Mãe dá fígado a filho bebé Dou a minha vida pelo David João Saramago / Cristina Serra
Ana Antunes, de 23 anos, aguarda com ansiedade para,
pela segunda vez, dar vida ao filho, David Tiago de
oito meses. No próximo dia 16 dá entrada nos
Hospitais da Universidade de Coimbra para doar parte
do seu fígado ao bebé, que sofre de uma cirrose e
que há meses espera por dador.
“Quando a médica me falou no transplante, nem
hesitei. Desde o primeiro momento que disse que sim,
faço tudo pela vida do David”, disse Ana Antunes,
operária fabril, residente em Alqueidão, no concelho
de Ferreira do Zêzere. A taxa de sobrevivência de
pacientes sujeitos a transplante com dador vivo é
superior a 90 por cento.
A equipa médica do Centro de Responsabilidade de
Transplantação Hepática de Coimbra informou Ana
Antunes e o marido, Nuno Miguel, dos riscos destes
transplantes, mas também das crianças sobreviventes.
“As informações recebidas deram-me mais
tranquilidade e mais força”, acrescentou Ana
Antunes, que mantém “uma confiança inabalável de que
tudo vai correr bem”. “Também sei que tanto eu como
o menino podemos morrer, mas esta é a solução
possível.”
Nada assusta esta ‘mãe coragem’: “Disseram-me que a
operação é muito demorada e que terei alta duas
semanas depois do transplante”, disse. Mais difícil
será a fase seguinte, em que terá de ficar separada
do filho para permanecer em repouso absoluto, em
casa, durante dois meses. “Nesse período, o menino
terá de ficar no hospital com o pai”, acrescentou.
UNIDOS PELO SANGUE
A possibilidade de Ana Antunes ser a dadora de
fígado do seu bebé resulta de os grupos sanguíneos
coincidirem. “Entre 31 de Janeiro e 27 de Fevereiro,
depois de fazer os exames e as análises, soube que o
meu grupo de sangue é ORH+ e o do meu filho é de ORH-.
Assim, é possível concretizar o transplante. Esta
boa notícia ainda me deu mais força”, declarou. Em
Coimbra há uma lista de espera de mais oito
crianças. Todas são do grupo O.
Ana Antunes recordou que o seu único filho “ficou
doente um mês e seis dias depois de nascer”. “Estava
muito amarelo e inchado, a médica disse-me que
estava com hepatite”, adiantou. “Até Fevereiro
último, ele foi internado mais três vezes. Fui então
informada de que o David sofria de uma cirrose e de
que o transplante era a única solução”, acrescentou.
Ana Antunes confessa que, neste momento, nem quer
pensar nisso, mas que a preocupa saber como é que,
depois da operação, irá pagar os medicamentos para o
David. “Os médicos disseram-me que são dez
medicamentos com um custo de 500 euros. Como é que
vai ser possível eu e o meu marido pagarmos, se os
dois ganhamos 800 euros?”, pergunta. “Penso que é
injusto os medicamentos para os bebés que recebem um
rim ou coração não serem pagos e os meninos com
transplantes de fígado não terem essa ajuda”,
considerou.
O transplante de fígado em crianças não constitui
uma situação rara no País, uma vez que se realiza
uma média de dez por ano (120 casos desde 1994). O
fígado é um órgão que se regenera rapidamente, mas,
segundo um especialista que preferiu manter o
anónimato, o transplante de fígado em vivo só deve –
e assim o é – ser feito em último recurso, esgotadas
as hipóteses de conseguir um órgão de cadáver.
COMO VAI SER A OPERAÇÃO
O transplante hepático realizado em crianças, em
Portugal, não é um tipo de cirurgia inédito, uma vez
que se realiza uma média de dez por ano. Até hoje
foram feitas cerca de 120 intervenções deste tipo. O
transplante de fígado começou a ser feito, no nosso
país, em 1994.
1 - RETIRAR O FÍGADO
Na totalidade, se o dador está em morte cerebral, ou
parcialmente, se o dador estiver vivo
2 - A OPERAÇÃO
É seccionado 60 por cento do fígado, fazem-se as
ligações entre os vasos e o canal biliar do doente e
os do novo fígado. Os vasos de entrada são a veia
porta e a artéria hepática. Os vasos de saída são as
veias supra-hepáticas. O canal biliar é o colédoco
ou o hepático comum
3 - TEMPO É CRUCIAL
Quando é retirado o órgão ao dador, o receptor já
está aberto e com o campo cirúrgico pronto para
receber o órgão. Para evitar que o tempo de isquémia
(órgão fora do organismo) seja demasiado longo.
Quanto mais rapidamente ocorrer o transplante melhor
a recuperação e a viabilidade do órgão
LOCAL: Hospital Pediátrico de Coimbra
DURAÇÃO DA CIRURGIA: 3 a 20 horas
TEMPO DE RECUPERAÇÃO: Depende do estado de
saúde do doente
SÓ POSSÍVEL EM COIMBRA
O transplante hepático com dador vivo é de grande
complexidade técnica e científica, sendo só
realizado em Coimbra. Até hoje foram concretizados
18 transplantes.
