"Os maus pais são os que acham que
a criança tem direito a tudo"
Bárbara Wong
Já está reformado, mas antes de ter deixado o
exercício da pediatra ainda observou os netos de uma
das suas primeiras doentes, orgulha-se. Sabe dizer
"não tenhas medo" em 48 línguas, tantas quantas as
nacionalidades de doentes que recebia no seu
consultório, em Paris. Escolheu ser pediatra porque
acreditava que não ia lidar com a morte. Enganou-se.
Agora dedica-se à escrita de livros. Em Educar os
Filhos: Uma Urgência nos Dias Que Correm, publicada
pela Livros d´Hoje, defende uma educação sem
relações democráticas, onde as crianças são postas
no seu lugar, que é o de obedecer sem questionar.
Eles não têm direitos, porque não são o centro do
mundo. Conservador? "Sim, mas no bom sentido da
palavra", admite.
Defende que os pais são muito permissivos e
que devem exercer mais a autoridade. Como é que
chegou a essa conclusão?
Quando os bebés vêm ao mundo, passam por um processo
muito violento que é o da expulsão do corpo da mãe.
Desde o primeiro dia que os pais procuram ajudá-los
a adaptar-se e quando o bebé chora, a resposta dos
pais é imediata na procura do seu conforto. Os pais
acorrem imediatamente e o bebé compreende-o. O que
defendo é que o bebé precisa de regras desde cedo,
porque se estas não lhe forem ensinadas, ele
permanecerá um bebé para o resto da vida.
Não é um cenário exagerado?
Não. A sociedade será constituída por indivíduos que
estão centrados sobre si próprios, para os quais as
regras e os outros não interessam. O problema da
educação é não é só de cada uma das famílias, mas
diz respeito directamente a toda a sociedade.
É por isso que defende que uma ordem, dada
pelos pais, não deve ser explicada, mas executada?
Os pais e os filhos não estão no mesmo nível
geracional, entre o pai e a criança a relação é
vertical. Ao educarmos a criança, queremos elevá-la,
fazê-la ascender ao nosso nível, ou seja, partimos
do bebé para fazermos um adulto. Quando damos uma
ordem e a explicamos, a relação vertical torna-se
horizontal porque permitimos à criança que possa
negociá-la. No entanto, ela precisa de saber que há
limites.
Mas se aplicarmos este princípio, não
estaremos a criar adultos sem pensamento crítico,
que executam ordens sem perceber, nem contestar?
Este é um conceito que deve ser aplicado em qualquer
idade: os pais dão a ordem e a criança executa.
Claro que a ordem pode ser explicada, mas só depois.
Dizer "não" a uma criança é como o parapeito de uma
ponte, em cima da qual ela se encontra. Se não
houver esse parapeito, a criança cai para o vazio e
nenhum pai quer que isso aconteça. O "não" é uma
protecção.
Os pais nunca pedem desculpa, nem mesmo quando
erram ou são injustos?
Nunca! Os pais nunca pedem desculpa. Devem falar com
firmeza e ternura. Nunca temos de nos justificar,
nem de dar argumentos à criança. Podemos explicar,
mas não justificar. O limite entre ambas é ténue,
por isso defendo que na maior parte das vezes nem se
explique.
O modo como os pais educam, por vezes, não é
em reacção à forma como foram educados? Ou seja,
eles tiveram pais rigorosos e autoritários, logo,
são mais democráticos?
Justamente, quando os pais se tornam pais, por
vezes, recordam que há algum ressentimento em
relação aos seus pais e não querem repetir, nem
querem que os seus filhos o sintam mais tarde. O que
digo a esses pais é que as crianças estão condenadas
a amá-los, porque foram eles que as educaram. É
inútil entrar no jogo da sedução, esse é que é
perigoso. Quando dizemos "não", estamos a impor
limites, estamos a dizer à criança: "O teu percurso
é por cima desta ponte e esta tem parapeitos para
que não caias à água." Se os pais disserem "não" com
tranquilidade, a criança não vai contestar.
Não haverá uma altura em que a criança quer
espreitar por cima do parapeito ou pôr-se em cima
dele?
A criança vai querer abanar a ponte, transgredir
para ver se a ponte é sólida. Essa transgressão vai
ajudá-la. As crianças são extremamente sensíveis aos
limites, porque têm medo. A autoridade não é nociva,
porque dá-lhes boas indicações sobre como é que
devem seguir o seu percurso.
