Público - 5 Mar 04

Alunos Vão ao IPO Ver Consequências Nefastas do Tabaco
Por BÁRBARA WONG

Diana, Márcia e Fábio, alunos do 3º ciclo, vestem batas verdes, põem máscaras na cara e uma touca no cabelo. Estão a preparar-se para entrar numa sala do Instituto Português de Oncologia de Gentil Martins (IPO), em Lisboa, onde vão assistir a uma broncoscopia.

Dois pisos abaixo, no anfiteatro, estão cerca de 130 colegas da Escola Básica de 2º e 3º ciclo António Gedeão, em Odivelas, que vão acompanhar, projectado no ecrã, o mesmo exame pulmonar. O objectivo é dar a conhecer aos estudantes com idades entre os 13 e os 16 anos as consequências nefastas de fumar.

Pela primeira vez, o IPO abriu as suas portas a uma escola, para mostrar como se vive com doenças associadas ao consumo de tabaco. A ideia partiu da equipa de saúde do Serviço de Pneumologia, conta o enfermeiro-chefe, Carlos Pires. "É uma iniciativa que pensamos ser oportuna na área da prevenção", declara.

Assim que os três alunos entram na sala onde vai decorrer o exame, a enfermeira Ana Isabel Costa apresenta-lhes a equipa do médico Jorge Dionísio. Os estudantes cumprimentam. João, o doente de 49 anos, sorri-lhes e pergunta: "Vocês fumam?" Por trás das máscaras, eles respondem imediatamente que não. João encolhe os ombros e volta a sorrir, com um ar resignado.

A enfermeira vai perguntando ao doente há quanto tempo é que fuma e como se sentia até ter chegado ao hospital. João vai respondendo: desde os 13 anos que tinha o vício, ultimamente fumava três maços diários, começou a perder peso, a sentir-se cansado, com muita tosse e expectoração. "Perdi 12 ou 13 quilos", especifica. "Eu precisava de emagrecer...", comenta Diana. "Mas há maneiras mais simples", interrompe-a Fábio.

O médico começa por explicar o que foi observado nas radiografias e na TAC: uma mancha branca num dos pulmões. "O que é que esperam encontrar?", questiona Diana. "Possivelmente um cancro do pulmão, mas pode ser só uma pneumonia", responde Jorge Dionísio.

O exame vai começar. A sonda maleável é introduzida no nariz do doente. De cada vez que o anestésico é lançado pela sonda abaixo, João tosse muito. No ecrã vê-se tudo: as narinas, a base da língua, as cordas vocais, a expectoração. A viagem faz-se até à traqueia e, finalmente, chega aos pulmões.

Os alunos observam tudo com atenção. Uma das enfermeiras é chamada ao anfiteatro porque alguns estudantes sentem-se mal, muitos saem da sala, duas raparigas chegam mesmo a ser assistidas. No final da sessão, o professor de Educação Moral e Religião Católica, Ismael Guedes, um dos responsáveis pela visita, diz que é preferível os miúdos ficarem impressionados do que terem de voltar ao IPO, daqui a uns anos, com problemas semelhantes.

140 a 150 cancros por ano

"Vou fazer aqui a biopsia", continua o médico. No ecrã vê-se uma mancha mais escura num brônquio. A enfermeira assistente introduz uma pinça minúscula, presa num fio comprido, dentro da sonda. No ecrã vê-se a pinça puxar um bocadinho de tecido, o brônquio fica a sangrar.

"Que horror!", deixa escapar Márcia. "Que horror?! É bué da fixe", exclama Fábio, com os olhos colados ao ecrã.

A pinça sai, deposita a pele num copinho com formol e o procedimento é repetido. Os tecidos serão analisados e vai ser a partir deles que se poderá fazer o diagnóstico, explica a enfermeira Ana Isabel.

Anualmente, são diagnosticados entre 140 a 150 cancros do pulmão no IPO de Lisboa; apenas 10 por cento têm hipótese de tratamento curativo, avança o pneumologista Duro da Costa.

No anfiteatro, Duro da Costa convida alguns doentes a darem o seu testemunho. O médico quer que a mensagem chegue aos pais dos alunos. No final, alerta: "Não pensem culpar ninguém por falta de conhecimento. São vocês que têm de definir a linha da vossa vida e é nesta fase que têm de o fazer." O recado fica dado, alguns saem da sala comentando que jamais irão tocar num cigarro.

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