Vivemos num tempo que, tendo muito cuidado com o que
mete no estômago e pulmões, não dá atenção ao que
mete no cérebro. A cada passo ouvimos recomendações
sobre saúde, alimentação e ambiente, multiplicam-se
os produtos dietéticos, actividades saudáveis,
locais sem fumo.
Ao mesmo tempo todos passam horas a absorver o pior
lixo mental na televisão, computador, livros e
revistas.
Filmes boçais, sites infames, programas idiotas,
revistas escabrosas, videojogos obscenos, séries
imbecis constituem a dieta intelectual dos cidadãos,
tão conscientes da sua saúde física. Na ficção como
nas notícias, a violência extrema, pornografia
descarada, egoísmo, gula, desonestidade são produtos
comuns.
Assim é inevitável a descida ao abismo espiritual a
que se assiste. Sabemos bem que se não tivermos
cuidado com a nutrição e não atendermos aos
equilíbrios ambientais cairemos na obesidade e a
poluição será avassaladora. Não admira portanto que,
recusando-nos a formular orientações para o
espírito, se acabe na decadência ética e estética.
Isso em nome da liberdade, que rejeitamos na saúde e
ambiente.
A razão da situação é clara. Os nossos avós, sem
cuidado com comida, fumo e ecologia, eram moralistas
intolerantes. Nós, censurando-os asperamente,
corrigimo-los cuidando do corpo e libertando o
espírito. Isso foi-nos fácil porque, afinal, os
erros sanitários e a ditadura moral em que nos
educaram não eram tão graves que nos impedissem de
reagir. Os nossos netos saudáveis terão muito mais
dificuldade em recuperar da porcaria intelectual em
que nós os educámos.