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Público - 29 Mai 03
Ministério Vai Avaliar Candidatos a Professores
Por ISABEL LEIRIA
Aos futuros professores não bastará a obtenção de um diploma de ensino superior
para poderem ingressar automaticamente na carreira docente. O Ministério da
Educação quer ter uma palavra a dizer, não só na definição do perfil e
competências dos licenciados, como na avaliação dessas capacidades.
Para isso será criado um "período de indução e respectiva avaliação". Esta
prestação de provas acontecerá depois de concluído o curso e será totalmente
independente das instituições de ensino onde foi feita a formação. Só quem ficar
aprovado poderá começar a dar aulas.
Esta é uma das novidades contidas na proposta de Lei de Bases de Educação (LBE),
já apreciada em Conselho de Ministros e ontem apresentada por Durão Barroso e
pelos ministros da Educação, David Justino, e da Ciência e do Ensino Superior,
Pedro Lynce.
Dezassete anos depois de aprovada a actual Lei de Bases do Sistema Educativo, o
Governo entende ser necessário um novo quadro legislativo que traduza uma
"profunda reforma da educação em Portugal".
E a "reforma" passa desde logo pelo anunciado alargamento da escolaridade
obrigatória dos actuais 9 anos para 12. Determina o diploma que este objectivo
começará a ser protagonizado pelos alunos que, no ano lectivo 2005/06, se
inscrevam no 5º ano. Ou seja, os miúdos que agora se encontram matriculados no
2º ano, e que nunca chumbem, terão de cumprir os 12 anos de escolaridade
obrigatória.
"Muito poucos países têm este nível de exigência", sublinhou o
primeiro-ministro. Há no entanto um grande esforço a fazer na mudança das
mentalidades: os dados mais recentes indicam que quase metade (45 por cento) dos
jovens entre os 18 e os 24 anos abandonaram a escola sem concluir o ensino
secundário.
A proposta de LBE estabelece que a obrigatoriedade de frequência do ensino
básico termina aos 15 anos. Os jovens que não pretendam concluir o ensino básico
após aquela idade devem ser "obrigatoriamente" encaminhados para programas de
formação vocacional adequados.
Quanto ao ensino secundário, propõe-se a sua gratuitidade e obrigatoriedade,
terminado o "dever de frequência" no máximo aos 21 anos. Aqueles que,
ultrapassada esta idade, não pretendam concluir o secundário, devem ser
orientados para programas de formação vocacional ou profissional.
A consagração de mecanismos que promovam a aprendizagem ao longo da vida é
outras das ideias chaves do diploma.
Fica ainda consagrado que tanto escolas públicas como privadas podem integrar a
rede de estabelecimentos de serviço público de educação e de ensino e que um dos
objectivos do sistema educativo é o de "assegurar a liberdade dos pais e dos
jovens de escolherem as escolas a frequentar". Conhecida a intenção de garantir
a opção de escolha no ensino secundário público, o próximo passo deverá ser o
alargamento ao básico.
Directores terão de ter formação em gestão escolar
Tal como o novo regime da formação de educadores e professores será objecto de
futura regulamentação, também o novo modelo de gestão das escolas ficará
consagrado num diploma específico. Mas a proposta de LBE já abre as portas à
chamada "profissionalização da gestão dos estabelecimentos de ensino". Propõe-se
assim que os presidentes dos conselhos executivos sejam escolhidos "mediante
processo público, que releve o mérito curricular e o projecto educativo
apresentado, e detenham a formação adequada ao desempenho do cargo".
"Trata-se de uma área onde é vital obter acréscimos de competências, de
especialização, de transparência, de independência perante os vários interesses
que se manifestam nas escolas e de responsabilidade", justifica-se na exposição
de motivos da proposta de lei.
Para a prossecução destes objectivos, entende-se que os candidatos a director
tenham de ter uma formação específica em administração escolar. "O voluntarismo
tem de dar lugar ao profissionalismo", sustentou Durão Barroso, em relação a uma
das alterações que mais contestação tem levantado junto dos sindicatos.
O diploma já seguiu para o Parlamento, que terá a incumbência de suscitar o
debate. Porque "uma reforma desta natureza é, sobretudo, uma tarefa de
gerações", o primeiro-ministro manifestou o desejo de se chegar "a um consenso
alargado na sua aprovação".

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