Por isso defende que é preferível educar as
crianças de uma forma ditatorial a uma democrática?
Os pais são permissivos porque a ideia da democracia
e dos direitos está muito espalhada. Ao criar as
crianças de um modo ditatorial e autoritário, estas
vão aprender a reprimir. A partir desse momento,
compreendem que os outros também existem e, no
futuro, serão democratas. Mas, se os criarmos em
democracia, como se fossem iguais aos pais, vão
crescer centrados sobre si mesmos, vão crescer como
fascistas. O que é um fascista? É um indivíduo que
pensa que tem todos os direitos.
Os pais têm mais direitos do que os filhos?
Hoje os pais procuram o prazer da criança e devia
ser ao contrário. Os pais têm mais direitos, mas
também mais deveres. O direito de saber o que é que
lhes convém e às crianças e o dever de o impor à
criança.
Não é isso a ditadura?
Não! Não é ditadura, mas autoridade. Se os pais
continuarem a dar todos os direitos à criança,
começam a pedir-lhe autorização para sair à noite,
para fazer esta ou aquela compra. Em França, 53 por
cento das decisões sobre que produtos comprar são
decididas pelas crianças. Alerto para o risco de
estarmos a criar tiranos.
Que tipo de adultos estamos a criar?
A mensagem do marketing insiste na importância dos
filhos, o que paralisa os pais. A mensagem tem como
objectivo aumentar o consumo. E estamos a criar
crianças tiranas, autocentradas, perversas, que só
pensam nelas.
São crianças que não sabem reagir à
frustração? Que efeitos pode a actual crise
económica ter sobre elas?
A crise económica é já um resultado de uma educação
irresponsável.
Isso significa que as duas gerações anteriores
já foram educadas nesse paradigma de que a criança é
o centro do mundo?
Sim. As coisas começaram a mudar a partir do momento
em que entrámos numa sociedade de abundância. Antes
disso, dizíamos: "Não se pode ter tudo." A partir
dos anos de 1955/1960, passámos a dizer: "Temos
direito a tudo." A partir desse momento, começou a
crescer a importância do "eu, eu, eu".
Sempre pensou assim, ou, à medida que foi
envelhecendo, foi mudando?
As crianças vão ao meu consultório e não têm
problemas. Porquê? Porque trato rapidamente desta
dimensão da educação com os pais. Quando estes falam
com outros pais, recomendam-me: "Vai falar com
Naouri." E eles vêm. Preciso de duas ou três
consultas para resolver os problemas com eles.
Porquê? Porque dou este tipo de explicações.
Quais são as principais queixas dos pais?
Falta de disciplina, mau comportamento,
desobediência nas horas de comer, tomar banho ou de
dormir. Os pais pedem socorro, porque não conseguem
reprimir as pulsões das crianças. Seja uma criança
de um, três ou sete anos, procedo sempre do mesmo
modo. Falo com os pais, escuto o que se passa,
agradeço à criança por me ter vindo ver e ter
trazido os pais e digo-lhe ainda que me vou ocupar
dos pais. Em 80 por cento dos casos, as coisas ficam
em ordem.
Como é que os pais sabem que são bons pais?
Os bons pais são os que permitem à criança poder
desejar. Os excelentes não existem. Todos os pais
têm defeitos, os maus são os que acham que a criança
tem direito a tudo.
Qual é a sua opinião sobre as novas famílias,
as monoparentais, as homossexuais, as divorciadas
que voltam a casar... Podem ou não ser boas
educadoras?
Em nome do egoísmo pessoal tomamos decisões que são
prejudiciais para as crianças. As crianças filhas de
pais divorciados divorciam-se mais rapidamente. As
crianças de famílias monoparentais são crianças sós.
Quanto aos casais homossexuais, a criança é como que
um produto. Temos direito à felicidade, à saúde, a
tudo o que queremos e também a uma criança. Isso é
desumanizante.
Deviam existir escolas de pais, para estes
aprenderem a educar?
Pessoalmente acho que a escola de pais vai ainda
paralisá-los mais. Eles recebem demasiadas
mensagens, algumas contraditórias e que paralisam.
Defendo que os pais devem ser pais, que não tenham
medo de o ser e de ter confiança. Se assim agirem,
saberão o que fazer.
Disciplinas como Educação para a Cidadania ou
Educação Sexual são necessárias?
Tudo é necessário. A função da escola não é educar,
a educação deve ser dada nos três primeiros anos de
vida, pelos pais. A escola faz isso como paliativo,
mas não chega, porque a educação é um problema e
responsabilidade dos pais.
