|
Público - 6 Nov 03
A Manifestação Egoísta
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Editorial
Estudantes movidos por genuínos sentimentos de solidariedade social
centrariam as suas reivindicações na Acção Social Escolar. Em
contrapartida, estudantes que gastam facilmente em cerveja ou num novo
telemóvel o equivalente ao esforço mensal que representam as propinas têm
pouca moral para se manifestarem
As duas principais reivindicações dos estudantes que ontem se manifestaram
em Lisboa são erradas: é errado gritar "não pagamos" propinas; é errado
exigir o fim das prescrições. E é pena que tenham escolhido as bandeiras
erradas de luta, porque há muitas coisas mal no Ensino Superior, a começar
pelos deficientes níveis de qualidade e exigência de muitas escolas e
cursos e a acabar nas insuficiências da Acção Social Escolar.
O pagamento de propinas é um imperativo de justiça social, já que
corresponde a uma pequena comparticipação dos estudantes e das suas
famílias no esforço colectivo de promoção da formação dos portugueses (uma
comparticipação de uns 15 por cento). Pagar propinas também responsabiliza
os estudantes ao tornar mais claro que o ensino tem um custo elevado; é
uma medida socialmente justa, pois os estudantes com formação superior têm
melhores oportunidades de futuro do que aqueles que não chegam às
universidades, e as famílias destes não deixam por isso de pagar os
impostos que suportam o grosso da formação de cada estudante. Por fim,
diferenciar as propinas entre diferentes estabelecimentos de ensino é
racional pois nem todos têm a mesma qualidade, assim como nem todos os
cursos custam o mesmo ou oferecem idênticas saídas profissionais. O
aumento é demasiado brusco? Talvez, mas então o que os estudantes deviam
reivindicar era a progressividade do aumento, não gritar "não pagamos".
Por outro lado, como ontem se mostrava no PÚBLICO, o peso das propinas no
total dos custos suportados pelas famílias que têm filhos no ensino
superior é pequeno, correspondendo a 10 ou 15 por cento.
O que nos leva à verdadeira injustiça: o facto de existirem muitos
estudantes que poderiam e deveriam frequentar o ensino superior mas não o
fazem porque as suas famílias não podem suportar esse custo mensal e,
nesta frente, o apoio da Acção Social Escolar ser muito insuficiente. O
que pesa não é o valor da propina, até porque o Estado suporta a diferença
entre a propina mínima e a propina definida pelas escolas a todos os
estudantes bolseiros (e são cerca de um quinto do total): o que pesa é a
falta, sobretudo, de apoios aos estudantes deslocados, sobretudo os que
pagam pequenas fortunas por quartos alugados.
Neste domínio o Orçamento de Estado para 2004 até dá indicações que não
são totalmente negativas. É certo que há desinvestimento nas
transferências para as Universidades e Politécnicos, e isso é mau até
porque reforça a convicção de que a nova lei das propinas apenas visa
ultrapassar as actuais dificuldades orçamentais. Em contrapartida, as
transferências para a Acção Social Escolar sobem mais de dez por cento. No
total, contando com as receitas próprias das instituições (isto é, com as
propinas mais elevadas), as receitas totais do ensino superior público
sobem entre 2,8 por cento no Politécnico e 6,2 por cento nas
Universidades.
O que é que isto significa? Significa que no próximo ano vai haver mais
apoio aos estudantes mais carenciados e menos subsidiação dos estudos
daqueles que podem suportar as tais propinas mais elevadas (que são a
maioria). O apoio aos mais carenciados é ainda muito insuficiente, porque
sabemos que não evita que continuem a ficar muitos estudantes fora do
sistema, mas esta opção é mais justa pois corresponde a alguma
transferência de recursos, mesmo que imperfeita, dos que mais podem para
os que menos podem.
Estudantes movidos por genuínos sentimentos de solidariedade social
centrariam as suas reivindicações na Acção Social Escolar. Em
contrapartida, estudantes que gastam facilmente em cerveja ou num novo
telemóvel o equivalente ao esforço mensal que representam as propinas têm
pouca moral para se manifestarem. E menos moral ainda quando protestam
contra a prescrições, isto é, contra o fim do verdadeiro escândalo que é
um estudante cábula poder prosseguir indefinidamente nas escolas públicas,
a gastar dinheiro que é de todos, sem se formar ou então desistindo a
meio, desorganizando o sistema e tirando o lugar a outros.
PS. Francisco Louçã fez ontem, junto aos manifestantes e para as
televisões verem, uma palhaçada oportunista e um discurso populista. Devia
ter vergonha. |