Correio da Manhã - 9 Mar 07

 

Mãe dá fígado a filho bebé
Dou a minha vida pelo David
João Saramago / Cristina Serra

Ana Antunes, de 23 anos, aguarda com ansiedade para, pela segunda vez, dar vida ao filho, David Tiago de oito meses. No próximo dia 16 dá entrada nos Hospitais da Universidade de Coimbra para doar parte do seu fígado ao bebé, que sofre de uma cirrose e que há meses espera por dador.

“Quando a médica me falou no transplante, nem hesitei. Desde o primeiro momento que disse que sim, faço tudo pela vida do David”, disse Ana Antunes, operária fabril, residente em Alqueidão, no concelho de Ferreira do Zêzere. A taxa de sobrevivência de pacientes sujeitos a transplante com dador vivo é superior a 90 por cento.

A equipa médica do Centro de Responsabilidade de Transplantação Hepática de Coimbra informou Ana Antunes e o marido, Nuno Miguel, dos riscos destes transplantes, mas também das crianças sobreviventes. “As informações recebidas deram-me mais tranquilidade e mais força”, acrescentou Ana Antunes, que mantém “uma confiança inabalável de que tudo vai correr bem”. “Também sei que tanto eu como o menino podemos morrer, mas esta é a solução possível.”

Nada assusta esta ‘mãe coragem’: “Disseram-me que a operação é muito demorada e que terei alta duas semanas depois do transplante”, disse. Mais difícil será a fase seguinte, em que terá de ficar separada do filho para permanecer em repouso absoluto, em casa, durante dois meses. “Nesse período, o menino terá de ficar no hospital com o pai”, acrescentou.

UNIDOS PELO SANGUE

A possibilidade de Ana Antunes ser a dadora de fígado do seu bebé resulta de os grupos sanguíneos coincidirem. “Entre 31 de Janeiro e 27 de Fevereiro, depois de fazer os exames e as análises, soube que o meu grupo de sangue é ORH+ e o do meu filho é de ORH-. Assim, é possível concretizar o transplante. Esta boa notícia ainda me deu mais força”, declarou. Em Coimbra há uma lista de espera de mais oito crianças. Todas são do grupo O.

Ana Antunes recordou que o seu único filho “ficou doente um mês e seis dias depois de nascer”. “Estava muito amarelo e inchado, a médica disse-me que estava com hepatite”, adiantou. “Até Fevereiro último, ele foi internado mais três vezes. Fui então informada de que o David sofria de uma cirrose e de que o transplante era a única solução”, acrescentou.

Ana Antunes confessa que, neste momento, nem quer pensar nisso, mas que a preocupa saber como é que, depois da operação, irá pagar os medicamentos para o David. “Os médicos disseram-me que são dez medicamentos com um custo de 500 euros. Como é que vai ser possível eu e o meu marido pagarmos, se os dois ganhamos 800 euros?”, pergunta. “Penso que é injusto os medicamentos para os bebés que recebem um rim ou coração não serem pagos e os meninos com transplantes de fígado não terem essa ajuda”, considerou.

O transplante de fígado em crianças não constitui uma situação rara no País, uma vez que se realiza uma média de dez por ano (120 casos desde 1994). O fígado é um órgão que se regenera rapidamente, mas, segundo um especialista que preferiu manter o anónimato, o transplante de fígado em vivo só deve – e assim o é – ser feito em último recurso, esgotadas as hipóteses de conseguir um órgão de cadáver.

COMO VAI SER A OPERAÇÃO

O transplante hepático realizado em crianças, em Portugal, não é um tipo de cirurgia inédito, uma vez que se realiza uma média de dez por ano. Até hoje foram feitas cerca de 120 intervenções deste tipo. O transplante de fígado começou a ser feito, no nosso país, em 1994.

1 - RETIRAR O FÍGADO

Na totalidade, se o dador está em morte cerebral, ou parcialmente, se o dador estiver vivo

2 - A OPERAÇÃO

É seccionado 60 por cento do fígado, fazem-se as ligações entre os vasos e o canal biliar do doente e os do novo fígado. Os vasos de entrada são a veia porta e a artéria hepática. Os vasos de saída são as veias supra-hepáticas. O canal biliar é o colédoco ou o hepático comum

3 - TEMPO É CRUCIAL

Quando é retirado o órgão ao dador, o receptor já está aberto e com o campo cirúrgico pronto para receber o órgão. Para evitar que o tempo de isquémia (órgão fora do organismo) seja demasiado longo. Quanto mais rapidamente ocorrer o transplante melhor a recuperação e a viabilidade do órgão

LOCAL: Hospital Pediátrico de Coimbra

DURAÇÃO DA CIRURGIA: 3 a 20 horas

TEMPO DE RECUPERAÇÃO: Depende do estado de saúde do doente

SÓ POSSÍVEL EM COIMBRA

O transplante hepático com dador vivo é de grande complexidade técnica e científica, sendo só realizado em Coimbra. Até hoje foram concretizados 18 transplantes.

