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Público - 4 Nov 03
Educação a Marcar Passo
Várias personalidades têm levantado a sua voz para criticar os programas
de Português B (Língua Portuguesa) do ensino secundário em desenvolvimento
a partir do corrente ano lectivo. Gostaria, na singela qualidade de
professor de Português, de me juntar a essas vozes para denunciar o
seguinte.
Com a sede da inovação, os programas de Português do ensino secundário
perdem qualidade, abandonam fatias consideráveis da literatura e da
cultura de todo um povo e perdemo-nos a fazer descobrir banalidades ou a
dissertar sobre matérias comuns a um vasto conjunto de disciplinas. Não
sem que, por outro lado, os programas atentem em parâmetros de extrema
importância. Efectivamente, fazer girar a aprendizagem em torno de
domínios em níveis avançados da compreensão e da expressão do oral, da
leitura, da escrita e do funcionamento da língua é opção a todos os
títulos positiva. Mas banir do conjunto de autores e obras vultos
significativos como Gil Vicente, Fernão Lopes ou a poesia de Garrett
torna-se demolidor. Reduzir a apreciação da obra de Camões e de Bocage ao
texto autobiográfico é excessivamente castrador. Não abordar os três modos
literários em cada um dos três anos do ensino secundário é renunciar a
fornecer aos jovens aquilo que só a escola lhes pode dar.
Os manuais, em vez de interpretarem no melhor sentido as opções
programáticas, reflectem as mais comezinhas vertentes da sociedade de
consumo em que uns poucos conseguem, com êxito, impingir a muitos os seus
produtos, sem que lhes sejam oferecidas quaisquer resistências. E triunfa
a situação do "politicamente correcto". è inscrição de textos de
regulamentos nos programas, acrescenta-se a selecção da moda: os "reality
shows"; e explora-se a enviesada moda programática dos contratos de
leitura, da definição de normas e leis pelos alunos, etc. - nivela-se por
baixo a relação pedagógica e o modo de estar em sociedade.
O Governo da nação, com base na filosofia do seu programa, entende
proceder legitimamente à suspensão da reforma educativa encetada pelo
anterior Governo e propõe-se reformular a Lei de Bases do Sistema
Educativo. Eis que, entretanto, põe em discussão a revisão curricular do
ensino secundário, a do ensino profissional, a do ensino artístico e a do
ensino recorrente. E a Lei de Bases ainda não passou de proposta! E
sabe-se que o ensino secundário, de futuro, vai ser organizado em dois
ciclos de três anos cada um. O que dará duas reformas em tão pouco tempo.
E, mesmo antes da produção de qualquer diploma configurador de reforma do
ensino secundário, entram em vigor os programas de 11 disciplinas,
nalgumas com carga horária semanal reduzida em relação ao que estava
previsto. É para não indemnizar os livreiros? Mas se vale a pena... Nós -
o Estado - até gastamos dinheiro bem mais inutilmente. Mas indemnizar,
quando alguns manuais incluem textos datados deste ano? E como é que sabem
os editores que os livros vão ser adoptados? Para quando a comissão de
análise de manuais?
Pode o Estado arrogar-se a brincadeira de pôr o carro à frente dos bois,
menosprezar assim as gradas figuras da nossa linha histórico-literária,
ocultar à juventude o melhor do nosso património cultural, atabalhoar
tanto a gestão dos recursos materiais, sobrecarregar a escola com os
conteúdos da escola paralela?
Abílio de Carvalho, São João de Ver (Santa Maria da Feira) |