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Público - 17 Nov 03
Mudam-se Os Tempos, Não Se Mudam as Vontades (2)
Por MARIA FILOMENA MÓNICA
Como contei em anterior artigo, foi com a ajuda de uma irmã, perita em
electrónica, que consegui obter os programas que desejava, o do Estudo do
Meio do ensino básico (garantem-me que a edição, de 1991, está em vigor),
bem como o de Língua Portuguesa dos 10º, 11º e 12º anos (homologado em
2001/02). Por hoje, fico-me pelo primeiro.
O mais impressionante para quem apenas ocasionalmente se debruça sobre
estes fenómenos é a forma como, por detrás da cor política dos
governantes, a ideologia pedagógica permanece inalterada. Tão ocupados
andam os ministros com a gestão dos sarilhos correntes - a abertura do ano
escolar, a colocação dos docentes, as pressões dos sindicatos - que não
têm tempo para se preocupar sobre o conteúdo do que é ensinado.
Sei que, em outros países da Europa, as ideias pedagógicas não são muito
diferentes das que por aí existem. Mas, em Portugal, instalaram-se sobre
os escombros do salazarismo, o que lhes confere uma arrogância singular.
Do alto das suas cátedras, os modernos doutrinadores proclamam que o
ensino se deve basear nos "saberes" trazidos pelos meninos, que a sala de
aula deve ser um recreio e que a escola mais não é do que a reprodução da
estrutura de classes. No meu livro "Os Filhos de Rousseau" denunciei, a
propósito dos exames do 12º ano, a forma como estas ideias tinham minado
as escolas. De então para cá - e já lá vão seis anos - nada mudou.
O programa de ensino básico começa logo com uma mentira: "A
ReformaCurricular situa-se como componente fundamental da Reforma do
Sistema Educativo, concitando [sic] naturais expectativas por parte, não
só de quantos se encontram envolvidos no processo educacional, como também
de muitos outros e mais vastos sectores da sociedade portuguesa." Como
pude constatar, quando andei em busca dos programas, nem os pais nem a sua
confederação manifestam o menor interesse pelo assunto, como o atesta a
presunção, nos locais para onde telefonei, de que os programas pertencem
às escolas.
Eis a filosofia da educação, tal como expressa no preâmbulo: "Deste modo,
também se pretendem ver reformuladas a relação pedagógica e a metodologia
do processo de ensino-aprendizagem relativamente aos padrões tradicionais.
Se o apelo à participação do aluno na construção e avaliação das suas
aprendizagens, ao incentivo da sua autonomia como sujeito intelectual e
moral ou à dinamização das actividades criativas dos indivíduos e dos
grupos não constituem propostas inovadoras face a práticas já correntes em
muitas escolas, o mesmo se não pode dizer da explicitação programática
destes princípios."
Não pretendo enjoar o leitor, pelo que salto por cima da retórica
analfabeta, concentrando-me na disciplina estranhamente intitulada Estudo
do Meio: "O meio local, espaço vivido, deverá ser o objecto privilegiado
de uma primeira aprendizagem metódica e sistemática da criança, já que,
nestas idades, o pensamento está voltado para a aprendizagem concreta." Em
vez de se alargar os horizontes, estes são reduzidos aos que as crianças
supostamente trazem de casa.
O Estudo do Meio - um território sem fronteiras que engloba a Biologia, a
História, a Psicologia, a Etnografia, a Geografia, a Astronomia, a Física,
a Economia e a Química - procura "contribuir para a compreensão
progressiva das inter-relações entre a natureza e a sociedade". Como se
isto não bastasse, atribui-se-lhe igualmente a função de formar cidadãos:
"É ainda no confronto com os problemas concretos da sua comunidade e com a
pluralidade das opiniões nela existentes que os alunos vão adquirindo a
noção da responsabilidade perante o ambiente, a sociedade e a cultura em
que se inserem, compreendendo gradualmente o seu papel de agentes
dinâmicos nas transformações da realidade que os cerca." Segue-se a lista
dos fins da escolaridade básica, que vai da inculcação de "hábitos de
higiene" à identificação de "elementos relativos à História e à Geografia
de Portugal". No subcapítulo dedicado à História, diz-se: "O âmbito de
estudo da criança vai alargar-se aos outros, primeiramente aos que lhe
estão mais próximos e depois, progressivamente, aos mais distantes no
espaço e no tempo."
Só depois de ter lido isto fizeram sentido algumas das conversas tidas com
as minhas netas. Há tempos, admirara-me o facto de a Rita, que tem oito
anos, ao comentar os trabalhos de casa, me ter dito preferir os homens
primitivos aos gregos. Interrogada sobre o motivo, confessou que era por
serem "diferentes de nós". Noutra ocasião, notei o gozo com que tanto ela
como a irmã mais nova haviam devorado "A Idade do Gelo", um DVD no qual
uns mastodontes pré-históricos tentam salvar um bebé. De tal forma estão
as crianças fartas do Estudo do Meio que só querem ouvir falar da
Pré-História.
Como as netas frequentam uma escola que não usa manuais, decidi investigar
o que a minha sobrinha andava a ler. Escrito por Isabel Guimarães, Isabel
Antunes de Sá e Maria João Pinho, o manual, que se destina a alunos do 4º
ano da escolaridade, intitula-se "Outros Tempos/ Outras Histórias - A
História no Estudo do Meio". Sei que é difícil escrever para crianças, mas
não é demais, julgo, pedir que o que se lhes oferece esteja factualmente
correcto. Ora, o livro contém vários erros. Não é verdade que as cortes
medievais apenas reunissem a nobreza e o clero, nem sequer é justo o que
se escreve sobre o ausente povo: "Nós trabalhamos nas terras dos grandes
senhores, seis dias por semana, e pagamos muitos impostos. Para nos
distrairmos, apenas temos as romarias, as procissões ou algumas festas
nobres importantes."
A fórmula usada para as Fichas de Trabalho, onde é suposto pôr-se um "V",
de verdadeiro, ou um "F", de falso, à frente de algumas frases, mais
parece saída de um concurso televisivo do que adaptada a uma sala de aula.
O caso mais ridículo deste tipo de questionário vem no final: "Salazar
foi: um instrumento de culinária/ presidente do Conselho de Ministros/ um
realizador de cinema/ um cruzado". Igualmente bizarra é a ideia de usar
textos com informações erróneas como forma de se chegar à verdade. Eis o
que, a dado momento, se pede ao aluno para comentar: "D. Sebastião
embarcou para a América de férias. Aí, lutou na batalha de Alcácer do Sal,
da qual saiu vencedor. Regressou a Portugal, num lindo dia de sol."
Finalmente, o espaço que poderia ser dedicado à História Moderna, às
invasões francesas, à guerra civil oitocentista ou ao constitucionalismo
monárquico, é ocupado com a transcrição da letra do hino da Madeira, de um
texto burocrático sobre a adesão de Portugal à União Europeia e de um
aviso solene sobre a necessidade de, após o 25 de Abril, se fazer "um
esforço comum dos cidadãos e do Estado". Num manual de 96 páginas, mais de
metade versa o presente. A História, que, segundo Aristóteles, era um
relato do que os seres humanos fizeram e sofreram, transformou-se num
amontoado de fichas com quadradinhos, apelando à memorização, à ausência
de raciocínio e à preguiça intelectual. Ora, um país que desconhece a sua
História não está preparado para enfrentar crises. Como o estamos a
verificar. |