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Ecclesia - 29 Mai 03
A nova vaga da informação
Para simplificar, voltemos apenas dez anos atrás. Era impossível ver o que
hoje vemos na primeira página de qualquer jornal generalista. E mesmo as
televisões, já em tempo de concorrência, não se atreviam a uma informação
tão crua sobre questões como o crime, a violência, o sexo ou mesmo os
casos de saúde ou justiça. Por essas alturas - lembre-se
que a televisão em Portugal nasceu duas vezes, uma
estatal, outra privada - o aparecimento de novos canais
veio abrir uma rotura quase semelhante ao 25 de Abril, num
completo desafio aos modelos convencionais de informação e divertimento,
mesmo em liberdade.
O conceito de sensacionalismo, exploração informativa do interdito, secreto
e mesmo privado, tinha outras dimensões. Dir-se-ia que era outra ética,
outro o contexto de fontes, outra a utilização do segredo, mesmo de
justiça. Grande parte dos jornalistas rejeitará as
objecções às novas regras de informação que hoje,
tacitamente, inspiram o mercado da notícia. Na situação
em que estamos, quem cala consente e o jornalismo que não anunciar e
denunciar pessoas e casos que infrinjam direitos a indefesos, parece
trair a verdade e o serviço do povo, sobretudo daquele
que não tem acesso à justiça eficaz e célere. Por isso os
roubos, assaltos, violações e desavenças são contados ao
pormenor de intriga de aldeia, como se todos falássemos á boca
pequena do que acontece aos nossos vizinhos e das inúmeras desgraças que
alastram pelo nosso pequeno bairro. Acresce a todo
este emaranhado que a moralidade pública vive de marés. As
modas condicionam as exaltações e a rejeição de atitudes que se
transformam em virtudes ou pecados da época. Há claros
benefícios públicos com a supressão de privilegiados
intocáveis ou imunes. Mas há novas oportunidades e
pretextos para a prática de injustiças e crueldades irreparáveis. E se a
pena de morte é condenável por que nunca restitui a vida a ninguém que
foi injustamente condenado, também aqui resulta
irremediavelmente perdido quem cai nas garras de um
testemunho falso ampliado pelos media em todas as praças
da terra. Talvez, por isso, seja um tempo propício para lançar novos
desafios éticos à nova vaga de informação.
A Pacem in Terris, há quarenta anos, apelava à consciência da humanidade
para qualquer situação de injustiça geradora de guerra entre pessoas,
grupos e nações. Os jornalistas do terceiro milénio têm
de perguntar-se que contributo oferecem para justiça e
para paz no país real que vivemos.
António Rego

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