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Público - 18 Nov 03
Quer com Factura?
Por JOSÉ VÍTOR MALHEIROS
A última campanha publicitária de incentivo ao pagamento de impostos
lançada pelo Ministério das Finanças mostra alguns indivíduos que exigem
de mecânicos e canalizadores a garantia de que estes lhes vão passar uma
factura antes de lhes mostrarem o carro ou a torneira que carece de
reparação.
A campanha estaria muito bem - é meritório promover o pagamento de
impostos -, se não se desse o caso de ela apenas realçar que o pagamento
de impostos é em Portugal, pelo menos no tipo de situações retratadas,
deixado ao livre arbítrio de cada um, não restando ao Estado nenhuma
alternativa senão apelar ao bom coração do cidadão e ao seu sentido
cívico.
O que o anúncio não mostra, mas todos sabemos, é que exigir uma factura
numas obras em casa ou na reparação do carro equivale a pagar, à laia de
sobretaxa, não só o IVA, mas também o IRC da empresa em questão e um
pequeno arredondamento só pela chatice. Uma conta de cem euros sem factura
transforma-se assim com frequência em 150 com factura, ou seja, exigir uma
factura é visto como um luxo a que a maior parte dos cidadãos não se pode
dar.
Esta campanha está apoiada num "incentivo fiscal" que permite subtrair à
colecta do IRS 25 por cento do IVA pago até um máximo de 50 euros por ano.
Não é preciso fazer contas para perceber que basta não pedir factura numa
única reparação do carro ou dos canos para obter um muito maior benefício
financeiro. O que é necessário fazer? Acabar com a situação em que pedir
factura não é uma escolha do pagador, punindo os prevaricadores de uma
forma desincentivadora.
A campanha é tanto mais estranha quanto, recentemente, o mesmo Ministério
das Finanças obrigou os profissionais por conta própria (que usam o
chamado "recibo verde") a escolher entre o regime da contabilidade
organizada, que obriga cada um deles a contratar um técnico oficial de
contas, e o chamado "regime simplificado", que não exige contabilidade. É
evidente que muitos milhares de profissionais liberais escolheram o último
regime, menos oneroso.
A consequência foi que quem optou por este regime simplificado deixou de
poder apresentar despesas relativas à sua actividade. De uma penada, o
Ministério das Finanças deixou assim de poder contar com a colaboração de
muitos milhares de profissionais que, por interesse próprio, pediam
facturas em todo o tipo de serviços (cafés, restaurantes e táxis, por
exemplo) e que deixaram de o fazer por esse interesse ter desaparecido. Se
houve uma medida incentivadora da pequena fraude fiscal e da subdeclaração
das receitas do comércio, foi essa.
De uma forma tristemente demagógica, o que a campanha do Ministério das
Finanças pretende dizer é que, se existe fraude fiscal, a culpa é nossa,
dos clientes dos pequenos serviços, que devíamos controlar o desempenho
fiscal das pequenas empresas e não o fazemos. Será que seria difícil ao
Ministério das Finanças determinar as verdadeiras receitas de um
restaurante ou de um consultório médico? Ver se passam ou não os recibos
que devem? Claro que não. É fácil fazê-lo por amostragem, como se faz
noutros países. Mas isso obrigaria a tomar medidas que fariam franzir o
sobrolho à base social de apoio do PSD. É mais fácil pedir às donas de
casas (os anúncios mostram sempre mulheres) que obriguem os pequenos
empresários a passar facturas. Da mesma maneira que é mais fácil cruzar os
dados do fisco com a segurança social, para garantir que os trabalhadores
por conta de outrem que pagam impostos não estão a fugir a alguns
cêntimos, do que investigar os sinais exteriores de riqueza para encontrar
as discrepâncias entre rendimentos declarados e rendimentos reais e
obrigar a pagar quem nunca pagou. |