Mais um dia em que quase nada foi normal José Manuel Fernandes
Estranho país este que sobrevive a tudo e tolera
tudo apesar de todos os dias nos depararmos com
situações de absoluta anormalidade
Não é normal que passe na televisão do Estado um
anúncio a uma rádio do Estado em que se dá a
entender que as manifestações são "contra quem quer
chegar a horas". Que a locução seja feita pela
directora adjunta da Antena 1, Eduarda Maio, autora
do livro Sócrates: O Menino de Ouro. Que o ministro
Augusto Santos Silva considere que isso é um assunto
editorial. Que o anúncio tenha estado vários dias no
ar sem ninguém se incomodar (ou ver?) e que só se
tenha tornado tema controverso quando o PÚBLICO
pediu a dirigentes sindicais para se pronunciarem
sobre o seu conteúdo.
Como também não é normal que o PSD reaja
considerando que "a tutela da Antena 1, rádio paga
pelos contribuintes, (...) deve tomar uma atitude
digna, e só há uma: demitir os responsáveis que
puseram o anúncio", pois a tutela é o Governo e não
deve caber ao Governo nomear ou demitir responsáveis
editoriais. Por isso não é normal o silêncio dos
directores editoriais da RDP.
A única coisa que se salva no meio de tudo foi o
parecer dos provedores do telespectador, Paquete de
Oliveira, e do ouvinte, Adelino Gomes, que
recomendaram que o spot fosse imediatamente
retirado, utilizando uma argumentação seca e sólida.
Não é normal que o Governo tenha imposto aos
proprietários envolvidos na identificação e abate
dos pinheiros afectados pela doença do nemátodo o
dever de segredo sobre a dimensão do problema, como
o PÚBLICO noticiou ontem. Não há nenhuma "questão
sanitária" que justifique esse segredo, da mesma
forma que não houve quando, por exemplo, se
detectavam "vacas loucas" ou aviários contaminados.
Ou há uma explicação racional - o que parece
difícil, pois não há aqui segredos comerciais ou
segredos de Estado - estamos perante a aplicação
discricionária de uma nova "lei da rolha".
Não é normal, é mesmo uma vergonha, o tempo que está
a demorar a nomeação de um novo provedor de Justiça.
Não é normal que os nomes dos putativos candidatos
saltem para a praça pública. Ou que não se
esclareçam os critérios que devem presidir à escolha
dessa figura, em especial se é ou não conveniente
que numa democracia se evite uma excessiva
concentração de cargos públicos nas mãos de figuras
próximas do partido no poder. Ou que ninguém fale -
nem o PSD, pelo que se percebeu da argumentação de
Ferreira Leite - da importância de existirem
sistemas estáveis de pesos e contrapesos e não
apenas trocas de nomes, ou rotatividades, entre os
dois maiores partidos.
Não é normal defender, como ontem defendeu o
primeiro-ministro José Sócrates, que os bancos
europeus sejam proibidos de trabalhar com paraísos
fiscais, mesmo que essa decisão não seja tomada a
nível mundial durante a próxima reunião do G20. Uma
coisa é defender uma maior transparência e regulação
nos mercados financeiros - algo de que Portugal nem
se deve orgulhar muito face ao que se tem vindo a
saber sobre os casos BPN e BPP, para não falar do
que antes se passou no BCP e do que ainda não se
sabe sobre a forma como a CGD tem actuado... -,
outra bem diferente é defender o suicídio do sistema
financeiro europeu que, forçado a actuar em
condições mais desfavoráveis que os outros sistemas
bancários, só poderia definhar, agravando ainda mais
a crise.
Não é normal que, depois ter impedido a entrada em
Angola de qualquer jornalista do PÚBLICO, do
Expresso e da SIC aquando das recentes eleições
legislativas, as autoridades de Luanda tenham
voltado a fazê-lo agora quando estes três órgãos de
informação solicitaram vistos para acompanharem a
visita do Papa Bento XVI. Tal como não é normal que
então e agora não se tenha ouvido uma voz, um
tremor, nem sequer um tímido zumbido de protesto por
parte das autoridades portuguesas.
Não é normal, mas é assim quase sempre, quase todos
os dias. Por isso o que é mesmo anormal é
sobrevivermos como nação independente há quase nove
séculos. Isso, sim, é um feito. Até porque foi
previsto pelos romanos, que terão dito que por aqui
vivia um povo que não se governava nem se deixava
governar. Será que já então se desgovernava em
silêncio?