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Público - 5 Nov 03
Isto Vai. Vai?...
Por JOAQUIM FIDALGO
Nem tudo está perdido, gente... Os tempos vão difíceis, o clima é de
pessimismo e desesperança, até assobiamos o primeiro-ministro num jogo de
bola, mas nem tudo está perdido. Vão até surgindo, aqui e além, ténues
prenúncios de que a vida pode melhorar. Coisinhas poucas, pequenas, mas a
que sabe bem agarrarmo-nos como sinais de, quem sabe?, alguma luzinha ao
fundo do túnel.
Três exemplos:
1 - O Big Brother já é chão que deu uvas. E nem foi preciso bater-lhe mais
- morreu de morte natural, velhinho, gasto, irrelevante. Sei, não morreu
ainda de todo; mas está moribundo, está nas últimas, há semanas que deixou
de figurar no ambicionado "top ten" das audiências, e até as capas das
revistas sociais e que tais já o trocaram por outras fofocas mais na
berra. É uma boa notícia. Afinal, ainda acontecem coisas destas, as
pessoas ainda acabam desistindo, por sua livre e soberana vontade, de ver
na televisão o que não presta.
2 - A sociedade civil ainda não se demitiu de tomar iniciativas fora, ou
para além, dos partidos e instituições. Esta semana, soubemos de um grupo
de cidadãos que quer propor ao Parlamento uma série de debates com vista a
tornar os portugueses mais pontuais. Convenhamos que já era tempo...
Sobretudo poucos meses depois de um outro grupo da sociedade civil ter
lançado um movimento de reabilitação do agradável hábito da sesta - algo
que sabe bem mas se arrisca a atrasar-nos ainda mais nas horas!
3 - Temos um Presidente da República fixe (isto já começa a ser sina...).
O homem fala sem papas na língua, confessa até que volta e meia lá diz o
seu palavrãozito como as pessoas, responde às perguntas com palavras que
se entendem, leva o coração à boca se lhe apetece, e nem por isso deixa de
fazer duas ou três críticas muito acertadas à governação que vamos tendo.
Com políticos assim, a "classe" ficava rapidamente reabilitada. Com
Sampaio assim, vai ficar-nos saudade.
Infelizmente, as moedas, mesmo em euros, continuam a ter frente e verso. E
para cada sinal de esperança que encontrei na actualidade recente, logo
saltou um paralelo motivo de desânimo, ou pelo menos de dúvida quanto ao
imparável caminho da recuperação. Vejamos:
1 - Foi-se o Big Brother mas não há meio de se irem os Malucos do Riso,
esse monumento à nossa falta de humor (maior do que a falta de
pontualidade...), pois confirma que só gostamos de nos rir com piadas
velhas, secas, palermas - e repetidas, repetidas, repetidas.
2 - A sociedade civil, por muito dinâmica que se mostre, não fornece
voluntários suficientes para um trabalho tão meritório como o do telefone
SOS Voz Amiga, responsável por tanta companhia a gente sozinha e ajuda a
gente desesperada (eventuais interessados em dar uma mãozinha liguem para
o 21-3544545).
Que políticos se levantaram a questionar a nomeação de um jornalista quase
directamente das assessorias governamentais para a direcção de um jornal
diário de facto (mesmo que não de direito) público? Acharam que não lhes
dizia respeito? Não lhes interessou estrategicamente? Ou pesa-lhes, a
todos os partidos, alguma coisa na consciência?... |