Desenvolvimento insustentável João César das Neves
Os supostos avanços recentes vão falhar, pela falta
de ligação a valores de sempre e pela futura
decadência demográfica.
O conceito de desenvolvimento sustentado é uma das
bases intelectuais da actual intervenção social.
Nascido nos meios ecológicos, partiu da certeza de
que um dos fundamentos da protecção ao ambiente vem
da inclusão dos interesses das gerações futuras nas
nossas decisões. Depois integraram-se outras
dimensões, passando a falar-se de sustentabilidade
humana, económica, energética, alimentar, cultural,
ética e, na crise actual, até financeira.
Todas estas considerações, interessante e decisivas,
centram-se apenas num dos dois lados do processo
dinâmico. O tempo não tem só futuro. Também tem
passado. Um desenvolvimento será sólido e
equilibrado se tiver em conta não apenas as próximas
gerações mas também as anteriores. A natureza
ensina-nos que a sustentabilidade de uma árvore está
nas suas raízes e que um rio só mantém uma torrente
sustentável na sua ligação à nascente. Infelizmente,
na ânsia do progresso, este é precisamente o aspecto
mais esquecido, mesmo pelos fervorosos defensores da
sustentabilidade. A história está cheia de exemplos
de desastres daqui resultantes.
No extremo temos os casos em que toda uma sociedade
pretendeu nascer de novo, repudiando globalmente o
seu passado. O sonho maravilhoso do renascimento de
um povo foi recorrente nos últimos séculos, com o
compreensível fascínio de uma purificação radical,
eliminando velhos males e abrindo uma página em
branco. Mas, ao cortar os laços com gerações
anteriores e a própria herança e identidade, esses
movimentos não se sustentaram, criando os piores
desastres sociais de sempre. As revoluções francesa
de 1789, portuguesa de 1910, russa de 1917 e
cambojana de 1975 são exemplos paradigmáticos. Pelo
contrário, as revoluções bem sucedidas, como a
britânica de 1688, americana de 1776 e portuguesa de
1974, atenderam à sustentabilidade do passado.
Corrigindo aspectos importantes, essas
transformações respeitaram e mantiveram o essencial
da raiz cultural do povo, desimpedindo a sua ligação
à nascente.
Alguns avanços particulares falharam também por
esqueceram velhos ensinamentos que os antepassados
tinham guardado durante séculos. Fiascos como o
absolutismo regalista, moralismo romântico,
surrealismo, Maio 68 e geração hippie mostram a
relevância de um desenvolvimento ser historicamente
sustentável.
Atitudes recentes no campo da família e do casamento
têm o mesmo problema na dinâmica social. No fragor
dos debates fracturantes, muitas forças políticas,
incluindo o Governo, têm ignorado a sustentabilidade
do desenvolvimento, muito mais que uma empresa
poluidora. Fascinados com um aspecto pontual - seja
no divórcio, aborto, procriação artificial,
deseducação sexual, eutanásia ou homossexualidade -
esquecem o equilíbrio social. Os supostos avanços
recentes vão falhar, quer pela falta de ligação a
valores de sempre quer pela futura decadência
demográfica. Pretende-se uma sociedade progressiva à
luz de certos modelos ideológicos, mas abandonando o
fundamento ético e a viabilidade populacional. Assim
as alegadas medidas modernas estão objectivamente a
promover um deserto social, mais ainda que os
investimentos ambientalmente insustentáveis.
Incompreensível é a terrível arrogância cultural de
quem acha poder mudar num momento princípios
plurisseculares. A arrogância de Marat, Hitler, Mao.
Os avanços técnicos dos últimos 200 anos deram ao
ser humano enorme poder sobre a natureza, eliminando
velhos flagelos que o assolavam desde as cavernas,
do fumo das lareiras à tuberculose, passando pela
escravatura, ignorância e isolamento. Mas,
embriagado pelas notáveis capacidades, o homem
ameaça o equilíbrio da natureza física e humana.
Consciente de poder comprometer o futuro, a
humanidade assumiu preocupações de sustentabilidade.
Mas os perigos globais vêm de muitos lados, não
apenas dos aspectos agora consensuais. Aliás os
piores riscos estão não no clima ou ambiente que
todos reconhecem mas nos temas que o nosso tempo
descura ou discute. Quem esquece a História
condena-se a repeti-la.