Diário de Notícias - 10 Nov 03
Portugal não é assim
João César das Neves
Talvez seja bom alguém dizer que
Portugal não é assim. Talvez seja bom lembrar que o país continua
normal. No meio do turbilhão avassalador de crises, boatos, crimes,
obscenidades, é preciso dizer que essa não é a realidade. Portugal é o
mesmo que era antes, é o mesmo de sempre. Talvez seja bom introduzir
alguma sensatez e equilíbrio no clima de histeria nacional.
Primeiro, a economia cai este ano quase 1% e o desemprego está acima dos
6%. Isto não é nada agradável e muita gente está a sofrer. No entanto,
como crise, temos de dizer que é bem ligeira. Passámos, e não há muito
tempo, por conjunturas bem piores e à nossa volta muitos países têm
sérias dificuldades. Só se os portugueses andarem muito sensíveis é que
ficarão tão deprimidos com tão pouco.
Também a crise orçamental, hoje tão glosada, está longe de ser séria.
Deveríamos antes andar satisfeitos por o Estado finalmente fazer um
pouco de dieta. Sobretudo porque ele come à nossa custa. Os partidos da
oposição, um dos quais assinou o Pacto de Estabilidade, deveriam ter
algum senso. Não se podem queixar da «obsessão pelo défice» do Governo e
a seguir protestar com as medidas extraordinárias que a aliviam.
Terceiro, os economistas e políticos repetem que o nosso modelo
produtivo está esgotado e é preciso outro. Mas os economistas e os
políticos, que nunca produziram nada, sempre disserem isso em todas as
épocas e conjunturas. E como não foram eles que arranjaram o modelo que
nos trouxe até aqui, também não dependemos da sua opinião para o futuro.
Quarto, a Time/Europe de 20 de Outubro dá uma nossa cidade como
capital do deboche europeu. Mas isso é um exagero evidente. A infâmia é
da Time, não de Portugal.
Finalmente, descobriu-se uma barbárie horrível na Casa Pia sobre os mais
frágeis dos portugueses. Mas um punhado de acusados de pedofilia não nos
torna num país de pedófilos. Não há razões para suspeitas generalizadas
sobre classes ou sectores. Por haver decisões judiciais controversas
isso não significa que os tribunais não funcionem.
A eliminação do crime é uma excelente notícia e o funcionamento das
instituições tem de nos alegrar. Alguns dos indiciados são pessoas
famosas. Mas serão inocentes até se provarem culpados. Por haver um
deputado eventualmente envolvido num crime grave, isso não significa que
se paralise um grande e influente partido português.
Portugal não é assim. Atribuem-se culpas desta imagem aos media, pois
são os jornais, rádios e televisões que nos dizem isto. Mas isso é
esquecer o princípio mais central do jornalismo. Um facto normal, comum,
corriqueiro nunca é notícia. Os jornais relatam, naturalmente, os casos
chocantes, estranhos, abstrusos. É essa a sua função. Por isso, a
imprensa nunca dá um retrato fiel da realidade quotidiana dos
portugueses. Não é nas páginas dos jornais, como não é nos extractos
bancários, nos reality shows, nos desenhos animados e nas listas
telefónicas, que encontramos a verdade da nossa vida.
Os oráculos habituais abanam a cabeça e nas conversas de café fazem-se
as previsões mais lúgubres. Mas talvez seja bom esquecer
sensacionalismos e usar o elementar bom senso. O clima depressivo,
confuso e desorientado que se vive ultimamente nasce de uma ilusão
óptica. A situação não é fácil e há muito a fazer. Mas estamos cá para
isso, como outros antes de nós.