico e político.
Desde logo o país terá nas próximas
décadas menos portugueses a trabalhar para pagar as pensões de mais
portugueses idosos. Temos um problema financeiro na segurança social.
O país terá nas próximas décadas
necessidade de mais mão-de-obra, logo atrairá a imigração. Temos um
problema de acolhimento e integração, contraditório com a ideia de fechar
as fronteiras.
A nova lei da imigração, aprovada
pelo Governo no início deste ano, veio fechar as fronteiras portuguesas,
obrigando a que o número de entradas no país seja determinada pelas quotas
definidas por um relatório bianual, definida em função das oportunidades
de emprego.
Muito provavelmente a necessidade da
economia vencerá a vontade política. A manterem-se os dados actuais, o
confronto entre estas duas realidades saldar-se-á por um aumento da
imigração clandestina. E assim passamos a ter um problema de segurança.
Portugal é tradicionalmente um país
de relação fácil com os outros povos. Acolhe em vez de hostilizar. Mas a
continuidade de fluxos imigratórios desta escala vai colocar um novo
desafio à sociedade portuguesa qual seja o de ter de se habituar a
conviver no seu território com culturas e costumes diferentes. Temos um
problema social.
Eu sei que este não é um assunto de
parangonas. Mas é um problema sério com o qual o país deve preocupar-se.
É evidente, perante esta realidade,
que necessitamos de uma nova política de natalidade como de pão para a
boca.
É neste contexto que a Associação das
Famílias Numerosas denunciou esta semana que para o fisco um bébé vale
tanto como um painel de energia solar. Para a dedução em sede de IRS a
família é como a indústria. Os filhos são uma equivalentes à diminuição do
consumo de energia.
Trata-se de uma situação chocante.
Mas pior do que isso, revela como o Estado está longe de ter uma política
coerente e consequente de natalidade, como os dados ontem revelados
exigem.
Lisboa, 20 de Outubro de 2003
Jorge Ferreira |