EMANUEL FURTADO VAI OPERAR
O transplante de uma parte do fígado de Ana Antunes
para o filho será da responsabilidade do cirurgião
Emanuel Furtado. “É o único em Portugal que efectua
a separação de parte do fígado do dador vivo e
posteriormente realiza o transplante”, disse ao CM
Vítor Martins, da comissão instaladora da Hepaturix/Associação
Nacional das Crianças e Jovens Transplantados ou com
Doenças Hepáticas).
Emanuel Furtado é filho de Linhares Furtado,
conhecido como o ‘pai’ do transplante de fígado, em
Portugal. No final de 2006, Emanuel Furtado
suspendeu a actividade após a morte de duas crianças
no bloco operatório de transplantes hepáticos.
CIENTISTAS CRIAM FÍGADO HUMANO
Cientistas britânicos criaram o primeiro fígado
humano em todo o Mundo, a partir de células
estaminais. Este avanço científico vai permitir,
dentro de 15 anos, o fornecimento de órgãos para
transplante. O anúncio, em Novembro de 2006, deixou
especialistas portugueses entusiasmados pela
importância que revela: esta pode ser a solução para
os milhares de doentes que esperam anos por um
órgão.
Em Portugal estima-se que existam 15 mil doentes de
cirrose, um mal que se revela fatal para cinco mil a
seis mil doentes hepáticos por ano. Nico Forraz e
Colin McGuckin, investigadores da Universidade de
Newcastle, Inglaterra, criaram um ‘minifígado’, um
tecido com o tamanho de uma moeda de 20 cêntimos,
com um peso aproximado de 20 gramas. O tecido foi
conseguido através de células estaminais retiradas
do sangue do cordão umbilical de recém-nascidos.
Estas células têm a capacidade de se desenvolverem
em diferentes órgãos.
Os investigadores esperam criar pedaços maiores de
tecido e criar “secções que possam ser
transplantadas”.
O TRANSPLANTE SALVOU-LHE A VIDA
António Almeida, de 62 anos, recebeu um fígado há
13. “A pessoa ou é transplantada ou morre.” Ouviu
dos médicos de Lisboa que o seu caso não era
possível tratar. Durante três anos fez exames
clínicos e o problema não era diagnosticado.
Entretanto, ia definhando. “Tenho um metro e oitenta
e cheguei a pesar 45 quilos. Já não saía da cama”,
disse ao CM.
O problema de António Almeida acabou por ser
diagnosticado, uma doença genética, de nome
antitripsina, que lhe afectou os pulmões e mais
tarde o fígado. “Entrei em grande debilidade física,
a barriga muito dilatada”, recorda. Entrou em lista
de espera nos Hospitais da Universidade de Coimbra.
Esperou ano e meio e, durante esse tempo, foi
chamado pelos serviços de saúde “sete vezes”, mas
outros doentes acabavam por receber o órgão
disponível. Em 1996, chegou a sua vez e o
transplante realizou-se. Toma imunossupressores e,
de então para cá, tem-se sentido bem.
NÚMEROS DE TRANSPLANTES
5 mil a 6 mil morrem todos os anos no nosso País
vítimas de cirrose hepática. O número de doentes é
três vezes maior.
185 transplantes de fígado realizaram-se nos
hospitais portugueses em 2005. Menos 20 do que em
2004.
3 hospitais portugueses realizam transplante de
fígado: Curry Cabral (Lisboa), Universidade de
Coimbra (HUC) e ainda o Santo António (Porto).
83 transplantes de fígado realizados em 2005 no
Hospital Curry Cabral, seguido do Santo António (63)
e Hospitais da Universidade de Coimbra (30).
1425 transplantes feitos em 2005 a vários órgãos. A
maioria de córnea (498), rim (380), medula (305) e
fígado (185).
1543 transplantes realizados em 2004. A maioria de
córnea (556), rim (436), medula (279) e fígado
(205).
NOTAS
FUNÇÕES
O fígado é um órgão essencial que desempenha várias
funções: mantém a glicémia normal, produz os
factores de coagulação (um problema aqui pode
desencadear hemorragias graves) e está encarregue de
produzir a bílis (fluido que actua na digestão) e é
imunológico (actua no sistema imunitário).
PORCO
Algumas experiências de transplante de fígado de
porco foram feitas, uma vez que o órgão deste animal
é semelhante ao do homem. Contudo, as tentativas
foram abandonadas devido aos priões e vírus que o
animal tem e que acabam por ser transferidos para o
paciente.
CAUSAS
As causas para o aparecimento da doença do fígado
são várias e à cabeça da lista estão os vírus das
hepatites B e C. Seguem-se o álcool, determinados
medicamentos (como os anti-hipertensores,
paracetamol, entre outros), doenças metabólicas e
ainda as auto-imunes.