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Público - 4 Nov 03
Crise Anunciada nas Urgências de Pediatria e Obstetrícia
Por ALEXANDRA CAMPOS, Joana Ferreira da Costa com M.G.
O Ministério da Saúde fez um levantamento da situação dos trabalhadores do
sector em 1998. O estudo apontava para uma crise logo nesse ano com a
reforma em massa de mais de 500 profissionais, que não era compensada pela
saída das faculdades de novos clínicos. O documento nunca mais terá sido
actualizado e não foi invertida a política de gestão de recursos humanos
A crise estava anunciada pelo menos desde 1998 mas ninguém esperava que
rebentasse no Norte do país. A escassez de obstetras e ginecologistas e o
reduzido número de partos registado em diversas unidades de todo o país
terão de levar ao encerramento de maternidades, dizem os especialistas. Um
cenário negado ontem no Porto pelo ministro da Saúde, que em Lisboa, face
à carência de pediatras, optou exactamente pelo caminho oposto: concentrou
as urgências nocturnas num único hospital, uma decisão que está também a
gerar polémica.
Para Luís Graça, presidente do colégio da especialidade de Ginecologia e
Obstetrícia da Ordem dos Médicos (OM), a solução para a falta de
especialistas no Norte terá de passar pela concentração de recursos e pelo
encerramento de algumas urgências obstétricas. O problema está
diagnosticado e enquadrado há muito tempo, mas "todos os ouvidos"
permaneceram "fechados" aos alertas feitos nos últimos anos.
Luís Graça surpreende-se pelo facto de o problema ter "rebentado" no
Norte, mas diz que era "inexorável" que ele surgisse. Há três semanas a
administração do Hospital Pedro Hispano decidiu encerrar as urgências de
obstetrícia ao sábado e domingo e médicos de outras unidades têm-se
recusado a fazer horas extraordinárias para além das 12 horas por semana
previstas na lei, o que está a desencadear situações de ruptura.
A situação é de tal forma grave que hoje à noite os responsáveis da OM no
Norte vão reunir-se com especialistas na área e avaliar a situação,
elaborando uma lista dos hospitais nortenhos a evitar pelas grávidas,
devido à falta de condições dos respectivos serviços de obstetrícia. Para
além do Hospital de S. Marcos, em Braga, e do Centro Hospitalar do Alto
Minho, em Viana do Castelo (cada qual a funcionar apenas com dois
obstetras), a lista poderá incluir os hospitais de Barcelos, de Famalicão
e Amarante, segundo adiantou ontem o presidente do Conselho Regional da OM,
Miguel Leão.
Na zona do Minho, por exemplo, existem seis maternidades num espaço de
cerca de 20 quilómetros e, em Trás os Montes e Alto Douro, há urgências
obstétricas em Mirandela, Bragança, Macedo de Cavaleiros, Chaves e Vila
Real. Algumas com cerca de 500 partos por ano, quando as recomendações
internacionais aconselham o encerramento das maternidades com menos de
1500 partos anuais. Por isso, Nuno Montenegro, que integra o colégio da
especialidade de Obstetrícia e Ginecologia da OM no Norte, diz igualmente
que o caminho a seguir é o da concentração de recursos.
Em Lisboa, é também grande a carência de ginecologistas e obstetras. Um
levantamento técnico feito em Junho deste ano e coordenado por Luís Graça
apontava para o encerramento das urgências de obstetrícia dos hospitais de
Cascais, Vila Franca de Xira e Torres Vedras. Mais tarde explicaram-lhe,
porém, que "as soluções não podiam ser implementadas porque os presidentes
das Câmaras não aceitavam" que deixassem de nascer crianças nos seus
concelhos.
Na capital, também a escassez de pediatras se acentuou de tal forma, que
depois do último verão a Administração Regional de Saúde da região (ARS)
decidiu concentrar as urgências nocturnas no Hospital D. Estefânia. Uma
opção oposta àquela que o ministro da Saúde tem definido para o Norte do
país, mas que tem sido contestada pelos profissionais de outras unidades
incumbidos de fazer reforço do atendimento naquele hospital. É o caso dos
pediatras de Santa Maria que duas vezes por semana se deslocam à Estefânia,
uma unidade que não tem neurocirurgia, oftalmologia, otorrino ou aparelhos
de ressonância magnética para tratamento e diagnóstico de casos mais
graves, argumentam.
A carência de médicos e seu o envelhecimento em algumas especialidades é
há muito conhecida e um problema que cada vez mais se agudiza. O
presidente da Secção regional Sul da OM, Pedro Nunes, lembra que há anos
que a classe está consciente do problema e que, perante a falta de
recursos, ou se fazem novas contratações ou então é necessário concentrar
os profissionais.
O presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria diz que, em Portugal, a
maioria destes especialistas tem mais de 50 anos e que "existe apenas um
pediatra para cada 800 a 900 crianças e jovens até aos 18 anos". Ou seja,
metade da média europeia, que é de um pediatra para cada 400 a 500,
explica Libério Bonifácio Ribeiro. Apesar do número de vagas para a
especialidade ter aumentado, a carência não tem sido compensada pelas
saídas das faculdades. A decisão de aumentar as vagas foi tomada apenas em
1998 e um especialista demora no mínimo 12 a 13 anos a formar.
Ao nível dos obstetras a situação é igualmente grave: há uma década havia
mais especialistas nesta área, 1200, quando actualmente são cerca de 1100.
Além disso, o problema não se circunscreve aos médicos, porque desde há
cinco anos que as escolas de enfermagem deixaram de abrir cursos para
enfermeiras obstétricas. O saldo entre os clínicos que saem e os que
entram tem sido sistematicamente negativo.
Em 1998, pela primeira vez, o Ministério da Saúde fez um levantamento da
situação dos trabalhadores do sector. Calculava-se que em 2017 estariam
reformados por motivos de idade, cerca de 85 por cento dos actuais
clínicos gerais e 26 por cento dos médicos hospitalares. O estudo apontava
que a situação hospitalar se complicasse no próprio ano de 1998, com a
reforma em massa de mais de 500 profissionais, que não era compensada pela
saída das faculdades de novos clínicos, e se voltaria a agudizar em 2008,
altura em que sairiam das unidades hospitalares 116 médicos. Ao que o
PÚBLICO apurou o estudo nunca mais terá sido actualizado. Mas a falta de
recursos sente-se anualmente nos serviços hospitalares: só no ano passado,
em Santa Maria, reformaram-se 12 pediatras de um quadro de meia centena. |