A efeméride dos quatro anos do desgoverno da
educação tinha que ficar marcada com propaganda a
condizer. O habitual. Vem tudo na publicação A a Z
da Educação. 2005-2009, que se assume como uma
súmula de actividades. Vale a pena reduzi-la ao
panfleto de que não passa, desmontando os emblemas
vazios que promove.
Na abertura, com chancela de ministra, a dita não
surpreende e dá rápido o tom da ligeireza. Reduzir
as desigualdades no acesso à formação e ao
conhecimento? Era bom, mas não foi. Quando diminuiu
a exigência do ensino ministrado na escola pública
para níveis indigentes, mais não fez que acentuar as
desigualdades. Os que só contam com a escola pública
como fonte de saber estão hoje mais frágeis e
empobrecidos. Os outros pagam no privado o que o
Estado diz que dá mas não dá. Nestes quatro anos, a
despesa com a Educação reduziu-se para metade e a
distância que nos separava da Europa aumentou para o
dobro. As proclamações falsas não derrogam estes
factos.
Invocar, como a ministra evoca, que "a extensão da
escolaridade obrigatória até aos 18 anos e a
generalização do pré-escolar gratuito para todas as
crianças de cinco anos marcarão, de forma
estruturante, o esforço desta legislatura pela
melhoria da qualificação dos portugueses e pela
elevação da equidade educativa" é um misto de
escrita pobre com demagogia rica. Escrita pobre
porque o "esforço" desta legislatura jamais será
"marcado" pelo que se venha a fazer na próxima,
muito menos de "forma estruturante". Está feito, é
passado. Poderia ser, isso sim, o contrário: a
próxima ser marcada pelo que se fez nesta (e será,
para mal dos nossos pecados e de muitas gerações
vindouras). Para ministra, tanto mais da Educação,
exige-se mais, exige-se um mínimo de rigor.
Demagogia rica porque se não conseguimos manter no
sistema todos até aos 16 anos, se não conseguimos
cumprir a escolaridade obrigatória de nove anos,
para que serve subir a fasquia senão para aumentar o
desastre? Demagogia rica, ainda, porque, mesmo que a
próxima legislatura se empenhe na realização do que
se apregoa, o que não é líquido porque sempre há
eleições pelo meio, convém recordá-lo, sabe qualquer
que não existem estruturas físicas que permitam
acolher todas as crianças no pré-escolar. Um quarto
das que ora demandaram esse nível de ensino não
encontraram lugar na rede pública, não sendo
obrigatório o acesso. Como acreditar que, aumentando
drasticamente o universo, caberia o todo onde agora
não cabem as três partes mais pequenas? É preciso
topete!
Pode este Governo afirmar, como afirma, que foi seu
imperativo colocar a escola "ao serviço dos alunos e
das suas famílias", "criando melhores condições de
trabalho a professores e alunos"? Não, não pode.
Transformar a escola numa enorme caserna, onde se
guardam criminosamente crianças durante 12 horas em
cada dia é objectivo de vesgos, mas não é objectivo
de quem saiba o que é uma criança e o que deveria
ser uma família. O que este Governo fez foi promover
um conceito estalinista de educação, encarando os
pais como meros operários a quem se retira o
convívio e a responsabilidade pelos seres que geram.
Alimentar uma solução em que os pais não têm tempo
para estar com os filhos não põe coisa alguma ao
serviço dos alunos e das suas famílias. Põe tudo ao
serviço da destruição das pessoas e de um modelo
económico absurdo e insuportavelmente redutor. Que
ousadia a desta gente quando apregoa que melhorou as
condições de trabalho dos professores! Que sentirão
os professores quando lerem este A a Z? A actuação
política deste Governo e desta ministra produziu
diplomas que liquidaram aquisições mínimas de
qualquer sistema de ensino decente e esmagaram
despoticamente os professores. Reduziram salários,
burocratizaram ridiculamente e escravizaram com
trabalho inútil. Como ousam falar de melhoria de
condições de trabalho? Em nome da qualidade e da
modernidade substituíram bibliotecas, oficinas,
ginásios, refeitórios e laboratórios, por quadros
interactivos e Magalhães a pataco. Atrofiaram
cérebros e tudo fizeram para normalizar
personalidades, com a mesma ligeireza com que impõem
o pão sem sal ou proscrevem a colher de pau. Do seu
A a Z sobrará o D, de desolação. Ciclópica a tarefa
de um dia limpar tanto lixo. Professor do ensino
superior