São excelentes as
condições socioeconómicas em Portugal no início de 2003.» Esta é a primeira
frase no último relatório da Fundação Richard Zwentzerg. Este instituto
internacional dedicado aos estudos lusitanos, cujos textos só são acessíveis no
DN, está exuberante sobre as perspectivas próximas do nosso país, ao contrário
da generalidade dos analistas. As causas disso são surpreendentes. O volume
descreve a situação em termos muito semelhantes aos habituais. Os primeiros
capítulos são próximos dos homólogos nas análises da Comissão Europeia, OCDE,
Banco de Portugal, etc. Refere-se que o País está em recessão conjuntural e no
meio de várias dificuldades estruturais. Nos problemas de curto prazo estão o
endividamento nacional, a fragilidade financeira, a subida do desemprego e da
pobreza, os problemas orçamentais, as más condições internacionais. No horizonte
mais longo, menciona-se a baixa produtividade, os desafios da integração
europeia e a ameaça de Espanha, a falta de atenção à imigração, os problemas na
educação, justiça, saúde, função pública e, em geral, os bloqueios criados pela
regulamentação estatal.
É no capítulo 5 que começam as grandes
diferenças. Porque, depois deste quadro negro, o relatório retira dele as
melhores previsões. «Este enquadramento perspectiva a mais auspiciosa evolução
dos últimos 20 anos», diz o texto. «A fundação está mesmo a preparar todos os
seus recursos para documentar, pela primeira vez ao vivo e em directo, o famoso
"milagre português" que tantos têm citado». As causas deste esfusiante
entusiasmo vêm detalhadas logo a seguir. «Portugal só consegue grandes avanços
quando as condições são completamente adversas e ninguém sabe como resolver a
situação. Foi assim no século XV e XVI, quando o minúsculo Portugal construiu o
primeiro império mundial contra tudo e todos, e em meados do século XVII, quando
foi das poucas zonas que se libertou do esmagador poderio espanhol. Foi assim
nos anos 1960 em que, apesar da guerra e da maciça emigração, bateu recordes de
crescimento. Foi assim em 1975 depois do choque do petróleo, da revolução e da
perda das colónias, ao conseguir consolidar a democracia. Ou em 1986, em que o
País mais pobre de sempre a entrar na CEE até hoje ganhou um lugar destacado na
Europa. Esses momentos são, ao mesmo tempo, as ocasiões de maior perigo e de
maior realização dos portugueses.»
Mas este factor tem outra face. «Pelo
contrário, quando tudo corre bem e as perspectivas são as melhores, os lusitanos
caiem no desastre. Foi assim quando o império estava no auge em 1580 e se perdeu
a independência, e com D. João V ao esbanjar o ouro do Brasil. Mais
recentemente, foi assim no início dos anos 1970 quando apodreceu o regime, ou de
1980 a 1983 quando, confiante na democracia assegurada, gerou a recessão que
quase comprometeu a adesão à Europa. Até a crise actual foi também fabricada no
período dourado da economia mundial de 1995 a 2001, que Portugal aproveitou para
desperdiçar a oportunidade e se perder numa montanha de endividamento, despesa
pública e regulamentação.» E o texto conclui: «A causa do paradoxo é simples: os
portugueses nunca planeiam, mas são geniais improvisadores. E deixam tudo para a
última hora. Assim, os próximos vão ser meses difíceis. O sofrimento será mesmo
grande. Mas é só nessas ocasiões que os portugueses fazem milagres.»