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Público - 20 Nov 03
Portugal Precisa de 200 Mil Imigrantes por Ano para Contrariar
Envelhecimento da População Até 2021
Por RICARDO DIAS FELNER
Para que Portugal evite o envelhecimento da sua população dentro dos
próximos 18 anos, será necessário que entrem no país perto de 200 mil
imigrantes por ano. É o que conclui um estudo encomendado pelo
Observatório da Imigração, do Alto-Comissariado para a Imigração e
Minorias Étnicas, realizado com base nos Censos de 2001.
O trabalho adianta que para que a relação entre população activa (15-64
anos) e idosa (mais de 64 anos) se mantenha, o saldo migratório anual -
diferença entre as pessoas que entram e as pessoas que saem do país - terá
de ser, até 2021, de mais 188 mil pessoas.
Ora, se se considerar como valor médio da emigração o número estimado em
2002 -27 mil - resulta que para se alcançar esse saldo migratório nos
próximos anos serão necessários, anualmente, 215 mil imigrantes.
A grande improbabilidade de este valor ser alcançado vem deitar por terra
a ideia de que a imigração - não só em Portugal mas também na Europa -
poderá contrariar, por si, a tendência generalizada de quebra da população
activa. Os resultados do estudo foram alcançados mediante cenários
traçados de acordo com as hipóteses previstas de evolução da mortalidade e
da fecundidade para os próximos anos.
Os valores a que chegaram os investigadores Maria João Valente Rosa, Hugo
de Seabra e Tiago Santos - no estudo intitulado "Contributos dos
Imigrantes na Demografia Portuguesa" - permitem afirmar que as
manifestações do processo de envelhecimento "dificilmente serão impedidas"
pelo efeito dos saldos migratórios positivos.
"Perante valores de saldos migratórios (necessários) tão elevados, pode
concluir-se que o papel desta componente demográfica não será solução para
a travagem do processo em curso de envelhecimento das estruturas etários",
refere o estudo.
Os investigadores ressalvam, contudo, que, se os saldos migratórios
positivos não resolvem as manifestações do processo de envelhecimento,
isso não significa que os seus efeitos na demografia portuguesa sejam
inexistentes. "Na sua ausência, o panorama demográfico seria diverso." Ou
seja, o envelhecimento seria ainda mais rápido, os níveis de natalidade
ainda mais baixos e a população ainda menor.
Apesar de os autores terem optado por se apoiarem no Censos de 2001, só se
reportando aos estrangeiros residentes (e, portanto, deixando de fora os
estrangeiros com autorizações de permanência e quem está há menos de um
ano em Portugal - fatia que, neste momento, duplicaria o número de
imigrantes tidos em conta no estudo), isso não invalida que, mesmo assim,
a sua expressão demográfica possa vir a ser importante.
Imposição de restrições
Na década de 90 - antes da entrada em massa da imigração oriunda do Leste
europeu e do Brasil, por ocasião do processo de legalização extraordinário
iniciado em 2001 - os estrangeiros a residir em Portugal já contribuíam
com
um quinto do acréscimo de população e ajudavam a reequilibrar os géneros
masculino e feminino, diminuindo o predomínio das mulheres, notam os
investigadores.
Note-se, porém, que a nova lei da imigração, aprovada pelo actual Governo
no início deste ano, veio fechar as fronteiras portuguesas, obrigando a
que o número de entradas no país esteja de acordo com as quotas definidas
por um relatório bianual, tendo em contas as oportunidades de emprego.
Esta intenção de controlar o fluxo migratório legal, antes da entrada em
solo português, não deverá contudo surtir efeito. O estudo é muito claro
quanto a isso: "Tudo leva (...) a crer que a imigração só em parte possa
ficar afectada pelas restrições que venham a ser impostas neste domínio. A
pressão migratória de estados terceiros sobre a Europa (e sobre Portugal)
não está próxima do fim", lê-se no documento.
Mesmo assim, colocando a hipótese (pouco provável) de se manterem os
elevados níveis de imigração legal registados em 2001 e 2002 - que
permitiram saldos migratórios positivos de 65 e 70 mil pessoas,
respectivamente -, e embora admitindo-se uma recuperação ligeira dos
níveis globais de fecundidade, "a população em Portugal deverá apresentar
em 2021 níveis de envelhecimento bastante superiores aos que se observaram
em 2001", concluem os autores. |