A humanidade partilha alguns valores comuns que, em
qualquer cultura, época ou tradição, definem a sua
natureza. Um deles é o repúdio universal pelos
traidores. Desde sempre a infidelidade foi sumamente
desprezada, com delatores e apóstatas tratados com
asco. Mas se os princípios da raça humana são gerais
e permanentes, cada período, povo e doutrina
tradu-los à sua maneira, sublinhando uns, esbatendo
outros, nem sempre com o indispensável equilíbrio.
Vivemos num tempo onde a eterna abjecção pela
traição anda muito omissa. A cultura contemporânea
admira a liberdade e o individualismo, que deram
grandes ganhos na ciência, progresso e justiça. É
pois inevitável que as virtudes complementares,
lealdade ou obediência, acabem silenciadas ou até
menosprezadas. "Fidelidade canina" é insulto. Ainda
respeitamos os superiores e cumprimos deveres na
comunidade, mas admiramos o atrevimento dos rebeldes
e o engenho dos espiões, raramente condenando a sua
baixeza.
A traição é tanto mais tolerável quanto mais próxima
e efectiva é a afronta. No que toca aos princípios
abstractos apresentamo-nos tão fiéis como sempre.
Todos juram respeitar a justiça, democracia,
liberdade e afins. Mas descendo a coisas mais
concretas, como a pátria, a traição é muito menos
repudiada que em épocas passadas. O patriota é visto
como tolo e o nacionalista como perigoso. Quem fizer
acções gravemente opostas ao interesse nacional
basta que invoque ideologia ou interesses
particulares para isso ser compreensível ou até
aceitável.
Se o patriotismo é relativizado, ainda é mais vaga a
lealdade à comunidade, empresa, amigos.
Enxovalham-se chefes, acusam-se governantes,
suspeita-se de tribunais. Uma ligação, mesmo
institucional, só é sustentável enquanto o interesse
pessoal estiver alinhado com o grupo. Muda-se de
clube sem dificuldade e abandonam-se alianças sem
compromisso. Se houver problema é meramente legal,
porque eticamente a carreira, sucesso e até
comodidade de cada um são hoje argumentos para
justificar qualquer trânsfuga. Admira-se quem
denuncia os seus e desconfia-se de quem os defende.
Talvez não haja mais corrupção, mas como todos
pensam que há, isso é pior do que haver.
Passando a campos mais íntimos, na família a traição
até deixou de ser defeito. O adultério, sempre
frequente, tornou-se banal; o divórcio, antes raro,
passou a recomendável. A promiscuidade e o flirt são
o ideal. Nisso não se vê traição, mas mera expressão
da autonomia pessoal. Quem abandona mulher ou marido
e filhos está justificado porque, como o amor tinha
acabado, nada mais havia a fazer. A devoção conjugal
fica reduzida à condição de gasolina que se gasta
após alguns quilómetros. De injúria e quebra de
compromisso nem sequer se fala.
O limite encontra-se na religião, onde já nem se
consegue entender como possa existir traição. Cada
um é soberano nas suas relações com Deus e pode
quebrá- -las quando lhe apetecer. Os termos são
definidos a partir das opções e condições humanas de
cada um, não a partir da transcendência. É Deus e a
Igreja quem se devem dar por muito satisfeitos com a
nossa homenagem eventual. É comum ouvir frases como
"sou católico, mas..."; raramente "sou católico, por
isso...".
Existe ainda uma forma mais profunda e radical de
traição. Este texto começou afirmando que a
humanidade partilha alguns valores comuns que
definem a sua natureza em qualquer cultura. Hoje
este postulado é discutido ou rejeitado frontalmente,
vivendo-se um relativismo, quer filosófico quer
pragmático.
É verdade que a nossa era proclamou os direitos
humanos universais e muito se esforça por os
defender. Mas a sua aplicação concreta vem sujeita à
maior arbitrariedade. Esses direitos aparecem
compatíveis, e até justificativos de infâmias como
tortura, aborto, eutanásia, guerrilha, divórcio,
casamento sem casais, manipulações genéticas, pena
de morte, etc. Recusar a existência de valores
universais e objectivos é a suprema traição pessoal
porque constitui uma deslealdade à humanidade, à sua
própria natureza.