Diário de Noticias - 10 Mar 04

Aborto pode duplicar risco de cancro
ELSA COSTA E SILVA

Uma interrupção voluntária da gravidez (IVG) acarreta riscos para a saúde da mulher. Para além dos que são inerentes a uma intervenção terapêutica que pode recorrer à cirurgia, o perigo do cancro pode aumentar. Esse é o o tema de um colóquio que hoje tem lugar na Sala Amarela da Assembleia da República (AR) e que conta com a participação dos oradores Charles e Babette Francis.

Esta conferência é promovida por duas associações - Mulheres em Acção e Sabor da Vida - que têm defendido posições contrárias à despenalização do aborto. Alexandra Tetê, membro das Mulheres em Acção, assinala que esta iniciativa tem por base a filosofia do consentimento informado, de acordo com a qual a mulher que faz uma IVG afirma ter tomado conhecimento dos riscos. «E nós queremos saber que riscos são esses: perguntamos aos deputados da AR e ao ministro da saúde mas não obtivemos resposta». Em causa está «o direito à informação na saúde reprodutiva».

A relação entre o aborto e o cancro da mama não é pacífica, com especialistas de ambos os lados a esgrimirem argumentos contrários. Alguns estudos apontaram evidências no sentido de a IVG aumentar o risco, com cientistas a afirmar que esse crescimento pode mesmo chegar ao dobro, mas outros especialistas garantem que os dados não são ainda suficientes.

Razões que levam, por exemplo, Carlos Sottomayor, especialista em oncologia médica do hospital Pedro Hispano, a afirmar a necessidade de se promoverem estudos para a população portuguesa. Do ponto de vista da oncogénese, afirma, existem razões para pensar que as IVG aumentam o risco de um tumor maligno mamário: «no início de uma gravidez há uma grande estimulação estrogénica da mama. Em caso de aborto, essa situação não é neutralizada pelo parto ou pela amamentação e torna-se assim um factor de risco». Um perigo que pode também acontecer nos abortamentos espontâneos, excepto quando estes acontecem exactamente por deficiente estimulação estrogénica que não dá o suporte hormonal necessário ao prosseguimento da gravidez.

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