Público - 3 Mar 03

"Aquela Imagem de o Psiquiatra Pôr as Pessoas a Dormir Está Ultrapassada"
Por ALEXANDRA CAMPOS

A depressão é uma doença das sociedades mais desenvolvidas, começa por dizer o psiquiatra do Hospital de Júlio de Matos, autor do livro "Esquizofrenia: Conhecer a Doença". O ideal, defende, seria cada doente ter um acompanhamento individual mas, por falta de formação e tempo os médicos recorrem muitas vezes apenas aos medicamentos. Fica, no entanto, uma "mensagem de esperança": apesar de o problema estar a aumentar, os tratamentos são cada vez melhores e mais bem tolerados.

A depressão é uma doença das sociedades mais desenvolvidas, começa por dizer o psiquiatra do Hospital de Júlio de Matos, autor do livro "Esquizofrenia: Conhecer a Doença". O ideal, defende, seria cada doente ter um acompanhamento individual mas, por falta de formação e tempo os médicos recorrem muitas vezes apenas aos medicamentos. Fica, no entanto, uma "mensagem de esperança": apesar de o problema está a aumentar, os tratamentos são cada vez melhores e mais bem tolerados.

PÚBLICO - Como é que se explica o impressionante aumento da venda de antidepressivos? Os portugueses estão mais deprimidos ou a doença está mais bem diagnosticada?
PEDRO AFONSO - As pessoas estão mais informadas sobre a doença e, como tal, procuram muito mais ajuda do que acontecia há 10 ou 20 anos. Também os médicos de família estão mais sensibilizados para o diagnóstico.

Por outro lado, sabemos que nos países desenvolvidos as doenças mentais têm vindo a aumentar progressivamente, nomeadamente a depressão. No fundo, é uma doença das sociedades mais desenvolvidas. Tem a ver com sociedades mais competitivas, com menos suporte social, onde a própria estrutura familiar tem sido muito abalada.

P. - Mas não haverá neste momento um excesso de prescrição de antidepressivos?
R. - Quando é feito um diagnóstico, deve ser feito um acompanhamento individual, quer farmacológico, quer a nível de apoio psicoterapêutico. O que se passa é que, muitas vezes, com a falta de formação e tempo que os médicos têm - principalmente os de família - muitas vezes não é feito o acompanhamento devido.

P. - O que é que falta fazer em Portugal?
R. - É necessário melhorar, em primeiro lugar, a informação clara sobre a doença e ajudar a orientar as pessoas, até para que saibam a quem recorrer. Há muitas pessoas com sintomas depressivos que percorrem outras especialidades queixando-se de problemas físicos - porque de facto a doença dá mal-estar, cansaço, fadiga, dores de cabeça - e andam muito tempo sem ser diagnosticadas.

P. - O número de psiquiatras em Portugal é suficiente para dar resposta à avalancha de casos?
R. - Não. É um contra-senso, mas o número de psiquiatras tem vindo a diminuir, enquanto o número de consultas está a aumentar. Inscritos na Ordem dos Médicos estão cerca de 800, mas alguns estão reformados e muitos, cerca de duas centenas, dedicam-se à área da droga.

P. - E relativamente ao diagnóstico das duas doenças mentais mais graves, a esquizofrenia e a doença bipolar?
R. - O que acontece na esquizofrenia, que se tem mantido estável, é um atraso no diagnóstico. Já a doença bipolar está subdiagnosticada e os números deverão aumentar no futuro, porque há pessoas que andam a ser tratadas como se tivessem apenas depressões e são bipolares.

P. - Na infância é possível detectar sinais que possam indiciar que a pessoa irá desenvolver este tipo de patologias na idade adulta?
R. - O diagnóstico é mais difícil, mas hoje em dia tem havido um esforço por parte dos psiquiatras e pedopsiquiatras para aferir sinais e sintomas. Por exemplo, a doença bipolar pode manifestar-se já na adolescência, com episódios hipomaníacos e maníacos. E, tal como acontece na esquizofrenia, por vezes fica exposta quando os adolescentes consomem drogas. A droga é um factor desencadeante. Analisando a sua história, os esquizofrénicos foram normalmente crianças mais fechadas, mais isoladas, com pouco contacto social [ao contrário, os adultos bipolares foram por vezes crianças hiperativas].

P. - O que aconselha os pais a fazer quando se apercebem de que algo está errado?
R. - Aconselho bom senso. Há situações que são perfeitamente transitórias e fazem parte do desenvolvimento, do crescimento. Agora, quando verificarem que os filhos apresentam alterações graves de comportamentos, por exemplo uma diminuição injustificada do rendimento escolar, devem pedir ajuda ao médico de família e ao pediatra que, em situações mais graves, encaminham para o pedopsiquiatra.

P. - A este nível ainda deve ser mais gritante a falta de especialistas.
R. - É. Habitualmente só há pedopsiquiatras nos grandes centros urbanos.

P. - Apesar de tudo, pode dizer-se que a situação está a melhorar?
R. - Gostava de deixar aqui uma mensagem de esperança: a depressão existe, está a aumentar, mas hoje temos tratamentos melhores, mais bem tolerados, igualmente eficazes ou até mais eficazes, permitindo mesmo que grande parte dos doentes continuem a trabalhar. Aquela imagem do psiquiatra pôr os doentes a dormir já está um bocado ultrapassada.

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