Público - 17 Nov 03

Um Dia Só Não Basta
Por NUNO PACHECO

"Acha que é um 'bom condutor'? Já 'pisou o risco'? Tem a certeza que não é um 'assassino ao volante'? Sabe quais são os sinais que identificam a condução agressiva, violenta ou criminosa?" Estas perguntas constam de um teste disponível na Internet, no endereço da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados ( http://www.aca-m.org ), um teste que tem por objectivo avaliar a agressividade ao volante de quem a ele se submeter. É um dos muitos (mas, ainda assim, muito poucos) meios que a ACA-M tem vindo a usar para persuadir o país de que trava, nas estradas, uma "guerra civil" a que é preciso pôr termo, ontem lembrada em Portugal no Dia Europeu da Memória das Vítimas das Estradas.

Pode falar-se deste tema de muitas formas evitáveis: com paternalismo, com demagogia, com raiva, com desalento ou até com "realismo" estatístico (deste ponto de vista, aliás, a situação "melhorou": houve menos 100 mortos em 2003 do que em 2002). Mas também se pode não falar, mostrando o que ninguém quer ver: o estado em que ficam as vítimas não mortais, os que não sucumbiram nas estradas mas nelas deixaram parte importante das suas vidas. O que o PÚBLICO ontem mostrava, numa reportagem a Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, devia ser mostrado obrigatoriamente a todos os alunos, presentes ou futuros, das escolas de condução nacionais. Porque, para lá da indispensável solidariedade para com todos os que ali recebem tratamento, há a sensação amarga de que a esmagadora maioria vive tragédias evitáveis, se muitos dos que ali se encontram pelo infortúnio tivessem antes lá estado como simples visitantes. A ideia de que "só acontece aos outros", apesar de gasta, ainda domina. E isso é demonstrado diariamente, não só em muitos episódios lamentáveis a que assistimos nas ruas, como sobretudo naquela terrível (mas real) "novela" que a televisão emite com frequência: imagens de manobras perigosas (e até acidentes) gravadas pelas brigadas de trânsito. Vistas no pequeno ecrã parecem uma brincadeira de simuladores, autênticas acrobacias para um qualquer "isto só vídeo". Mas não são: são, isso sim, a imagem da absoluta inconsciência com que milhares de automobilistas se fazem todos os dias à estrada sem querer saber se, nesse dia, o seu próprio nome poderá alimentar as listas necrológicas.

Isto significa conduzir com hesitação, medo ou sob a paranóia do desastre iminente? De modo algum: isso só conduziria ainda a mais acidentes. Mas exige cuidado, segurança, respeito pelas regras de condução e, sobretudo, um grau de civismo superior ao nosso. Exige que, na estrada, nos lembremos diariamente dos que já não podem circular nela, porque estão imobilizados em camas ou cadeiras de rodas. São os destroços humanos da nossa inconsciência colectiva, a que só prestaremos a devida homenagem quando o seu exemplo servir para travar drasticamente o número de vítimas que ainda hoje fazemos.

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