Porque é que os pais não são mais firmes?
Porque têm medo que os seus filhos os deixem de
amar?
As crianças olham para o mundo como os pais o
apresentam. A firmeza, quando é usada, vai passar a
ser uma dimensão natural do mundo. Por vezes, as
coisas não são perfeitas e é preciso gastar mais
energia e mais tempo, mas os pais devem manter-se
firmes, sem nunca esquecerem a ternura.
No seu livro afirma que as crianças não têm
direitos. Porquê?
Explico no livro que quando a França tencionava
assinar a Convenção Internacional dos Direitos da
Criança, os especialistas reunidos pelo Governo,
entre os quais eu me encontrava, recusaram a sua
assinatura porque é um documento que não se adequa
ao contexto europeu, porque são só direitos, sem
enunciar qualquer dever, o que leva ao laxismo. No
entanto, o Governo já a havia assinado.
Mas há crianças europeias que vivem na
miséria, são vítimas de abusos e de maus tratos. Não
precisam de ter direitos?
São poucas as que vivem essas situações. É
importante sublinhar que o direito mais importante a
que a criança tem direito é à educação. É curioso
verificar que "educar" e "seduzir" são construídas a
partir da mesma palavra do latim "ducere", que quer
dizer, "puxar para si", "conduzir", o que deu "ducare",
"educar". Mas "ducere" parte do radical "dux" que
quer dizer "chefe". A ideia de chefe ou do exemplo
que dele se destaca. Ora "seducere", é exactamente o
contrário, é colocar de parte o exemplo do chefe.
Educar implica impor à criança um constrangimento ou
uma privação que faça sentido em si. E que não é
para ter efeito imediato, mas a longo prazo.
Em consultório, já houve pais que discordaram
consigo e deixaram de o consultar?
Há pais que ficam chocados com o que digo. Não posso
fazer nada. Pelo meu consultório passaram pessoas de
48 línguas diferentes. Quando vejo alguém pela
primeira vez cuja língua materna não é o francês,
pergunto como é que na sua língua se diz "não tenhas
medo" e transcrevo foneticamente. Sei em chinês,
grego... E quando pego na criança digo-lhe "não
tenhas medo". À criança digo pouca coisa, trato-a
com ternura e ela sente-a. Mas falo sobretudo com os
pais. O que é surpreendente é a rapidez com que os
pais recuperam as suas capacidades de educadores.
Falo com eles e é como se se encontrassem e se
sentissem autorizados.
Já foi acusado de ser de extrema-direita?
Sim, por uma imprensa que recusa totalmente a
possibilidade de educar. Digo que são pessoas que
não sabem nada de educação, que me acusam de fazer
muito barulho e de querer impor um modelo e de dar
uma ideia de catástrofe. Mas é preciso chamar a
atenção para os perigos de uma educação permissiva.
Contudo, a maior parte das reacções, as centenas de
cartas e de e-mails que recebo são de pais que me
agradecem.
E os investigadores e outros autores estão de
acordo com as suas ideias?
A maior parte está de acordo. Os psicanalistas que
conheço, excepto, dois ou três, dizem que o meu
trabalho é excelente e necessário.
Os pediatras devem ser mais do que médicos que
fazem diagnósticos?
Antigamente, os pais pediam aos pediatras: Faça tudo
para que o nosso filho não morra e que tenha uma boa
saúde. Agora, pedem-nos para colaborar com eles na
educação. Mas os pediatras não sabem responder e é
uma pena.
Não sabem responder porque falta formação
nessa área?
Sim, há 60 anos que a pediatra continua a ser
ensinada da mesma maneira. Os estudos deviam
preparar os pediatras para saber responder a todas
as dúvidas educacionais dos pais. Um dos problemas
da pediatria é que as palavras "pai" e "mãe" não
existem e os médicos só conhecem as palavras "bebé"
e "criança".
Os pediatras deveriam ter mais conhecimentos
de psicologia e pedagogia?
Absolutamente. Os pediatras deviam perceber que os
pais quando têm problemas com o comportamento dos
filhos não querem ir falar com um psicólogo, mas com
o médico que acompanha os seus filhos. É preciso
mudar. Eu estudei psicanálise, mas também
antropologia, sociologia, linguística. Fui-me
formando e os meus colegas pedem-me para falar com
eles sobre estes temas porque percebem que têm essa
dificuldade.