|
Público - 17 Nov 03
Bombas em Portugal?
Por LUÍS SALGADO DE MATOS
Onze caloiros do Instituto Superior Técnico assaltaram há coisa de um mês
uma dependência bancária em Oeiras. Repetia o que talvez seja uma nova
profissão informal. Era a praxe, disseram eles à polícia. Talvez este seja
o melhor exemplo da nova violência que se espalha em Portugal.
Há numerosos outros casos de violência latente ou actual na sociedade
portuguesa. Examinemos só o lado português da questão. Continuemos com os
estudantes universitários. Por ocasião da queima das fitas, propaganda
cervejeira inunda o país de apelos humorísticos à embriaguez dos futuros "drs."
- apelos que por certo não caem em esófago roto. A embriaguez, claro, é
violência - ou facilita-a. A ideia dos cadeados na Universidade de Coimbra
tem um toque arcaico ou sado-masoquista - mas nem por isso deixa de ser
violenta. Fora da universidade: um pequeno empresário em défice acaba de
recorrer ao rapto para equilibrar o balanço - um método contabilístico que
supúnhamos ser sobretudo andino.
Vista do ângulo da violência, a mediatização dos processos da pedofilia é
uma terrível educação colectiva. O racismo cresce, pelo menos do lado de
lá dos Pirinéus. Vemo-lo a olho nu.
É outra manifestação desta nova violência - que desfaz a fronteira
tradicional entre lei e crime. O fenómeno não é só português - nem só
europeu. Nos Estados Unidos, recomeçou sexta-feira passada o "surfing no
metropolitano" de Nova Iorque - e morreu um jovem decapitado por uma
instalação eléctrica rés-vés à cobertura da carruagem na qual ele seguia.
O crescimento da nova violência passa desapercebido porque ela não tem
nome: víamos os assaltos a agências bancárias quando eles eram
reivindicados por uma organização "política" e não os vemos quando são um
ganha-pão de uns tantos bandidos. Violência da praxe, apelos à bebedeira,
banalização da violência pedófila, assaltos bancários como modo de vida -
consideramo-las manifestações da praxe ou exemplos de perversão sexual sem
nenhum ponto comum. De facto, são agressões novas típicas da nova fase de
desintegração social: mais individualismo, menos apoio das famílias, dos
vizinhos, das igrejas, ambições mais altas e satisfações mais baixas, o
"Estado social" a dar cada vez menos prestações. Até onde irá a nova
violência? Far-nos-á regressar à época dos atentados de portugueses contra
portugueses em Portugal? A partir de um certo grau de desespero, não é
impossível.
Para afastarmos esta hipótese, uma medida concreta será a seguinte. Os
projectos de diplomas, que vão a Conselho de Ministros, são, como o leitor
sabe, acompanhados de um estudo sobre se implicam aumento de despesa, se
são compatíveis com a União Europeia - entre outros quesitos relevantes. O
estudo deve abordar mais um tema: as medidas propostas diminuem a
probabilidade do terrorismo interno?
Mas tem que ser cada um de nós a cortar as raízes desta nova violência. |