EMANUEL FURTADO VAI OPERAR

O transplante de uma parte do fígado de Ana Antunes para o filho será da responsabilidade do cirurgião Emanuel Furtado. “É o único em Portugal que efectua a separação de parte do fígado do dador vivo e posteriormente realiza o transplante”, disse ao CM Vítor Martins, da comissão instaladora da Hepaturix/Associação Nacional das Crianças e Jovens Transplantados ou com Doenças Hepáticas).

Emanuel Furtado é filho de Linhares Furtado, conhecido como o ‘pai’ do transplante de fígado, em Portugal. No final de 2006, Emanuel Furtado suspendeu a actividade após a morte de duas crianças no bloco operatório de transplantes hepáticos.

CIENTISTAS CRIAM FÍGADO HUMANO

Cientistas britânicos criaram o primeiro fígado humano em todo o Mundo, a partir de células estaminais. Este avanço científico vai permitir, dentro de 15 anos, o fornecimento de órgãos para transplante. O anúncio, em Novembro de 2006, deixou especialistas portugueses entusiasmados pela importância que revela: esta pode ser a solução para os milhares de doentes que esperam anos por um órgão.

Em Portugal estima-se que existam 15 mil doentes de cirrose, um mal que se revela fatal para cinco mil a seis mil doentes hepáticos por ano. Nico Forraz e Colin McGuckin, investigadores da Universidade de Newcastle, Inglaterra, criaram um ‘minifígado’, um tecido com o tamanho de uma moeda de 20 cêntimos, com um peso aproximado de 20 gramas. O tecido foi conseguido através de células estaminais retiradas do sangue do cordão umbilical de recém-nascidos. Estas células têm a capacidade de se desenvolverem em diferentes órgãos.

Os investigadores esperam criar pedaços maiores de tecido e criar “secções que possam ser transplantadas”.

O TRANSPLANTE SALVOU-LHE A VIDA

António Almeida, de 62 anos, recebeu um fígado há 13. “A pessoa ou é transplantada ou morre.” Ouviu dos médicos de Lisboa que o seu caso não era possível tratar. Durante três anos fez exames clínicos e o problema não era diagnosticado. Entretanto, ia definhando. “Tenho um metro e oitenta e cheguei a pesar 45 quilos. Já não saía da cama”, disse ao CM.

O problema de António Almeida acabou por ser diagnosticado, uma doença genética, de nome antitripsina, que lhe afectou os pulmões e mais tarde o fígado. “Entrei em grande debilidade física, a barriga muito dilatada”, recorda. Entrou em lista de espera nos Hospitais da Universidade de Coimbra. Esperou ano e meio e, durante esse tempo, foi chamado pelos serviços de saúde “sete vezes”, mas outros doentes acabavam por receber o órgão disponível. Em 1996, chegou a sua vez e o transplante realizou-se. Toma imunossupressores e, de então para cá, tem-se sentido bem.

NÚMEROS DE TRANSPLANTES

5 mil a 6 mil morrem todos os anos no nosso País vítimas de cirrose hepática. O número de doentes é três vezes maior.

185 transplantes de fígado realizaram-se nos hospitais portugueses em 2005. Menos 20 do que em 2004.

3 hospitais portugueses realizam transplante de fígado: Curry Cabral (Lisboa), Universidade de Coimbra (HUC) e ainda o Santo António (Porto).

83 transplantes de fígado realizados em 2005 no Hospital Curry Cabral, seguido do Santo António (63) e Hospitais da Universidade de Coimbra (30).

1425 transplantes feitos em 2005 a vários órgãos. A maioria de córnea (498), rim (380), medula (305) e fígado (185).

1543 transplantes realizados em 2004. A maioria de córnea (556), rim (436), medula (279) e fígado (205).

NOTAS

FUNÇÕES

O fígado é um órgão essencial que desempenha várias funções: mantém a glicémia normal, produz os factores de coagulação (um problema aqui pode desencadear hemorragias graves) e está encarregue de produzir a bílis (fluido que actua na digestão) e é imunológico (actua no sistema imunitário).

PORCO

Algumas experiências de transplante de fígado de porco foram feitas, uma vez que o órgão deste animal é semelhante ao do homem. Contudo, as tentativas foram abandonadas devido aos priões e vírus que o animal tem e que acabam por ser transferidos para o paciente.

CAUSAS

As causas para o aparecimento da doença do fígado são várias e à cabeça da lista estão os vírus das hepatites B e C. Seguem-se o álcool, determinados medicamentos (como os anti-hipertensores, paracetamol, entre outros), doenças metabólicas e ainda as auto-imunes.