Público - 10 Nov 03

Crianças Que Vêem Muita TV Têm Mais Dificuldade em Aprender a Ler
Por ANA RIBEIRO RODRIGUES

As crianças que têm televisão no quarto ou vivem em casas onde ela está ligada a maior parte do tempo têm mais dificuldade em aprender a ler que as outras crianças da mesma idade. A conclusão é de um estudo norte-americano sobre os hábitos de consumo dos "media" de crianças com menos de seis anos promovido pela Fundação Kaiser Family e pelo Children`s Digital Media Centers.

De acordo com o estudo, uma em cada quatro crianças com menos de dois anos tem televisão no quarto. Quando se trata de crianças até aos seis anos esse valor é de um terço, proporção idêntica à de crianças da mesma idade que vive em casas onde a TV está quase sempre ligada.

Nos lares com um exagerado consumo de televisão, 34 por cento das crianças entre os quatro e os seis anos sabem ler, menos do que os 56 por cento que vivem em casas onde o pequeno ecrã está menos vezes ligado. As crianças que vêem mais televisão dedicam menos tempo à leitura e a ocupações no exterior.

"Estas conclusões levantam definitivamente uma bandeira vermelha sobre o impacto da televisão nos hábitos de leitura das crianças. Isto tem que ser claramente uma prioridade para pesquisas futuras", sublinha Vicky Rideout, da fundação.

Sara Pereira, do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, disse ao PÚBLICO que a pesquisa "vem no seguimento do que tem vindo a ser debatido e investigado, com o interesse particular de incidir em crianças tão pequenas". Aquilo que para a docente é um dado novo são as conclusões relativas à dificuldade de aprender a ler motivada pelo excesso de televisão. "Nunca vi nada na Europa que evidenciasse essa conclusão", comenta.

O estudo, baseado numa avaliação aleatória feita por telefone em todo o território dos Estados Unidos a mais de mil pais de crianças entre os seis meses e os seis anos, diz que as crianças desta faixa etária passam cerca de duas horas por dia frente a um monitor. Seja a ver televisão, a utilizar o computador ou com videojogos. Sensivelmente o mesmo tempo que ocupam com actividades no exterior e mais de três vezes que o tempo dedicado à leitura.

"Ver televisão é menos importante que brincar, ler, interagir com os adultos ou falar com os familiares", refere Henry Shapiro, da academia americana de pediatria. "Ver televisão sem um dos pais é uma má experiência, sobretudo para as crianças mais pequenas", acrescenta. Mas actualmente, tendo grande parte das crianças televisão no quarto, torna-se mais difícil para os pais controlarem o que os filhos vêem.

Os "media" digitais tornaram-se igualmente parte integrante da vida das crianças. Quarenta e oito por cento dos miúdos com menos de seis anos já utilizaram o computador, sendo que 30 por cento o fazem para jogar. Mesmo os mais novos, com menos de dois anos, estão expostos aos "media" electrónicos.

Pais acreditam nos valores educativos da TV

O estudo adianta também que 27 por cento das crianças entre os quatro e os seis anos são utilizadores diários de computadores, ocupação a que dedicam cerca de uma hora. Entre os miúdos deste grupo etário metade usa o computador para jogar e um em cada quatro joga várias vezes por semana. O número de rapazes que jogam no computador é muito superior ao das raparigas, 24 contra oito por cento. Ainda assim, 80 por cento das crianças com menos de seis anos tem contacto com a leitura, embora ela lhes ocupe muito menos tempo que os computadores e a televisão.

A pesquisa mostra que os pais acreditam nos valores educativos da televisão e dos computadores. Setenta e dois por cento dos pais vêem o computador como uma ferramenta de aprendizagem importante e 43 por cento tem essa mesma percepção sobre a televisão.

Shapiro considera que o facto de as crianças estarem sentadas frente à televisão, computadores e videojogos não é necessariamente mau, mas alerta para aspectos negativos: "Tanto tempo em frente aos ecrãs pode tornar os miúdos obesos e fazer com que não durmam ou não interajam com os adultos o suficiente".

Sara Pereira concorda e mostra-se "completamente contra a TV no quarto das crianças". Para a docente, a influência que o pequeno ecrã exerce depende do meio em que a criança vive e relativiza as desvantagens. "Mesmo os aspectos negativos podem vir a tornar-se bons tópicos de discussão, se acompanhados e analisados." Sara Pereira acrescenta ainda que a televisão pode realmente ser um instrumento utilizado no sentido pedagógico, se o consumo for crítico e criterioso - o que é difícil uma criança fazer por si.

Vicky Rideout sugere ainda "que os pais devem observar quanto tempo os seus filhos gastam com os 'media' e quanto tempo dedicam a outras actividades". A academia de pediatras recomenda ainda aos pais uma cuidadosa escolha dos programas e que estes ajudem os filhos a encontrar alternativas, como praticar um desporto ou aprender a tocar um instrumento musical.

A larga maioria dos pais - 99 por cento dos inquiridos - diz que tem regras para o tipo de consumo dos "media" e 69 por cento respondeu que faz o mesmo quanto ao tempo que deixa os filhos passarem em frente à televisão. Sara Pereira entende que se essas regras forem só no sentido da proibição não funcionam. "É importante haver regulação a todos os níveis e os pais saberem o que os filhos vêem. Se os pais forem selectivos e mediarem o que as crianças vêem, à medida que vão crescendo serão elas próprias a excluir programas", salienta.

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